quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Borboletas


Desenho:Dudu - Colorido:Roberta
Eram duas borboletas de cor laranja. Voavam apressadas, movimentos circulares. Uma parecia seguir a outra, reproduzindo fielmente cada meneio de asa. A primeira demonstrava-se decidida na escolha da trajetória, muito embora seu voo célere, cheio de sestro, pudesse sugerir qualquer coisa de aleatório ao olhar mais desatento. Imagina. Começavam ao rés da calçada de cimento, que era adornada por canteiros coloridos e perfumados às primeiras horas da manhã – um verdadeiro presente aos sentidos. Iniciavam a subida espiralada até determinada altura e retornavam em sentido inverso, descendo bem próximas ao ponto de partida, para novamente elevarem-se, ultrapassando sucessivamente a altura pregressa. E assim permaneciam gangorreando até se embrearem entre as folhagens de uma Quaresmeira roxa próxima ao portão.

Ao perdê-las de vista, reencontrei meu pensamento mesmo querendo evitá-lo. Não me dei conta do instante exato em que meus olhos despertaram pela primeira vez e pude assistir ao espetáculo das borboletas, trazendo com elas preciosos minutos de descanso. Passei a noite pensando nele, não preguei os olhos um segundo. Sinto corpo e mente fatigados decorrentes destas últimas 24 horas de pura tensão. Tentei rezar, juro. Várias vezes. Perdia sempre a concentração. A incerteza me consumia, tirava o meu sono, levava embora minha tranquilidade, assaltava meus planos, estrangulava minhas esperanças... Só em pensar na gravidade do quadro, tinha vontade de abandonar toda e qualquer vontade que ainda pudesse existir dentro de mim.

Acordo sobressaltada no segundo dia. Pensei estar em casa. Corpo moído, uma inoportuna dor cervical. Ele continuava imóvel na cama ao lado. O quarto, com seus janelões fechados impediam que a claridade tomasse conta do ambiente, mas os raios solares já desenhavam no teto meia dúzia de traços paralelos e luminosos. Achei por bem deixar o dia entrar. Seis horas da manhã e ele sequer deu sinal de vida. Da varanda, alcanço de imediato as borboletas laranja. Repetiam aquele mesmo ritual do dia anterior. Pareciam não se importar com o alvoroço causado pela ambulância irrompendo o portão com seus trabalhadores apressados. A cadência era preservada conservando invejável disciplina. O balé durou três prazerosos minutos até se perderem novamente na Quaresmeira.

Estou um caco. A madrugada foi terrível, ele se agitou como nunca desde o acidente. Permanecia inconsciente, mas algo dentro de mim dizia que sua recuperação não evoluía conforme o esperado. Não encontrei no teto vestígios de que seríamos recebidos por uma manhã clara e sorridente, e o barulho da chuva ainda tímido confirmou imediatamente minhas impressões. Ao abrir a veneziana de madeira, procurei automaticamente as borboletas, porém não as avistei de pronto. Por detrás do janelão de vidro – já todo decorado de gotas desenhadas à distância pelas nuvens cinzentas –, perscrutava o ambiente exterior do hospital, que ostentava um formoso jardim, com seus canteiros bem-cuidados, entrecortado por belas alamedas. Surpreendi-as ali, próximas ao portão. Encerravam o movimento quando fui acometida de súbito pelo inédito desfecho. Em vez de seguirem juntas até a Quaresmeira, partiram em direções opostas para minha curiosa admiração.

O boletim médico não foi nada animador na passagem do terceiro para o quarto dia. A chuva não deu trégua nestas últimas 24 horas. Meu deus, ele vai sofrer a segunda cirurgia para remover um novo coágulo formado no cérebro. Estou em pânico. Desde o momento em que apareceu com aquela maldita motocicleta, senti um aperto no peito. Achava bobagem quando ouvia a mamãe ter esses pressentimentos, mas, não sei explicar o porquê, aconteceu também comigo. Dele, consegui, ao menos, a promessa de que venderia aquele troço tão logo eu engravidasse. Aliás, para a nossa profunda decepção, tentávamos há porfiosos três anos, porém sem sucesso... Resolvi olhar a paisagem. Assim como eu, a Quaresmeira aparentava se desapontar com a ausência das borboletas. Elas não deram o ar da graça naquela triste manhã.

Voltou para o quarto com um semblante mais animador. Mal peguei no sono, as enfermeiras chegaram trazendo na maca o meu tênue fio de esperança que ameaçava se romper a qualquer momento. Às quatro e meia da madrugada, a escuridão começava a se despedir paulatinamente, e eu na expectativa da chegada dos primeiros raios solares para esperar as borboletas, já não aguentava de tanta ansiedade. Enquanto aguardava, sem abrir as janelas, acariciei levemente o seu rosto. Lembrei-me de sua satisfação ao informar-lhe sobre o atraso do meu ciclo menstrual - três dias! Ele praticamente engoliu o café e saiu radiante porta afora rumo ao trabalho. Eu não pensei duas vezes, arremeti-me até a farmácia da esquina em busca do primeiro teste de gravidez que estivesse à disposição.

De volta, não contava em receber o sinal cruel do destino ao girar a chave da porta de casa. O telefone tocava insistentemente e, quando parecia desistir, respondi ao chamado já imaginando o que dizer para despachar rapidamente o interlocutor. A notícia do acidente fez o telefone despencar de meus dedos atônitos, a voz presa na garganta não conservava forças para se fazer presente e o aparelho estatelado no chão emitia palavras distantes e preocupadas pela ausência de retorno. Sentei-me. Devo ter levado uns dez minutos para reagir, partindo logo em disparada para o hospital.

O quinto dia nascia junto com uma gostosa intuição de tê-lo mais próximo da recuperação. O médico, embora cauteloso, deixava transparecer a certeza do restabelecimento breve, porém, não quis definir o prazo exato. Quanta felicidade! Nesses quase seis anos juntos, contabilizamos mais alegrias que desilusões. A nossa constante e incansável luta para conceber um filho acabou por nos aproximar de vez. Fizemos de tudo, desde as simpatias mais descabidas aos tratamentos mais modernos. Ingeri raiz moída de agnocasto, acendi vela dourada para Maria em noite de lua cheia, experimentamos posições sexuais mirabolantes – e ainda permanecia quase 20 minutos de bananeira após o coito –, inseminação artificial, indução de ovulação, fertilização in vitro...

