quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Árvores

Desenho: Dudu GuimaS - Colorido: Roberta GuimaS
Não ventava. As árvores pareciam promover entre si um breve desafio. Ai da folha que ousasse se precipitar e pusesse tudo água abaixo; embora água ali não houvesse. Ao menos, nesta história seca, não foram encontrados registros que levassem a uma interpretação literal da imagem criada. E, à pertinente ideia de levar tudo ao pé da letra, esclareço que o registro citado tampouco tem relação com a chave que regula a passagem de um fluido. Muito pelo contrário. Nem água, nem vento. As copas das árvores permaneciam imóveis. E, mesmo paralisadas, havia certo ar de apreensão entre elas, que se conservavam vigilantes, a espera do descuido alheio para enfim apontarem o ato em falso do vizinho e assim eliminarem progressivamente uma a outra até a definição da finalista.

Nada de inusitado neste cenário em que árvores brincam de estátua para vencer o tédio da ausência de vento. O tédio, diga-se de passagem, é algo pavoroso, não o desejo a nenhum ser, animal ou vegetal. A falta de vontade, a apatia, a incapacidade de tornar interessante o cotidiano são uma daquelas pestes que causam profunda aversão e verdadeiro pânico. Portanto não me espanto em ver duas Amendoeiras, uma Mangueira, uma Figueira e um Salgueiro-chorão brincando de estátua. Era uma das minhas brincadeiras preferidas na infância. Talvez porque ganhasse quase sempre dos meus amigos. Aliás, meu egoísmo infantil não me permitia aceitar a relutância do Cachoeira em brincar. Certamente também criaria alguma resistência se fosse eliminado amiúde de forma precoce. Faz sentido.

Como faz muito sentido esse apelido: Cachoeira. Reza a lenda que o pobre foi chamado pela primeira vez deste nome no dia em que entrou pela porta de vidro de uma loja de brinquedos. Assim como dez entre dez meninos de onze anos, o Cachoeira era louco pelo "Pegasus", o carro de controle-remoto mais sensacional dos anos 80. Quando bateu o olho e viu a caixa estampando aquela máquina prateada com rodas de liga-leve, não pensou duas vezes, foi sedento ao encontro do brinquedo com a sanha de revelar à mãe sua primeira e única opção de presente de Natal. Dizem que a transparência da porta era tamanha a ponto de iludir até os mais atentos, mas, no caso do Cachoeira, parece detalhe, o hipnotismo momentâneo foi mesmo o ponto preponderante, fazendo o coitado passar como uma bala pelo vidro da loja. Dispensável dizer que se cortou inteiro, era sangue da cabeça aos pés. Daí surgiu o mais impressionante da história. Seu choro foi tão copioso, suas lágrimas tão caudalosas, que foram descendo pela face e inundando o corpo, lavando o sangue que jorrava por todo o lado como se o menino estivesse mergulhado em uma tranquilizante e reparadora cachoeira.         

Voltando às árvores que permaneciam brincando inertes, percebi uma algazarra silenciosa quando o Salgueiro-chorão foi denunciado por movimento furtivo. Eu confesso não ter observado, mas devo dizer ainda que a lembrança do Cachoeira me tirou um pouco a concentração da brincadeira. Entretanto não me arriscaria advogar a favor do Salgueiro porque, segundo consta, seu último nome veio incorporar-se por autoria da Mangueira, muito embora os estudiosos da botânica tenham uma versão diversa. Alegam que formato alongado e fino das folhas e sua projeção voltada para baixo emprestam um ar melancólico à árvore. Particularmente, a história da Mangueira me parece mais fiel à realidade. O Salgueiro-chorão ganhou esse apelido pelo simples fato de não aceitar perder na brincadeira. Reluta, tentando convencer os demais com argumentos pouco convincentes e, ao final, sem obter sucesso, se debulha em lágrimas até se cansar.


