quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Bjks



Aquelas quatro letras na tela do computador ao final da mensagem me causaram certa perplexidade. Até então, encerrávamos nossas conversas eletrônicas com um vezeiro e maquinal “bjs”, forma reduzida de “beijos”. Maquinal, porém carinhoso. Muito mais carinhoso que o comportado  “abs” ou abraços e , por sinal, infinitamente mais íntimo e caloroso que o burocrático “sds” ou saudações, o autocentrado “atenciosamente” e o deprimido “sem mais”.

Tínhamos, de fato, alguma intimidade, mas nada além de uma profunda amizade profissional. Infelizmente. De minha parte, havia um desejo contido e muito bem contido, uma forte atração que minha irritante timidez escondia de forma magistral. Talvez não tão recôndito para ela, que, como toda mulher, sabe farejar a alma do homem a quilômetros de distância. Neste embate velado entre a minha vontade disfarçada e o sexto sentido feminino, temo confessar que saio perdendo. Porém, neste caso, perder é ganhar, pois suspeitando – ou até mesmo sabendo – de minhas intenções, ela, de certa maneira, tornava escusada qualquer revelação embaraçosa a que pudesse me aventurar. Melhor assim, não corria o risco de dar com os burros n’água. Até porque nunca percebi olhares mais demorados que o necessário ou comentários em duplo sentido que pudessem trazer nas entrelinhas alguma pista reveladora, expondo, à minha frente, a senha de passagem para uma investida segura. Ela parecia desconhecer o que acontecia comigo. Talvez fosse mais conveniente que as coisas permanecessem desta forma.

Por que então ela teria o cuidado de encerrar a mensagem de ontem com uma inédita “bjks”? Isso mesmo, beijocas! Na escala descrita acima, “bjks” seria o máximo da intimidade. Seria praticamente o descortinar de sua volição, uma deixa para aniquilar de vez com as minhas incertezas e tornar despropositada a cômoda abulia em que me escorava covardemente. Que a senha se expusera à frente dos olhos, clara, óbvia ao final daquele texto, aparentemente despretensioso, era fato insofismável. Cabia a mim, dar o próximo passo.

Não sei se consigo, falta coragem. Talvez devesse ser um tanto inconsequente, mas, há 30 anos, convivo com  essa mania de pisar inexoravelmente em terra firme, de não me atrever cruzar uma ponte que pudesse ficar ao sabor do vento e quando, por muito custo, conseguiram me convencer a entrar numa embarcação, o meneio do mar fez-me por sopitar os músculos do corpo enquanto o cérebro se encarregou de desligar a luz que chegava à retina. A experiência foi traumática. Avião então nem pensar. Situação confortável a das árvores, possuem raízes que lhe prendem ao solo e nem por isso ficam entediadas, pelo contrário, chegam a elas tudo de que necessitam para sobreviver. Não precisam mover uma palha, ou melhor dizendo, uma folha. Mas o que estou pensando? Não se tratam de árvores e sim de uma simples incursão por um terreno desconhecido, inexplorado, o qual teria de percorrer, torcendo para não ser engolido pelas areias movediças de uma impiedosa negativa. Onde já se viu? Lugar de se ganhar o pão não se come a carne!

O autor dessa frase – uma espécie de mandamento (apesar de menosprezado pela maioria) para que a carreira e a vida pessoal de um trabalhador não corressem risco de turbulências – não a teria imaginado se tivesse conhecido aquela que me tira o sono e me faz adormecer apenas quando não mais me restam forças, para enfim me visitar em devaneios. As noites de súcubo pareciam intermináveis e o resultado está aí. Uma simples beijoca abreviada, teclada pelos doces dedos de um adorável demônio, fustiga minha ilibada fidelidade e deixa um laivo em minha moral, a qual faço ou fazia – não sei mais – questão de preservar com inconsútil austeridade. Que merda! Nunca me senti assim...

O monitor à minha frente parecia lançar-me um olhar desafiador, encarando-me de modo a fazer entender que eu era mesmo um frouxo e que estava tergiversando em vez de ir direto ao ponto. “Até em árvores ele falou, só falta agora fazer um tratado sobre botânica...”, certamente diria se monitores falassem ou pensassem. O fato é que continuo atônito, assimilando as “bjks” que foram tascadas – de chofre – na tela do computador. Ou seria de chifre, já que estamos falando de um demônio feminino ao qual me submeto inadvertidamente.

Que situação... Acenderia um cigarro nesta hora se não abominasse o cheiro de alcatrão e nicotina e beberia uma dose de uísque sem gelo se tivesse dinheiro para comprar um de boa marca... O jeito é encarar os fatos de cara limpa e acabar de vez com o drama, dar o tiro de misericórdia em minha hesitação que está por me exasperar a cada minuto que passa. Quem me dera tivesse dedos desobedientes e rebuçados a ponto de esperar a oportunidade certa para enganar o cérebro num átimo de invigilância e teclar qualquer bobagem que pudesse servir de pretexto para terminar a mensagem com recíprocas “bjks”.

Finalmente, o impulso de que necessitava inflamou a centelha de coragem que ameaçava apagar a qualquer momento tal como a tremeluzente fogueira sucumbindo à força do vento e fenecendo às portas da alvorada. Entretanto era noite alta, meio-alta, meia-noite, o auge, o clímax, a fogueira em seu esplendor com labaredas em seu voo mais elevado. Estava queimando por dentro, podia enxergar as fagulhas que saíam das pontas dos dedos, excitados à espera do grand finale. Ao olhar as teclas, que obedeciam tacitamente ao meu comando, fiz uma pausa para degustar sem pressa a derradeira saudação, a resposta sinalizadora que, daquele momento em diante, trocaríamos somente beijocas, “bjks para sempre...” Não... Contive a empolgação: escrevo apenas “b...”. Espere um pouco! O “j” e “k” são teclas vizinhas, quase imanentes, separadas por um espaço tão tênue que um dedo mais apressado e menos diligente poderia facilmente acioná-las ao mesmo tempo...

Fiquei paralisado... O estupor de três minutos terminou somente ao som de um estrepitoso trovão. A chuva intempestiva alagou a fogueira antes da alvorada chegar. Pelo jeito, a noite vai ser longa.

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A obra Bjks de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em tipoescrito.blogspot.com.
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4 comentários:

  1. Excelente, Alex!!! parabens!1 Muito bom mesmo...
    bjks hahahaha
    Ari

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  2. Torno a repetir... tem uma cadeirinha reservada pra vc na ABL!
    Abs

    Gustavo

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  3. Obrigado, queridos amigos, é muito bacana ter algum retorno. Agradeço demais o incentivo. Beijão, aliás, 'bjks'.

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  4. Adorei...vc sabe como sou critica e qdo não curto falo mesmo...Bjks!!!!!!

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