Finalmente o teto do quarto começou a colorir sua superfície com estreitas ripas luminosas. Corri para descerrar as venezianas e abrir o janelão de vidro. O céu retribuiu os últimos dias chuvosos apresentando um magnífico azul como luxuoso cenário para o balé das borboletas. A Quaresmeira saudava os artistas com um largo sorriso roxo enquanto eu observava embevecida ao singular espetáculo oferecido com generosa discrição pela natureza. Apurei o olhar no intuito de verificar a surpresa reservada especialmente para esta manhã: em vez de duas, agora eram três borboletas deslizando pelo ar. Repetiram fielmente os mesmos movimentos até se embrearem nas folhagens. Corri até o armário para alcançar a bolsa. Lembrei-me do teste, ainda estava por fazer, jogado dentro de algum compartimento. No fundo, queria apenas confirmar o que as borboletas já haviam me revelado. 
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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Chá das Onze



Desenho: Dudu / Finalização: Roberta
Esperou até a chaleira romper o silêncio da noite com um grito estridente e pontual reclamando a presença imediata da dona da casa na cozinha. O segredo para um chá saboroso – se é que estamos falando propriamente de um mistério guardado a sete chaves, não me parece o caso – é a temperatura da água. Nada mais, nada menos que cem graus célsius. A partir de então, bastava promover a união. E o casamento perfeito aconteceria diretamente no interior da caneca de porcelana, onde, já fazia alguns minutos, o saquinho de ervas da família camomila aguardava pacientemente para encontrar sua cara metade. E ela chegava fervendo, estuante, febril, ardente, como devem ser os encontros de dois elementos saborosamente afinados.

Sem adicionar açúcar, adoçante ou qualquer artifício em condições de modificar o gosto original do enlace que acabara de promover – isso seria um verdadeiro sacrilégio de acordo com suas convicções –, a mulher rumou para o estreito quintal nos fundos de sua casa. Paredes brancas e bem conservadas acomodando janelas e portas de madeira impecavelmente envernizadas delineavam uma área construída de pouco mais de sessenta metros quadrados. Se não dispunha de um lar com cômodos amplos, cuidava, ao lado do marido, com extremo desvelo para preservar seu aconchegante cantinho – como ela própria se referia à sua residência ao receber visitas. Prestes a completar quarenta e cinco anos de casados, viviam os dois ali, sozinhos, fazia bem umas três décadas.

Ao passar pela entrada do quarto, ouviu um ressonar contínuo sinalizando que seu companheiro dormia em sono profundo. Antes, porém, alcançou o aparador da sala de estar e abriu a única gaveta fechada à chave. Retirou de seu interior um conjunto de doze folhas amareladas, empalidecidas certamente pelo tempo em que jaziam no móvel e pelo seu manuseio diário. Repetia o mesmo procedimento todas as noites, antes de se deitar. A propósito, dependia emocionalmente daquele ritual e o cumpria com disciplina litúrgica, caso contrário encontrava-se rendida à saudade lancinante, nefasta, a ferir sua alma da maneira mais cruel e impiedosa. Um desassossego sem preço, sem medida.

Embora decidida, seguia a passos lentos pelo piso de sinteco que revestia a sala, os dois quartos e o corredor de acesso à cozinha, esta com o chão coberto de um porcelanato claro. Seus braços eram salpicados por uma infinidade de sinais que desenhavam, na pele curtida, as manchas trazidas pela ação do tempo. Os cabelos curtos e grisalhos e o rosto ligeiramente marcado emprestavam alguns anos a mais à senhora de olhos conformados, prestes a completar sessenta e três. Naquele instante, seus dedos calejados seguravam firmemente a caneca de um lado, enquanto, em oposição, sua mão esquerda espalmada comprimia o precioso documento contra o peito. Não teve maiores dificuldades em chegar ao quintal. Entreaberta a maior parte do dia, a porta dos fundos não exigiu de suas mãos ocupadas o acionamento da maçaneta.

Sentou-se num toco de madeira largo que fazia as vezes de banquinho. Posou a caneca ao seu lado na intenção de esperar alguns minutos até o chá atingir o ponto ideal para ser saboreado. A iluminação natural daquela noite de lua cheia contribuía consideravelmente com a única e fatigada lâmpada incandescente designada a dar conta de todo o quintal. Seus óculos, cujas hastes eram presas por uma fita improvisada que rodeava seu pescoço a maior parte do dia, foram devidamente posicionados. A exemplo das outras ocasiões, ao iniciar a leitura, foi tomada de uma emoção arrebatadora.

Há exatos vinte e um anos, passava diariamente os olhos atentos pelas linhas de grafia apressada da carta endereçada duplamente a ela e ao marido. Era o combustível da vida, a força motriz capaz de animá-la a enfrentar com resignação as provas mais duras da existência. Entre os goles de chá, sorvidos ao final de cada página, a esperança – que reclama cultivo cotidiano – renascia em seu coração dilacerado abruptamente, havia algum tempo, pela maior dor do mundo. Uma sensação aguda, indescritível, um sofrimento que parece não ter fim – e talvez não termine mesmo, apenas vai abrandando. E como aquelas letras garranchosas ajudam! Ajudam muito. 

Ao engolir a derradeira gota do chá de camomila, chegou ao último trecho da carta ditada por seu filho quatro anos depois do acidente de carro que o levou: “Fiquem em paz! Lembrem-se de que a morte não existe, apenas mudamos de roupa para renascermos na verdadeira vida. Estou bem e sempre por perto. Beijo, mãe e pai queridos!... Marquinhos.” De fato, ela sentia a constante presença de seu eterno menino, sobretudo naquele momento especial de cada noite. Após retirar os óculos, cerrou os olhos e fez uma breve prece de agradecimento. Estava mais leve, poderia dormir sem sobressalto. Já passava das onze.

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quarta-feira, 29 de junho de 2011

A Corrida



Desenho: Dudu.
Vez por outra, quando desviava o olhar para o chão, enxergava o conjunto de paralelepípedos passando rapidamente pela sola de seu tênis kichute. O sol ainda aparecia tímido por trás das montanhas naquela manhã, e a cidadezinha acordava para cumprir seu ritual matinal antes da missa das dez. A maioria das casas já havia recolhido o jornal e o leite, que madrugavam juntos na porta de entrada de cada domicílio aguardando pacientemente o momento de serem, enfim, convidados a entrar e então compartilhar mais um início de domingo em família.

Pelas ruas sinuosas e com pavimentação irregular, o menino corria numa velocidade como nunca havia experimentado antes. Seus cabelos, longos e dourados ao toque suave dos primeiros raios, serpeavam soltos pelo ar como se deleitassem o instante magnífico de permanecerem suspensos, livres em pleno voo. As pernas finas e compridas emprestavam-lhe um porte de maratonista, embora o tempo de respiração ligeiramente descompassado evidenciasse o caráter diletante do pequeno corredor. Impressionava, no entanto, a determinação com que vencia cada metro de chão, despertando a curiosidade de quem cruzava o seu caminho.

A carreira começou lá no terreno baldio, ao lado do campinho de futebol. A turma procurava a bola isolada em meio ao vasto matagal quando o moleque, de chofre, saiu em disparada. Entrou pela Rua dos Arbustos ainda meio atarantado e quase derrubou a barraquinha de balas e doces tradicionalmente localizada próxima à banca de jornal, na primeira esquina por que passou. Era necessário estar atento aos obstáculos, um tombo seria catastrófico para as suas pretensões. Sem diminuir o ritmo, concentrou-se, ao máximo, para desviar das raízes que desenhavam no solo perigosas armadilhas com suas miríades de ramificações em alto relevo. A rua mais arborizada do lugarejo, decididamente, não era o cenário mais convidativo para uma despretensiosa corrida que fosse.