Deixando de lado a manha do Salgueiro, pouco a pouco, as eliminações foram acontecendo, instando como grande campeã da noite a Figueira que perseverou como uma estátua fiel durante dez intermináveis minutos sem uma brisa sequer. Porém, em se tratando de natureza, as mudanças de humor são quase sempre intempestivas. O vento, que não dava as caras, começou chegando de mansinho, primeiro fazendo tilintar o furín pendurado no teto da varanda. E depois trazendo como companhia uma rajada gelada e úmida que me obrigou a encolher de frio.  As árvores agora bailavam com seus diversos braços soltos pelo ar, tremulando suas cabeleiras verdes para compensar a ausência do movimento que não poderia provir das pernas, inertes de nascença. Já passava das duas, melhor voltar pra cama. E que, desta vez, eu possa dormir até de manhã.
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sábado, 11 de janeiro de 2014

Brigar Não Vale a Pena

(Adaptação para teatro)



Desenho: Dudu - Colorido: Roberta

Quarto iluminado apenas por um abajur localizado na mesa de cabeceira, bem ao lado da cama onde o marido costuma se deitar. A mulher dorme pesado, ela está sozinha. Ele aproxima-se sonolento, havia adormecido no sofá da sala. Antes de se acomodar, o homem se senta na cama e procura acordar a esposa com suavidade. Primeiro, a chamando carinhosamente, quase sussurrando:

        — Lili, ô, Lili, acorda... Lili, acorda, vai...
        Ela nem se mexe. Ele resolve acariciar os cabelos da mulher, com leveza pra não assustá-la. Sabia o quanto sua esposa ficava irritada por ser acordada de forma abrupta. Esforçava-se para tentar despertá-la da maneira mais branda possível. Enquanto passava levemente os dedos pelos fios de cabelo que repousavam alinhados ao limite do ombro dela, permanecia sussurrando. Desta vez, um pouco mais alto:
        — Acorda, minha linda. Eu preciso falar contigo...
        Nada. Ela permanecia impassível. Ele olha para o lado e encontra sobre a cama uma pena de cor azul clara. Por incrível que pareça, o homem realmente pensou que seria uma boa ideia acordá-la movimentando delicadamente o seu achado pela orelha da mulher. Na terceira passada, a ponta da pena penetra a entrada do ouvido e sua esposa dá um salto:
        — Que merda é essa! — Ela grita assustada, coçando a orelha e demonstrando muito incômodo.
        — Calma, Lili, sou eu.
        — Isso é jeito de acordar os outros, Luiz Alberto? Que porra é essa que você enfiou no meu ouvido?
        — Caramba! Precisa desse circo todo? É só uma pena! Eu não conheço nada mais leve e suave que uma pena...
        — Ah, tá, quando você tiver dormindo então eu vou ficar passando uma pena no olho do seu cu pra ver se você desperta carinhoso...
        — Nossa mãe! Achei que eu tava chamando delicadamente a minha doce Lili, mas acabei acordando a porra da Dercy Gonçalves...
        — Porra, Luiz Alberto, me acordar com uma pena?! Onde é que você encontrou essa merda?
        — Tava aí, pela cama.
        — Cacete! Os meninos jogaram peteca no nosso quarto novamente. Já falei pra aqueles garotos que eu não quero bagunça aqui.
        Ah, não exagera, vai! Peteca é uma brincadeira saudável. Hoje a gurizada só quer saber de videogame... Melhor brincar de peteca que ficar enfurnado no quarto jogando GTA. Ainda bem que os meninos não estão nessa.
        — Quem disse que não?! Eles ganharam de dia das crianças. E que eu saiba, eles estão viciados no GTA 5.
        — Como "ganharam de dia das crianças"? E eu não sabia de nada?
        — Não sabia porque, quando eu falei, você devia estar vendo a merda do jogo do Flamengo e ficou fazendo cara de paisagem, concordando com tudo o que eu dizia.
        — Aí você aproveitou, né?
        Ela apenas faz um gesto abrindo os braços com as mãos espalmadas, sorrindo levemente e levantando as sobrancelhas, como se dissesse: "quem mandou?"
        — Mas logo o GTA 5, Maria Eliza?! O Matheus tem 6 anos, porra!... O Lucas tem 10, mas ainda não tem nem pentelho.
        — É... Vê-se que você não se liga muito nos detalhes...
        — Por quê? Ele já tem pentelho?
        — Não, Luiz Alberto, nem a idade dos seus filhos você sabe direito... E foi bom você me avisar que pra jogar GTA precisa ter pentelho. Eu ia dar aquela depilada geral pra dar uma apimentada, fazer uma coisa diferente, sei lá... Mas como eu quero jogar também pra ver como é o negócio, vou ter que deixar pelo menos o bigodinho...
        — Ha-ha-ha (debochando). Muito engraçada você. Eu estou sério assim na aparência, mas meu cérebro tá dando cambalhotas de tanto rir.
        — Beleza, você não me acordou pra falar sobre isso, né? Desembucha logo e deixa eu dormir, vai.
        — Porra, Maria Eliza, GTA 5?!
        — Minha nossa! O homem voltou com o assunto...
        — Claro, você acha normal eles terem contato com esse universo? Nesse jogo o cara fuma maconha, sai roubando e matando quem aparece pela frente...
        — Putz, ele fuma maconha? Achei que só roubava uns carros e cortava a cabeça das pessoas...
        — Hein?!!!
        — É que sobre roubar e matar eu já conversei com eles, falei que era errado e entenderam bem. Mas, da maconha, eu não sabia...
        — Tá bom, tá bom, deixa... Vamos ao que interessa. Eu te acordei pra gente terminar a conversa que não terminamos ontem.
        — Ok, mas à 1h da manhã? A gente não poderia falar num horário mais apropriado?
        — Poderia sim, mas você tem problema em concluir as coisas que começa.
        — Como assim? Do que você tá falando?... Mais de três bilhões de homens no mundo e eu fui casar com o único cara que insiste em fazer D.R... E de madrugada!
        — Nossa, mas você tá tão espirituosa... Fazendo piadinha sofisticada... Com estatística e tudo... Andou lendo a Superinteressante por esses dias?
        — Ai, minha nossa senhora dos sonâmbulos, por que será que nós não terminamos o raio da conversa que começamos ontem?
        — Você não se lembra, eu te digo por quê. Quando a conversa estava chegando perto de uma possível conclusão, começou a sua novelinha... 
        — Mas depois que a novelinha acabou, começou o seu joguinho... 
        — E quando acabou o joguinho, cadê você? Já tinha ido pra caminha...
        — Claro, você queria que eu ficasse do seu lado fazendo a análise da partida?... E você fala como se tivesse passado muito tempo: "Oh! A conversa que não terminamos ontem". Ontem o cacete! Tem algumas horinhas só... E o senhor certinho não pode esperar um tempinho pra concluir as coisas que inicia.
        — Quer saber, dona Maria Eliza, eu me orgulho mesmo de ser certinho. E foi ontem sim que começamos a conversa. Como já passou da meia-noite, um novo dia se iniciou...
        — Certo, e o que você precisa terminar comigo que não pode esperar nem o dia amanhecer?
        — Você não muda mesmo, né, Maria Eliza?
        — Não mudo o quê, Luiz Alberto?
        — Não muda esse jeito de nunca terminar o que inicia?
        — Do que exatamente você tá falando agora?
        — Por exemplo, quantos cursos de inglês você já se matriculou na vida?
        — Sei lá, uns cinco ou seis...
        — E concluiu algum deles?
        — Não, mas...
        — Faculdade. Foram três: Direito, Administração e Arquitetura. Pergunto: é formada?
        — Não...
        — Até aquele negócio lá, como é mesmo o nome, que as pessoas se reuniam umas nas casas das outras e quem entrava fortalecia quem havia entrado antes...
        — Pirâmide?
        — Isso!
        — Ah, pera lá! Aí você pegou pesado. Isso era a maior roubada. Fiz muito bem de não ter concluído.
        — Tudo bem, mas não está em discussão a qualidade do negócio. O fato é que você não conclui nada que inicia.
        — Ai, minha santa paciência, será então que a gente não pode, se não for pedir muito, terminar aquela conversa que não terminamos ontem?
        — Podemos, claro. Sempre há uma primeira vez na vida.
        — Chega! Cacete! Fala logo que merda é essa que a gente estava conversando e que não terminou senão eu não respondo mais pelos meus atos.
        — Calma, era justamente sobre isso.
        — Sobre isso o quê, Luiz Alberto?
        — Sobre o fato de vivermos brigando por motivos idiotas.
        — E por que mesmo a gente começou essa briga agora?
        — Sei lá, acho que você não curtiu muito a forma como eu te acordei.
        — Ah, sim, a pena...
        — Desculpa, viu, Lili. Vou tentar segurar a onda, vou procurar ser menos exigente contigo, com os meninos... Vou prestar atenção em você mesmo quando estiver vendo o jogo do Mengão...
        — Olha lá, Beto... Não promete aquilo que não vai conseguir cumprir...
        Ele sorri. Ela corresponde o sorriso e diz:
        — Tô brincando.
        — Você tá com muito sono?
        — Agora não mais. Por quê?
        — Por que a gente não termina aquilo que estávamos fazendo ontem de manhã?
        — A gente deixou de terminar mais alguma coisa?
        — Não lembra? O Matheus entrou no quarto de repente pra avisar que a excursão da escola tinha sido cancelada...
        — Huuummm... E onde mesmo a gente parou?
        — Eu estava beijando seu pescoço. Maior climão...
        — Então pode começar. Estou pronta.
        — Sei... Jura que agora vamos até o fim?
        — Ah, bobo!... Disso você pode ter certeza!
        Risos.
        Ele apaga a luz do abajur.