Arfante, ganhou a Alameda das Camélias. O suor já começava a percorrer toda a superfície do corpo, e as pernas, paulatinamente, ensaiavam um pedido de descanso. Solicitação que era prontamente negada por um cérebro austero e resoluto, pois não havia tempo a perder, cada segundo era precioso. Toda a concentração no trajeto era pouca, embora a rua mais perfumada da localidade lhe trouxesse recordações profundamente agradáveis. Passou seus primeiros anos ali, numa casa pequenina, mas provida de um generoso quintal de onde sentia penetrar o odor das camélias em meio às mais variadas brincadeiras. Ele começava a sentir o mesmo cheiro doce da infância ainda fresca em sua mente...

Antes que os pensamentos fugidios ameaçassem seu desempenho, alcançou o trecho mais movimentado da Rua Torta. Deixou para trás a aconchegante – porém, naquele contexto, ameaçadora memória – para voltar o foco ao percurso. O bom corredor mantém sempre os olhos fixados no trajeto, calcula com precisão os pontos críticos do caminho, antevendo os percalços de maneira preventiva contra os possíveis acidentes. Era necessária muita cautela na via mais sinuosa da região. Àquela altura, completava dois terços do mapa de corrida traçado mentalmente a partir do momento em que saiu em franca disparada. Mantendo a velocidade, bateria sua meta, no máximo, em um par de minutos.

Ao entrar à direita, encontrou finalmente a grande reta. A Rua da Redenção parecia expressar, na mais pura acepção da palavra, o estado de espírito daquele menino de dez anos que corria desembestado pela cidade afora. Finalmente avistava a linha de chegada. Ao enxergar sua casa ao longe, encheu-se de ânimo para doar suas últimas centelhas de energia no intuito de assegurar o sucesso de sua jornada. Parecia mais aflito à medida que se aproximava do objetivo. Acontece sempre: quanto mais perto, maior a tensão ou maior o relaxamento. Daí os piores acidentes ocorrerem quando o destino se avizinha, seja por insegurança, seja por excesso de confiança. Em seu caso, o receio de pôr tudo a perder a poucos metros do final começava a assombrá-lo.

Cerca de quarenta metros separavam o menino da porta de entrada quando um pedregulho ressaltado selou a sua sorte. Uma passada em falso e as pernas se embolaram projetando todo o corpo para frente. As mãos e os joelhos tocaram primeiro o solo, deslizando dolorosamente pelos impiedosos paralelepípedos da Rua da Redenção, que poderia se chamar agora Rua do Fracasso ou Rua da Decepção, tamanha frustração em se ver ali, estatelado no chão e sem forças para se erguer. Ao tentar contabilizar a extensão dos ferimentos, atinou de imediato o sangue jorrando em catadupas e colorindo de vermelho escuro sua canela esquerda. Não resistiu ao impacto de observar, na altura da patela, o talho profundo e horizontal rasgando a pele de uma ponta a outra. Desmaiou na hora.

Passado susto, ver com nitidez o rosto aflito de sua mãe causou-lhe enorme euforia. Não por encontrá-la agoniada na tentativa de reanimá-lo, mas simplesmente por poder enxergá-la. Percebeu que seus machucados já estavam cobertos por curativos e notou o relógio de parede de seu quarto apontar o meio-dia. Mais de duas horas se passaram e ele ainda podia contemplar o mundo à sua volta! Talvez a história contada por seu amigo Bentinho não passasse de uma grande patranha: “Se, algum dia, um camaleão de cabeça verde encostar aquela língua nojenta em qualquer parte do seu corpo, só tem um jeito de não pegar cegueira: tem que beber água antes dele.” 

Pelo sim, pelo não, achou melhor não arriscar. O preço era muito alto para bancar o sabe-tudo. Logo após o breve entrevero com o camaleão, o menino só pensou em correr, correr e correr. Certamente, o tombo imprevisto decretou sua derrota, o bicho já devia ter alcançado o rio que passava detrás do terreno baldio há muito tempo. Entre o gosto amargo de ser vencido e o doce alívio de sair incólume da sua suposta perda de visão, o moleque esboçou um sorriso e exclamou pra si mesmo: “Eita, Bentinho mentiroso!” 

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quarta-feira, 15 de junho de 2011

A Hora de Dormir



Desenho: Dudu (9)
Queria apenas deitar a cabeça no travesseiro e dormir imediatamente. A maldita colcha – presente da mãe da Mônica –, antes estendida sobre a cama, já havia sido posta de lado para abrir caminho ao meu corpo esgotado. A propósito, não sou louco de externar isto que vou pensar agora, mas, sempre ao me deparar com a tal coberta, fico com vontade de me ajeitar pela sala mesmo. Seus tons de amarelo escuro e preto por si só já tornam a combinação infeliz. E o que dizer das figuras sextavadas de mais ou menos quatro centímetros de aresta formando sucessivos alvéolos por toda a extensão do tecido? Isso mesmo! A sensação é de um imenso favo de abelha no meio do nosso quarto.
 
Encontrar o lençol branco diretamente esparramado pela cama foi inegavelmente um alívio para os olhos. Mônica adormecera vendo a novela, e a TV ligada preenchia burocraticamente de luz e som o recinto. Achei por bem desligá-la logo – quarto escuro, como manda o figurino! – e ir deitar de uma vez por todas. Talvez o tenha feito com alguma precipitação. A luminosidade vinda do corredor contornando as extremidades da porta sinalizava a necessidade de que eu me pusesse de pé novamente: primeira reversão de expectativa. No entanto, sem me deixar levar pelo impulso inicial, busquei rapidamente uma razão minimamente plausível para evitar esse meu já inconveniente deita-e-levanta de todas as noites, antes de dormir. Hoje não!... Pensando bem, a iluminação daria uma segurança maior às crianças caso acordassem no meio da noite, assustadas.

Vencido o primeiro round, hora de refazer mentalmente os meus três últimos minutos, uma espécie de check-list de atribuições para um sono tranquilo e reparador. Ao passar pelo quarto dos meninos, dei um beijo em cada bochecha e desliguei o abajur – Ótimo! Mais um motivo para conservar aceso o corredor, certamente iriam ficar amedrontados naquele breu todo. Fitei-os por alguns segundos até me certificar sobre a normalidade de sua respiração. Aguardei até que o movimento do diafragma de cada um completasse um ciclo por três vezes consecutivas. Demorei-me um pouco mais hoje. Provavelmente por distração, acabei contando cinco inspirações para o Léo. Tive de refazer a contagem para o Lipe também, não gostaria de parecer injusto.

As portas da sala e de serviços foram devidamente trancadas; a entrada social com três voltas na papaiz. A esquadria da área dos fundos, geralmente aberta para manter a ventilação, foi fechada excepcionalmente. Acostumada a visitar o apartamento a partir das onze, a brisa noturna chegou com ares mais frios que o habitual. Geladeira e freezer vedados, assim como as torneiras do tanque, da cozinha e dos banheiros. Passando pela sala, arrumei o quadro de cima do sofá, ligeiramente pendido para o lado esquerdo. Não apaguei o interruptor do corredor antes de entrar no quarto, porém, como ponderado há alguns minutos, não foi de todo o mal...

Finalmente, hora de dormir! Cheguei a perceber o desligamento de consciência por um átimo quando o ruído molhado da chuva alertou meus ouvidos quase desatentos. Não parecia, de modo algum, perturbador o barulho dos pingos, longe disso. Na cadência em que precipitavam, compunham até mesmo um improvisado aconchego sonoro. Se por um aspecto, a inesperada sinfonia do lado de fora não se estabeleceu de maneira desagradável, por outro, foi o suficiente para trazer de volta ao embate os meus pensamentos, como se erguessem da lona em frangalhos, porém indômitos, durante a contagem aberta com o primeiro knock-down. A luta entre o sono e a consciência permanecia indefinida.

Percorro novamente o último roteiro na intenção de me certificar se havia deixado escapar algum item, considerando então este novo cenário, desta vez, chuvoso. A esquadria da área dos fundos já estava fechada por causa da brisa fria. A sala, lembro-me de ter cerrado as cortinas quando fui realinhar o quadro torto, portando o janelão permanecia encostado. Os quartos, invariavelmente com seus aparelhos de ar-condicionado em funcionamento – seja inverno ou verão –, evidenciavam total controle da situação. A sensação de alívio teria sido completa não fosse o fato de surgir à mente, de chofre, a imagem do meu carro. A propósito, não estou convicto de ter elevado os vidros ao trancar o automóvel.

Não importa, isso não iria me fazer levantar da cama agora. Danem-se os estofados de couro! Ainda sim, existe, no mínimo, cinquenta por cento de chance deste bendido vidro estar realmente suspenso. Se a situação trouxesse algum risco iminente à família, não pagaria pra ver, mas, nestas circunstâncias... O máximo seria um inconveniente material. Novo round vencido! O sono parecia retomar o controle do rinque. No entanto, ardilosa, a consciência aparentava apelar para seu último recurso ao tentar buscar quais seriam, de fato, os tais riscos iminentes à família. Um direto levou à lona o oponente, completamente grogue por se dar conta de que as saídas de gás do fogão não haviam sido checadas. Imagina! Morte por intoxicação! Não me perdoaria jamais! 

Decepcionado com mais um fracasso, enfim, levanto-me resignado em direção à cozinha. Evidentemente as saídas de gás do fogão estavam vedadas, não fosse assim teria percebido algo de estranho ao deitar. Volto para cama, apreensivo. Espero que eu passe incólume – e o mais rápido possível – pelo novo check-list.


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A obra A Hora de Dormir de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
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quarta-feira, 1 de junho de 2011

Um Segundo e Meio Depois



Desenho: Dudu (9)
De súbito, uma frase atravessada cruzou a mesa acometendo meus ouvidos desarmados. Justamente aquele encontro, promovido à custa de muita insistência, tinha o objetivo de acalmar os ânimos exaltados das últimas semanas. Pelo menos, o cenário era favorável. As notas do piano compunham harmonicamente o som ambiente, tornando o simpático bistrô ainda mais aprazível. A segunda garrafa de vinho tinto trazia maior satisfação ao paladar que a anterior, contribuindo de maneira decisiva com a crescente desenvoltura de nossa conversa. Até então, o clima beligerante havia sido substituído por uma promissora possibilidade de reconciliação.

Era a primeira vez em que saía de casa nesses sete anos de casamento. Tudo por causa de uma despretensiosa carona. Como explicar um batom perdido no console do carro? Até existe justificativa, pois não há nada demais em transportar uma colega de trabalho que seguiria por um trajeto semelhante. O problema é levar alguém tão distraído a ponto de deixar um rastro inocente, embora comprometedor ao faro feminino de uma esposa desconfiada.

Mesmo sem culpa no cartório, não conseguia parar de gaguejar. O rosto lívido, o olhar de espanto e os dedos irrequietos coçando a cabeça de maneira intermitente desenhavam o perfil do réu sem defesa. Jurei inocência, no entanto, as evidências pareciam refutar de bate-pronto qualquer tentativa minha de explicar a situação. Parecer culpado é tão constrangedor como ser culpado de fato. Não adiantava repetir, pela décima vez, que o raio do batom não era de nenhuma vagabunda com quem estava saindo.

Rosana permanecia irredutível. A traição arquitetada por sua imaginação tornara-se líquida e certa, não me permitindo qualquer recurso em minha defesa. A sentença já estava formulada, e as duas malas de roupas empilhadas sobre o capacho da porta de entrada indicavam o caminho a seguir. Naquele instante, senti muita vontade de ter tido efetivamente alguma responsabilidade. Seria mais justo pra nós dois, assim o casamento terminaria por algo concreto. Não merecíamos ter a figura de um culpado inocente, de um vilão sem delito, de um pecado sem originalidade como estopim de nossa separação.

Os primeiros dias foram de isolamento absoluto. A partir da segunda semana, ela passou a atender minhas ligações e, finalmente, algum tempo depois, marcamos nosso jantar. Não imaginava encontrá-la tão atraente, ou melhor, havia me esquecido da última vez em que se produzira daquela maneira – decididamente, Rosana não trazia consigo o cabelo, a pele e o olhar cotidianos. Não demorou muito, esvaziamos a primeira garrafa de vinho, quebrando a formalidade inicial e enchendo de sorrisos abertos o nosso encontro.

Àquela altura, inúmeras recordações passeavam entre goles tintos e gestos apressados tentando resgatar episódios que cada um de nós expunha com promissor entusiasmo. Talvez, para reconstruir o futuro, seja menos penoso recorrer aos bons momentos do passado. E o fazíamos com plena competência. Começamos pelo nascimento da Clarinha. O cordão umbilical enrolado em seu pescoço sufocava a nossa esperança, e o medo da perda nos assombrou como nunca antes havíamos experimentado. Contudo, a explosão de alegria ao ouvir o choro mais aguardado de nossas vidas foi algo de retumbante, inigualável, inenarrável. Sempre nos emocionamos ao pensar...

Rosana lembrou o dia do casamento no instante em que fizemos o segundo brinde. Ela se vangloriava em dizer ser a responsável por ter me ensinado a brindar de maneira polida: “Pôr a taça na mesa antes de provar a bebida é de uma pobreza de espírito sem precedentes...”, asseverava sempre num tom de provocação e com um meneio de cabeça reprovador. Antes da cerimônia, recomendou-me duas coisas apenas, ainda que umas trezentas vezes: “Não se esqueça de sorrir na entrada e, no brinde, pelo-amor-de-deus, não deixe de provar a bebida logo depois da saudação! Posso ficar tranquila?”.

Pura quimera! Não ficaria tranquila enquanto não começasse a celebração e se certificasse do bom andamento de tudo. Brinquei que quase desisti de casar ao presenciar sua crise nervosa por causa das indesejáveis nuvens cinzentas. Eram realmente numerosas pela manhã, passeando intimidadoras e sobranceiras pelo céu – justo no grande dia! A recepção seria realizada num vasto gramado, ao ar livre, e, se a chuva tivesse chegado conforme a ameaça, a festa iria literalmente por água abaixo.