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sábado, 14 de abril de 2012

Ponto de Ônibus

Desenho: Dudu - Colorido: Roberta
Cheguei um pouco antes do horário para não correr o menor risco. Àquela altura, a meia do pé direito já começava incomodar com uma impertinência maior, quem sabe querendo se vingar por não ter lhe dado a devida atenção enquanto me vestia. Saí às pressas, com um naco de pão na boca e sorvendo o último gole de café com leite que passou pela garganta como se deixasse um rastilho do qual ainda não consegui me recuperar. Mal penteei o cabelo e, de alguma forma, isso trazia certa preocupação. Controlei os passos sistematicamente para que fossem apressados, porém numa cadência tal que não me fizesse transpirar. Impossível, mais um revés. Pior dos mundos: suado e descabelado, as minhas chances estariam sensivelmente reduzidas.

Os últimos postes de luz iniciavam seu período de repouso. Estiveram vigilantes a noite inteira, olhos acesos e presentes, perscrutando os movimentos mais furtivos ou simplesmente contemplando o quase silêncio de uma madrugada chuvosa. Nada mais merecido que se entregassem ao sono dos justos. Do alto, os matizes azulados cada vez mais claros se encarregavam de espanar as derradeiras nuvens, sinalizando não somente o início de uma bela manhã ensolarada, mas sobretudo indicando que os despertadores da turma das seis da matina iriam entrar em ação não demoraria cinco minutos. O ponto de ônibus conservava-se vazio.
  
Ao sentar, experimentei uma sensação de frio úmido se espalhar pelo jeans. Aquele pedaço de concreto coberto de madeira fina que, salvo engano, deveria estar ali para servir a mim - e a quantos fossem - não foi nada receptivo. Imagina que ainda não havia se livrado das últimas gotas de chuva, teimosamente presentes como se quisessem pregar uma peça nos mais desavisados. Devia ter desconfiado da indiferença com que o banco me recebeu, talvez irritado por eu ter chegado tão cedo e tê-lo feito despertar cinco minutos antes da hora convencional. E quem não se dá conta de quão preciosos são cinco minutos a mais de sono?!  Pensando bem, no contexto presente, eu era o elemento fora da curva, ninguém senão eu mesmo resolveu romper a rotina, pegando a todos de surpresa. Nada mais justo que me pusesse de pé para aguardar a condução. No entanto, isso seria muito lógico se estivesse, de fato, esperando a chegada do próximo ônibus.

Suado, descabelado e agora com as calças molhadas... As chances foram de vez para o beleléu! Preciso manter a calma. Por mais que tudo não tenha saído exatamente conforme havia calculado, o relógio continuava a meu favor. A incidência de automóveis na via parecia se intensificar rapidamente e o ponto passava a ficar abarrotado de pessoas com olhares apressados, muito embora uma parcela - eu diria a maioria - conserva certa madorna naturalmente compreensível. De onde havia surgido tanta gente num espaço de menos de dez minutos?! Um tempinho atrás, era a única viva alma a perambular por aí. De manhã, de repente, parece soar um sinal e, ao mesmo tempo, estudantes e trabalhadores começam brotar do solo aos borbotões. Sempre achei intrigante este fenômeno - creio que podemos chamar de fenômeno tal a complexidade do comportamento humano. Pra minha surpresa, ou melhor, decepção o que interessava mesmo ainda permanecia recôndito aos olhos do dia.