Obviamente, não perdi a deixa: “Nunca entendi aquele seu piti, o maior prejudicado seria eu...” e prossegui sarcástico, porém evidenciando familiar carinho: “Eu quem tive de fazer dois investimentos de alto-risco de uma só vez: pagar uma fortuna por uma festa que podia não acontecer e consentir em passar o resto dos meus dias ao seu lado... Muita coragem!”. Ela me premiou com uma risada aberta, embora isso não significasse bastante devido às circunstâncias, devo confessar. A bebida já se encarregara de afastar qualquer inibinição remanescente.

Nossa viagem ao passado finalmente chegou ao ponto de partida. Decisão da Copa de 94, as ruas do Leblon estavam apinhadas de gente na hora da disputa dos pênaltis. Minha euforia após a cobrança do Baggio por cima do travessão durou relativamente pouco. De súbito, senti uma ligeira, mas aguda queimadura no braço esquerdo. Era o cigarro de Rosana, que pulava feito louca no meio da multidão. Disse somente aceitar as desculpas se ela concordasse em tomar um sorvete. E o nosso primeiro beijo foi verde-claro, com gostinho de pistache...

A noite caminhava para o desfecho esperado quando uma frase atravessada cruzou a mesa acometendo meus ouvidos desarmados. Eu não podia ter perdido o timming, não naquele momento. Rosana não se conteve e disparou em minha direção, cobrando mais compostura e respeito à sua presença. Meu descuido – chamemos desta maneira – durou um segundo e meio a mais, não chegou a dois – tenho certeza absoluta –, mas foi o suficiente para reavivar os nossos tempos mais críticos.

Dispensável dizer que minha atitude mereça alguma defesa, mas era simplesmente impossível não observar a presença devastadora da dona daquele vestido justo. E digo justo não apenas pela estreiteza, mas, sobretudo, por delinear com desejável competência e fidelidade suas curvas. Perigosas curvas... Ao passar pela lateral da mesa, cativou simultaneamente nossos olhares por alguns instantes, meu e de Rosana. O grande erro, entretanto, foi me prolongar por um segundo e meio em minha atenta observação – uma eternidade para um homem acompanhado. O pior é que não cogitava de forma alguma aventurar-me em qualquer relacionamento extraconjugal. Pura babaquice masculina...

Não pedimos a terceira garrafa de vinho, a solicitação ao garçon foi de que telefonasse à cooperativa de táxi mais próxima da região. Em silêncio, sentimos o último gole descer amargo pela garganta quando a derradeira nota do piano desafinou, quebrando o encanto da noite. Paguei a conta antes que as luzes de nossos rostos se apagassem por completo. Partimos em carros separados, cada qual para seu respectivo destino.

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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Uma Tarde na Primavera



Desenho: Dudu (9)
O que fazer quando as horas não passam? Quando o tempo enguiça e o minuto atual se insurge contra o momento seguinte, resolvendo agir com inesperada indolência? Com um desleixo tamanho que dá até pra duvidar que o tempo exista, embora seja ele de fato uma invenção humana e não tenha mesmo obrigação de se fazer presente a não ser para facilitar a vida de todos nós.

A cortina da sala permanecia fechada, deixando aquela tarde de setembro menos esplendorosa que de costume. Pra falar a verdade, rolava um clima um tanto soturno e, apesar de estar disciplinarmente cerrada, ela, a cortina, era a menos culpada, justiça seja feita. Se não a pusessem naquela posição antipática perante o reluzente entardecer, o ambiente certamente sorriria pra quem quer que estivesse no recinto.

Um dia, pra aquele menino – hoje quase um adulto –, ela não foi simplesmente mero acessório decorativo, muito menos proteção indispensável contra os contumazes raios solares que incidiam diretamente sobre o piano vertical num cantinho da sala. A velha companheira trocou tanto de roupa ao longo dos anos – já trajou florido, listrado, tons pastéis, estampas coloridas e, atualmente, veste um majestoso verde escuro. Em seu tempo de criança, nunca se importou com o padrão. A cortina, acima de tudo, era seu esconderijo preferido, o refúgio no pique-esconde, o porto-seguro ante a iminência de levar uma bronca daquelas de seus pais.  

Neste minuto, quando o tempo parou repentinamente deixando um vácuo em sua existência, ele não teve forças para mexer nesta que dava contornos noturnos àquela bela tarde – o que, de certa forma, contribuía para emprestar uma atmosfera melancólica ao cenário. Continuava ali, parado, telefone fixo na mão, olhar perdido, ainda atônito com a ligação dela.

Não recebeu muito bem a notícia: “Como assim, não estava mais a fim?!”, falou em voz alta, puto da vida com a Flávia. Uma indignação lancinante o arrebatou, tinha verdadeira aversão à impulsividade e à falta de coerência – segundo expusera repetidas vezes, estes os maiores defeitos de sua namorada. “Isso ela deve ter puxado dos pais, evidentemente.” Talvez tivesse uma pitada de razão: com aquela pele morena – uma pequena da cor trigueira, diria seu avô –, cabelos sinceramente negros e olhos que mais pareciam duas jabuticabas, a menina não merecia ser anunciada ao mundo com o nome daquela que possui cachos dourados, amarelados, loiros. Se as pessoas conservassem um pingo de bom-senso, todas as flávias seriam loiras, todas as brunas seriam morenas.

O tempo parou exatamente às 17h59. Continuava entorpecido, imobilizado, embora estímulos cerebrais intermitentes produzissem uma tormenta devastadora no interior de sua cabeça. Não conseguia entender o porquê daquela reversão de expectativa: ainda ontem brincavam de escolher nomes para seus filhos do amanhã – divergiam na quantidade, pois ela queria apenas um, ele sonhava com um casal. Mas nada que atrapalhasse seus planos, tudo se arranjaria quando chegasse o momento certo. Não contava, no entanto, em ser tantalizado daquela forma, em ver ruir seus desejos mais puros em meio aos carinhos subcessivos ofertados pela mulher da sua vida na flor delicada de seus 16 anos.

Nunca imaginou que Flávia, a morena incoerente e precipitada, iria terminar tudo assim de uma hora pra outra – e pelo telefone. Quanta indelicadeza, quanta insensibilidade! Justificou-se dizendo não suportar mais a formalidade do rapaz. Isso mesmo, ela jogou tudo pro alto porque julgava ser muito formal o seu namorado. “Porra, ela demorou três anos pra perceber isso!” Quanta ironia: seu maior medo era de que surgisse um aluno novo, no início do período, fera no violão. As garotas costumavam se derreter por esses caras. Tudo bem... Era craque em poesia, mas num embate entre letra e partitura, temia que a primeira fosse esmagada pela notória histrionice da segunda.

Despertou repentinamente com a estridente campainha do seu celular, largado em cima do piano desde a hora em que tirou do gancho aquele maldito telefone da sala. Sem sair do lugar, esticou-se para alcançá-lo. Do outro da linha, sua mãe reclamava por não conseguir completar a ligação e cobrava se ele havia estudado Física o suficiente para não decepcionar nas provas bimestrais. Desenvolveu um diálogo com respostas evasivas e despachou rapidamente como todo adolescente tem o vezo de fazer. 