Ontem, foi a conta certa. Ela chegou no preciso momento em que sua condução encostou próxima ao meio-fio. Eu vinha do lado oposto e, pra minha felicidade, ainda tive tempo de confirmar aquilo que parecia ter enxergado a uns metros de distância. Era linda, muito linda, linda demais. Cabelos ondulados até os ombros, inesquecivelmente castanhos, olhos amendoados, memoravelmente verdes, boca polposa, expressivamente vermelha, pele morena recobrindo pernas e curvas inequivocamente delineadas. Pegou o ônibus exatamente às seis e cinco, sem que me desse chance de me aproximar e dizer qualquer bobagem apenas para puxar assunto. Dispensável confessar que passei as últimas 24 horas com a ideia fixa de abordá-la, torcendo para ganhar uns dois ou três minutos entre o provável momento de sua chegada ao ponto e a irritante pontualidade do carro das seis e cinco.

E por falar nele, aí está... Indefectivelmente, no horário habitual. No entanto, nem sinal dela. Embora uma pontinha de angústia ensaiasse ganhar corpo pela possibilidade de não encontrá-la, a esperança de que estivesse apenas atrasada encheu-me de ânimo. Devia ser nova no bairro, provavelmente desacostumada com o horário da condução. Pensando bem, melhor sentar e esperar. O banco havia abandonado inteiramente o comportamento inóspito de minutos atrás... Seis e dez: descartei o meu primeiro ônibus... Seis e quinze: ela perdeu o segundo... Seis e vinte: tensão pura... Seis e vinte e cinco: meus deus, nem sinal dela!... Às sete e meia, subi desesperançoso os degraus do transporte que me levaria ao colégio e me afastaria do objetivo – ao menos, por mais um longo e tortuoso dia. Pelo jeito, as próximas 24 horas vão ser de lascar!
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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Borboletas


Desenho:Dudu - Colorido:Roberta
Eram duas borboletas de cor laranja. Voavam apressadas, movimentos circulares. Uma parecia seguir a outra, reproduzindo fielmente cada meneio de asa. A primeira demonstrava-se decidida na escolha da trajetória, muito embora seu voo célere, cheio de sestro, pudesse sugerir qualquer coisa de aleatório ao olhar mais desatento. Imagina. Começavam ao rés da calçada de cimento, que era adornada por canteiros coloridos e perfumados às primeiras horas da manhã – um verdadeiro presente aos sentidos. Iniciavam a subida espiralada até determinada altura e retornavam em sentido inverso, descendo bem próximas ao ponto de partida, para novamente elevarem-se, ultrapassando sucessivamente a altura pregressa. E assim permaneciam gangorreando até se embrearem entre as folhagens de uma Quaresmeira roxa próxima ao portão.

Ao perdê-las de vista, reencontrei meu pensamento mesmo querendo evitá-lo. Não me dei conta do instante exato em que meus olhos despertaram pela primeira vez e pude assistir ao espetáculo das borboletas, trazendo com elas preciosos minutos de descanso. Passei a noite pensando nele, não preguei os olhos um segundo. Sinto corpo e mente fatigados decorrentes destas últimas 24 horas de pura tensão. Tentei rezar, juro. Várias vezes. Perdia sempre a concentração. A incerteza me consumia, tirava o meu sono, levava embora minha tranquilidade, assaltava meus planos, estrangulava minhas esperanças... Só em pensar na gravidade do quadro, tinha vontade de abandonar toda e qualquer vontade que ainda pudesse existir dentro de mim.

Acordo sobressaltada no segundo dia. Pensei estar em casa. Corpo moído, uma inoportuna dor cervical. Ele continuava imóvel na cama ao lado. O quarto, com seus janelões fechados impediam que a claridade tomasse conta do ambiente, mas os raios solares já desenhavam no teto meia dúzia de traços paralelos e luminosos. Achei por bem deixar o dia entrar. Seis horas da manhã e ele sequer deu sinal de vida. Da varanda, alcanço de imediato as borboletas laranja. Repetiam aquele mesmo ritual do dia anterior. Pareciam não se importar com o alvoroço causado pela ambulância irrompendo o portão com seus trabalhadores apressados. A cadência era preservada conservando invejável disciplina. O balé durou três prazerosos minutos até se perderem novamente na Quaresmeira.