Olhou o relógio de pulso e percebeu o momento exato em que o visor transpunha os dígitos para as 18h. O tempo voltou a funcionar. Pôs na base o telefone fixo e levantou-se em direção à janela. Abriu as cortinas com um movimento brusco, fazendo com que o evanescente entardecer saturasse o ambiente. Naquela conturbada tarde de primavera, ainda teve a sorte de presenciar um pôr-do-sol inesquecível.

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A obra Uma Tarde na Primavera de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Diário de Mãe



Desenho: Dudu (9)
As mesmas luzes que atraíram meu olhar tremeluzindo suavemente ao sabor do vento terminaram por me distanciar cada vez mais daquele ambiente. A emoção me tomava por inteiro. Nem a costumeira algazarra à volta da mesa parecia chamar minha atenção. Curioso como ainda não inventaram nada mais traiçoeiro que o tempo. Enquanto nos encontra no dia a dia, parece nos revelar sem subterfúgios a sua verdadeira face. No entanto, basta a menor invigilância para visualizarmos, logo em seguida, sua imagem ao longe, fugidia, escapando aos olhos e mostrando com peculiar indiferença nosso afastamento do momento presente.

Uma segunda-feira apressada, como muitas outras perdidas no calendário, tornou-se particular. Não pelo suco de laranja que escorregou dos meus dedos aflitos e manchou o tailleur no momento em que revirava a bolsa para conferir se esquecia de algo. Tampouco pelo fato de estar prestes a me atrasar para a entrevista do emprego imperdível – como havia me preparado! Era crucial chegar sem sobressaltos, porém, assim como tempo – ou ainda mais atrozes que ele –, as segundas-feiras apressadas se comprazem em dar rasteiras intempestivas. Ai de quem se descuidar um minuto sequer!... O telefone tocava pela segunda vez indicando a chegada do táxi.

Às sete e quarenta, as ruas de Ipanema já estavam abarrotadas de automóveis. Ônibus ferozes driblavam os carros como se todos também estivessem atrasados para sua entrevista do emprego imperdível. Em meio à desordenada sinfonia urbana que acometia meus ouvidos tão cedo pela manhã, fui surpreendida por um choro miúdo e lateral no curto trajeto até entrar no táxi. Ao descer o vidro traseiro, pude perceber com mais precisão aquele pedacinho de gente enrolado numa manta branca encardida. A mãe permanecia sentada na calçada, com as costas apoiadas na porta de ferro de uma das lojas localizadas embaixo do meu edifício. Envolta em jornais e com as vestes sujas, se preparava para dar o peito. Não sei por que, imaginei ser uma menina...

A terça-feira acordou sorrindo para mim. Fui contratada e começaria já na semana seguinte. O Roberto levantou mais cedo e preparou um café da manhã especial. As crianças haviam partido para escola e tudo parecia se encaixar perfeitamente. As terças-feiras são geralmente mais simpáticas, talvez para compensar o mau-humor das segundas, historicamente mais cenhosas e turbulentas. Aproveitei para descer e dar uma caminhada pelo calçadão, o sol já dava as boas-vindas aos que saíam da toca para recebê-lo. Deixando a portaria, encontrei o mesmo chorinho lateral. A mulher se mostrava mais impaciente. Ao me aproximar, ela esticou o braço e pediu alguns trocados.

– Há quanto tempo vocês estão por aqui?
– Desde domingo à noite, moça, viemos direto do hospital...
– É uma menina?
– É sim... Mas ela não para de chorar, eu já dei o peito, não sei o que essa guria quer...
– E o pai?
– Tem pai não. Sou eu e ela no mundo.

Perguntei o nome do bebê. A mulher, irrequieta e visivelmente incomodada, disse não ter pensado ainda nessas coisas, tinha mais com que se preocupar – como o fato de precisar sobreviver um dia após o outro. Demonstrou ligeira desconfiança com aquela sequência de questionamentos, mas serenou-se quando mencionei que iria preparar uma sacola com alguns mantimentos. Desisti da caminhada.

A quarta-feira chegou indecisa. Não sabia se levantava da cama e aproveitava o restinho dos meus dias de folga ou se continuava dormindo como se pudesse acumular energia suficiente para enfrentar a rotina desgastante do trabalho que estava por vir. Muito provavelmente por se localizar exatamente no meio da semana, as quartas não costumam tomar partido, conservam-se impassíveis em cima do muro. Pensei em descer para ver como estavam a mãe e a pequena sem nome, porém as horas foram passando, passando... Terminei por ficar organizando algumas miudezas em casa.

Certamente por não ter posto o nariz para fora no dia anterior, a quinta-feira apresentou-se ansiosa. Antes mesmo de tomar café, fui até a calçada para saber das duas. Não consegui tirá-las da cabeça. A mãe trazia o semblante carregado, o odor da sujeira acumulada começava a tresandar pelo ambiente. Cabelo curto, de um preto indefinido pela gordura das ruas, pele morena clara agravada pela fuligem que revestia todo o seu corpo, olhos castanhos desesperançados. Suas mãos imundas e pouco convictas, vez por outra, davam alguma atenção à criança, esta quase sempre recoberta pela manta e recostada numa pequena almofada de couro parcialmente carcomido. Por volta das nove, quando as lojas abriam suas portas, saíam pelo mundo. Não tinha menor ideia que rumo tomavam.

A sexta-feira acordou animada. Saí cedo da cama, e conseguimos enfim reunir a família à mesa pela manhã. Roberto e os dois filhotes combinaram de fazer um almoço especial no domingo para comemorar o Dia das Mães. Não quiseram revelar o prato, mas garantiram que os três preparariam tudo. Adorei a iniciativa. Após seguirem cada qual aos seus afazeres, decidi ir ao mercado. Quem sabe, comprando algumas fraldas descartáveis, um tanto de leite em pó, água mineral, mamadeira, eu pudesse levar uma pitada de alento à mulher da calçada.

Nunca um sábado foi tão surpreendente. Ainda guardava na memória a expressão de gratidão daquela mãe recebendo meu singelo agrado. Ingenuidade a minha achar que meia-dúzia de mantimentos seria suficiente para minorar a luta das duas... Desci por volta das nove. No lugar da aflição materna, encontrei o choro abandonado da criança sem nome, envolta na manta encardida e entregue à própria sorte. Tomei-a no colo, ainda atônita. Senti no peito o calor da febre, mas esperei cerca de cinquenta minutos, antes de subir com a pequena, por um retorno que nunca veio.

A previsibilidade típica dos domingos foi abalada pela instabilidade dos últimos acontecimentos. Rápida mudança de planos. Seguimos com a menina para o hospital. A noite havia sido conturbada. A mãe não deixara rastro, e se a vida me fazia um convite ao qual não me sentia apta a aceitar, por outro lado, não me restava dúvidas de que não estava em condições de recusar. A pneumonia em estado avançado inspirava absoluta cautela. Temi pelo futuro daquela que não tinha nome.