Estou um caco. A madrugada foi terrível, ele se agitou como nunca desde o acidente. Permanecia inconsciente, mas algo dentro de mim dizia que sua recuperação não evoluía conforme o esperado. Não encontrei no teto vestígios de que seríamos recebidos por uma manhã clara e sorridente, e o barulho da chuva ainda tímido confirmou imediatamente minhas impressões. Ao abrir a veneziana de madeira, procurei automaticamente as borboletas, porém não as avistei de pronto. Por detrás do janelão de vidro – já todo decorado de gotas desenhadas à distância pelas nuvens cinzentas –, perscrutava o ambiente exterior do hospital, que ostentava um formoso jardim, com seus canteiros bem-cuidados, entrecortado por belas alamedas. Surpreendi-as ali, próximas ao portão. Encerravam o movimento quando fui acometida de súbito pelo inédito desfecho. Em vez de seguirem juntas até a Quaresmeira, partiram em direções opostas para minha curiosa admiração.

O boletim médico não foi nada animador na passagem do terceiro para o quarto dia. A chuva não deu trégua nestas últimas 24 horas. Meu deus, ele vai sofrer a segunda cirurgia para remover um novo coágulo formado no cérebro. Estou em pânico. Desde o momento em que apareceu com aquela maldita motocicleta, senti um aperto no peito. Achava bobagem quando ouvia a mamãe ter esses pressentimentos, mas, não sei explicar o porquê, aconteceu também comigo. Dele, consegui, ao menos, a promessa de que venderia aquele troço tão logo eu engravidasse. Aliás, para a nossa profunda decepção, tentávamos há porfiosos três anos, porém sem sucesso... Resolvi olhar a paisagem. Assim como eu, a Quaresmeira aparentava se desapontar com a ausência das borboletas. Elas não deram o ar da graça naquela triste manhã.

Voltou para o quarto com um semblante mais animador. Mal peguei no sono, as enfermeiras chegaram trazendo na maca o meu tênue fio de esperança que ameaçava se romper a qualquer momento. Às quatro e meia da madrugada, a escuridão começava a se despedir paulatinamente, e eu na expectativa da chegada dos primeiros raios solares para esperar as borboletas, já não aguentava de tanta ansiedade. Enquanto aguardava, sem abrir as janelas, acariciei levemente o seu rosto. Lembrei-me de sua satisfação ao informar-lhe sobre o atraso do meu ciclo menstrual - três dias! Ele praticamente engoliu o café e saiu radiante porta afora rumo ao trabalho. Eu não pensei duas vezes, arremeti-me até a farmácia da esquina em busca do primeiro teste de gravidez que estivesse à disposição.

De volta, não contava em receber o sinal cruel do destino ao girar a chave da porta de casa. O telefone tocava insistentemente e, quando parecia desistir, respondi ao chamado já imaginando o que dizer para despachar rapidamente o interlocutor. A notícia do acidente fez o telefone despencar de meus dedos atônitos, a voz presa na garganta não conservava forças para se fazer presente e o aparelho estatelado no chão emitia palavras distantes e preocupadas pela ausência de retorno. Sentei-me. Devo ter levado uns dez minutos para reagir, partindo logo em disparada para o hospital.

O quinto dia nascia junto com uma gostosa intuição de tê-lo mais próximo da recuperação. O médico, embora cauteloso, deixava transparecer a certeza do restabelecimento breve, porém, não quis definir o prazo exato. Quanta felicidade! Nesses quase seis anos juntos, contabilizamos mais alegrias que desilusões. A nossa constante e incansável luta para conceber um filho acabou por nos aproximar de vez. Fizemos de tudo, desde as simpatias mais descabidas aos tratamentos mais modernos. Ingeri raiz moída de agnocasto, acendi vela dourada para Maria em noite de lua cheia, experimentamos posições sexuais mirabolantes – e ainda permanecia quase 20 minutos de bananeira após o coito –, inseminação artificial, indução de ovulação, fertilização in vitro...

Finalmente o teto do quarto começou a colorir sua superfície com estreitas ripas luminosas. Corri para descerrar as venezianas e abrir o janelão de vidro. O céu retribuiu os últimos dias chuvosos apresentando um magnífico azul como luxuoso cenário para o balé das borboletas. A Quaresmeira saudava os artistas com um largo sorriso roxo enquanto eu observava embevecida ao singular espetáculo oferecido com generosa discrição pela natureza. Apurei o olhar no intuito de verificar a surpresa reservada especialmente para esta manhã: em vez de duas, agora eram três borboletas deslizando pelo ar. Repetiram fielmente os mesmos movimentos até se embrearem nas folhagens. Corri até o armário para alcançar a bolsa. Lembrei-me do teste, ainda estava por fazer, jogado dentro de algum compartimento. No fundo, queria apenas confirmar o que as borboletas já haviam me revelado. 
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