A manhã de segunda deu o ar da graça trazendo importantes decisões. Declinei da oferta do emprego imperdível tão logo soube que a internação seria por tempo indeterminado... No fim das contas, passaram-se quase nove meses – uma gestação na prática – até que fosse possível tê-la em meus braços definitivamente. O processo de adoção, felizmente, correu sem maiores sobressaltos. 

Sem atinar de imediato o quão longe me encontrava, fui resgatada pelo sopro vigoroso e certeiro que apagou as luzes tremeluzentes ao sabor do vento. Ela estava radiante em sua festa de aniversário. Fui tomada de emoção ao ver sobre o bolo as duas velas indicando seus dezoitos anos. E pensar no nosso primeiro encontro... Tudo se deu numa segunda-feira apressada. Apressada, mas particular – o dia em que a menina sem nome passou a existir pra mim. Particular e ainda assim apressada – tão apressada que, na ocasião, não pude nem chamá-la pelo seu nome: Gabriela. Muitos anos de vida, filha querida!

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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Árvore dos Sonhos



Desenho: Dudu (9)
O costumeiro rangido da porta de entrada anunciava com pontual precisão a sua chegada. De barriga junto à borda do fogão, a mãe terminava de esquentar a comida, torcendo para que a lenha desse conta de garantir ao menos o jantar. Profundamente compenetrada em seus afazeres domésticos, não percebeu o menino passar como um foguete em direção ao quarto.

Não havia tempo a perder: “As ideias escapam, são como peixes escorregadios na beira do rio!” – ouviu essa máxima de passagem, da boca de um poeta anônimo de bar e adotou-a como importante mandamento. Tirou da sacola seu inseparável estojo, fiel companheiro de trabalho. A folha de papel adormecia por baixo de umas quatro camisas na estreita cômoda de três gavetas. Lápis na mão, ensaiou, pela enésima vez no mesmo espaço, os primeiros traços daquele começo de noite.

A ponta do grafite já não conservava mais a eloquência de minutos atrás quando, na Pracinha do Céu, desenhou o rosto de uma bela moça – olhos amendoados, castanhos, no mesmo tom de seus cabelos longos; nariz expressivo e lábios abundantes. Estava de passagem pela cidade e resolveu levar o próprio retrato como recordação. Henrique tinha dedos de artista, captava as expressões de quem quer que seja e as transpunha para o papel com rara precisão. Ajudava como podia a complementar a renda doméstica e aliviar o peso dos quilos de roupas à beira do tanque de cimento, onde sua mãe passava a maior parte do dia. A rotina era mais ou menos esta: ela acordava às cinco para dar conta do trabalho e o menino saía por volta das sete com seu material devidamente ajeitado, direto para a praça, à espera dos grupos de turistas.

Embora escondida no mapa em algum ponto no interior de Minas, a cidade atraía gente de todo canto. Talvez por preservar a mansidão perdida do dia a dia, ela fosse tão procurada. A Pracinha do Céu – como ficou conhecida – era a única do lugarejo. Meia-dúzia de bancos, alguns canteiros floridos e um coreto na parte central, teve seu nome rebatizado pela sabedoria popular. O endereço original, Praça Castiniano Epaminondas Ubaldino, de gracioso, continha apenas as inicias que foram oportunamente destacadas e acabaram por consolidar de vez sua referência. Justamente ali, naquele pedacinho de mundo, o pequeno artista impressionava todos com sua habilidade precoce.

Após riscar o papel e apagar dezenas de vezes, uma conhecida expressão de frustração dominou seu rosto. Já havia tentado traçar aquelas linhas anteriormente, mas, como sempre acontecia, via o peixe escapar pelos seus dedos sem que nada pudesse fazer. Desistiu. Posicionou de volta a folha na gaveta da cômoda da forma como quando a pegara: por baixo das roupas e com extremo cuidado, aguardando ansiosamente uma nova inspiração. Lembrou-se de avisar a mãe sobre sua chegada; àquela altura, a jovem senhora de aparência castigada pela rudeza do trabalho e pela viuvez repentina já se dirigia ao portão em busca de notícias.

Moravam os dois, sozinhos na casa, desde a enchente. Foi algo devastador. Não só levou tudo de material como também a vontade de viver do pai de Henrique. Dizem que o homem morreu de desgosto, não suportou o castigo do rio – ou da chuva – e, dias depois, teve um ataque cardíaco fulminante. As águas carregaram também as lembranças, não sobrou uma fotografia para contar história. Ou melhor, o único legado daqueles tempos ficava guardado a sete chaves dentro de um velho baú. A mulher prometera ao marido – ainda em cima do telhado, à espera da vazão – só abri-lo quando o menino fizesse 12 anos. Não entendeu bem as razões do pedido, afinal estavam os três a salvo, porém pressentiu que a vida jamais seria como antes.

A partir da morte do companheiro, ela se fechara para o mundo. Mal saía de casa, vivia mergulhada em seus afazeres como paliativo para disfarçar a saudade lancinante. Henrique conservava apenas lapsos de memória da figura paterna. Momentos cultivados com enorme carinho, como o dia em que estavam no quintal, numa tarde de domingo. Ficou impressionado com a história da Amendoeira realizadora de sonhos – o pai contava que, para ter um desejo atendido, bastava adormecer à sua sombra quando o céu ficasse alaranjado e a lua chegasse adiantada na despedida dos últimos raios solares. Ouvidos atentos e olhos arregalados, não pensava em outra coisa senão conhecer a árvore localizada do outro lado dos trilhos da ferrovia, próxima ao rio onde a cidade terminava.

De tempos em tempos, tentava sem sucesso convencer a mãe a atravessar a linha do trem. “Nem pensar, menino! Você não viu o que aconteceu com o filho da Laurinda? O monstrengo de ferro não perdoa, passa por cima! Já basta não ter o seu pai aqui por perto...”. “Mas, mãe, foi o pai quem falou sobre a Amendoeira! Ele ia lá todas as tardes quando era criança...”. “Nem mais uma palavra! Estamos conversados, você não chega perto daqueles trilhos senão vai levar uma surra de vara verde!” – Ouvia resignado à mesma reprimenda desde os cinco anos de idade.

Foi um jantar calado. Ela, com o olhar perdido em meio ao cansaço acumulado da semana. Ele, imaginando um jeito de convencer a mãe a aproveitar a tarde de sábado para, enfim, conhecer a tão sonhada Amendoeira. O fato de ser seu aniversário certamente poderia contribuir para sensibilizá-la – afinal, 12 anos, já impunha mais respeito, mais responsabilidade. Ensaiou as primeiras palavras mentalmente, mas, antes que abrisse a boca, a mulher se dirigiu ao quarto trazendo consigo o velho baú.

Não calculava haver sobrado qualquer registro. Surpreso, posicionou a chave no velho cadeado azinhavrado e a girou duas vezes para a direita. Seu rosto brilhou ao ver, num caderno de folhas amareladas, a história da Amendoeira registrada com a grafia de seu pai. Nas últimas páginas, o desenho da árvore trazia no rodapé da figura uma mensagem dirigida a Henrique: “Esta é só sua, faça seu pedido!” O menino sorriu, fechou os olhos e, sem hesitar, coloriu em seus pensamentos o sonho de sempre, de cada dia, o desejo permanente que o acompanhava não era de hoje.

Ao virar a última folha, deparou-se com uma fotografia. Em tom sépia, o rosto de seu pai fez disparar o coração, reacendendo as luzes apagadas no recanto mais terno de sua memória. Correu até a cômoda e, espalhando as roupas que ficavam pelo caminho, alcançou o pedaço de papel – este, anteriormente, riscado e apagado dezenas de vezes. Traços firmes e precisos faziam surgir, pouco a pouco, a figura tão procurada durante esses anos todos. Desta vez, seus dedos seguros agarraram o peixe escorregadio para nunca mais soltar.


Este conto é dedicado à minha querida Carol, que pautou o tema desta semana. Seu pedido era de que a história tivesse como argumento central o "sonho".

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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Um Dia de Chuva



Desenho: Dudu (9)
Saiu de casa com a despensa vazia e a cabeça cheia de preocupações. O pouco do dinheiro que sobrou de sua pequena renda mensal mal foi suficiente para cobrir a primeira das duas contas de luz que acumularam nos últimos 60 dias. O pagamento do boleto, se não contribuiu para desenhar em seu rosto um sorriso aliviado que fosse, permitiu, ao menos, adiar ao mês seguinte a ameaça de ficar completamente às escuras.

Não tinha filhos, morava sozinha no subúrbio, em uma área com pouco mais de 30 metros quadrados milagrosamente distribuídos em sala, cozinha, banheiro e quarto. Era tudo muito simples, porém organizado, evidenciando o desvelo ofertado a cada objeto que adquiria com o suor do seu rosto. As telhas de amianto, entretanto, continuamente rachadas pela ação do tempo e as paredes externas emboçadas de forma precária revelavam ao mundo sua permanente dificuldade para equilibrar as finanças.

Não se podia dizer que era uma mulher bonita, tampouco seria justo classificá-la como alguém desinteressante. Todavia, chamava a atenção de maneira inconteste quando se produzia para ir à luta. Naquele início de noite, arriscaria dizer que estava especialmente atraente. Um vestido preto colado ao corpo respeitava com extrema fidelidade sua silhueta, ressaltando com o mesmo rigor tanto suas virtudes físicas quanto suas pequenas imperfeições que, por sinal, acabavam passando despercebidas num contexto mais amplo.

Fazia ponto na zona portuária da cidade. Lá pelas oito, o movimento de pedestres já havia diminuído consideravelmente. Os carros passavam céleres pelo asfalto molhado – só deus sabe o quanto não rende o trabalho por mais fina que seja a chuva, um verdadeiro balde de água fria na alma e, sobretudo, no bolso de quem precisa vender o corpo inexoravelmente. Azar o dela! Não tinha escolha a não ser ficar ali na incerteza de um programa que parecia ir pelo ralo abaixo com o aumento progressivo dos pingos. Pela assiduidade e voracidade com que caíam, foram – já não era em tempo – promovidos à categoria de temporal.

Não conservava mais o esplendor de horas atrás e a concorrência enfileirada ao longo da via – todas com o mesmo objetivo e esperando um milagre dos céus, neste caso, uma providencial estiagem – a faziam perder o ânimo: as mais cotadas da área permaneciam na vitrine, muito embora, numa situação como esta, o comprador é quem fica por trás da vidraça, enquanto os objetos de desejo se mostram ao relento. Pensou em retornar reconhecendo a derrota na batalha, porém não poderia se dar ao luxo de entregar-se ao inimigo, teria de lutar até as últimas consequências. A bem da verdade, não lhe restava qualquer escolha, recuar seria voltar a um cenário não menos inóspito.

A fome era uma realidade que lhe assombrava. Como retornar da caça sem a presa? Não tinha a quem recorrer numa situação como aquela que se esboçava. Os pais deixaram cedo este mundo, ela ainda não havia trocado os dentes da boca. O irmão mais velho partiu para os Estados Unidos e nunca mais deu notícias, talvez nem estivesse mais entre nós, tamanho talento adquirido para se meter em confusões. Sozinho e num país desconhecido, não seria surpresa se tivesse tomado um tiro no meio da testa tentando ganhar a vida em parceria com os marginais da área. A tia – irmã do pai – que a acolhera ainda adolescente, depois de se casar pela segunda vez, acabou por enxotá-la do lar. Àquela altura, seu corpo de mulher em frescor de menina se tornara uma ameaça a quem tivesse homem dentro de casa.

– Quanto é o programa?

Uma voz roufenha rompeu a sonoridade regular e métrica da chuva e a despertou de um ligeiro torpor. Era um tipo espandongado, desleixado no vestir e no trato pessoal, péssima aparência. Ao mesmo tempo em que constatou a decrepitude do cenário formado à sua frente, admitiu-se não estar em condições de selecionar clientes. Pagando, todo o trabalho torna-se digno, pelo menos, acreditava nesta máxima que a redimia da dúvida de estar levando, na prática, uma vida abjeta, submetendo-se, em muitas ocasiões, a sevícias e a manias doentias de seus parceiros eventuais.

Teve de cobrar menos pelo programa que de costume. São as leis de mercado, mera questão de oferta e procura. Valendo-se de sua condição favorável, o sujeito aproveitou o poder de barganha para garfar pela metade os serviços de que iria dispor pela próxima hora.

– Oitenta? nem fodendo! – esbravejou o tipo.
– É o preço, meu amigo. E só fodendo mesmo. Lá atrás e beijinho nem pensar...
– Só tenho quarenta e com direito a “basquetinho”, falou?
– Sessenta e fica o boquete.
– Quarenta e está acabado. É pegar ou largar.

Se os argumentos não soavam justos, eram, no mínimo, suficientes para entender que a noite, ou melhor, o dia seguinte dependia de um esforço extra. O hotel de quinta aonde seguiram após o acerto conservava um cheiro de mofo, do qual suas narinas já não mais reclamavam, estavam viciadas pelo odor que tresandava das paredes e dos lençóis mal lavados. Pensava apenas em liquidar a fatura o mais rápido possível. Começou pela pior parte: abriu, sem maiores delongas, o zíper da calça de seu algoz, desalojando a lança que iria feri-la na alma, no orgulho. Controlou-se para não vomitar tamanha imundice com que se deparou e para onde deveria endereçar sua língua e boca num movimento frenético, podendo este durar um, dois, três, cinco, dez eternos minutos.

Entregou-se, finalmente, ao serviço. Olhos fechados, pensamento fixo, focado estritamente num mantra desenvolvido a pretexto de não sucumbir à tarefa. Parecia entrar em estado de transe, repetindo mentalmente centenas de vezes a mesma frase que, se não lhe amenizava o trabalho, prestava-se a contento para salvar a sua honra: “casa, comida, vida – casa, comida, vida – casa, comida, vida...”. Certamente, mais que honra. Questão de sobrevivência.

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