quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Pracinha Xavier



Creio que faltam apenas sete passos. A metade da garrafa de aguardente que agora se mistura com as células de meu corpo e invade o meu cérebro como uma névoa espessa ofusca meus pensamentos e começa a paralisar a minha razão. E por falar em razão, não há motivos para estar aqui nesta praça, procurando esse maldito banco que já não faz o menor sentido de existir. Tudo ainda está muito confuso, não sei o que me trouxe a este lugar, a esta hora da madrugada.

Os pássaros devem estar todos recolhidos para que sua pontualidade matutina seja preservada e aquelas charretes movidas à perna de cavalos e bodes, com certeza, já estão na garagem. Não sinto o grito das crianças, que emprestam ao cenário da praça uma atmosfera pura e alegre. Por sinal, a única coisa que percebo é a sujeira fresca dos animais, espalhada por todos os cantos. Já deslizei algumas vezes, perdendo a conta de meus alcoolizados passos.

Uma topada daquelas no meio da canela sinaliza a chegada ao destino. Troco a figura deprimente do ébrio cambaleante, tornando-me, de súbito, um bêbado pendular que oscila entre uma extremidade e outra de um banco de praça. Um joão-bobo ao sereno, essa é a imagem. Pelo menos, um bêbado sentado pode causar menos estragos.

Começo a ouvir o frio chegando sem cerimônia, fazendo minha estada mais inóspita que de costume. Pela primeira vez, experimento frio neste lugar. As mãos de Rebeca, sempre cálidas de carinho, traziam-me um aconchego de lar. Que falta ela me faz! Nesta noite vazia, não consigo me sentir em casa. E este maldito banco que não me diz uma palavra hoje...

Não me abalo. Estou bêbado e bêbados são teimosos. Minhas mãos passam a alisar carinhosamente a superfície deste pedaço de madeira hirto e branco. Pelo menos, a Rebeca me falou que era branco. Sim, definitivamente, era branco, posso tatear sua brancura com meus dedos ávidos de lembranças. Lembranças de uma doce rotina que ainda me conforta.

Costumávamos nos encontrar todas as tardes de sábado, ao lado da carrocinha de sorvetes que ficava a noventa e sete passos de minha casa. Rebeca vinha do Grajaú, pegava o 226 e saltava na rua Uruguai. A caminhada até a Xavier de Brito não demorava mais de cinco minutos. Fazia questão de chegar sempre antes para senti-la despontando no horizonte. Quando dobrava a esquina da Espírito Santo Cardoso e entrava na Dr. Otávio Kelly, contava os segundos para que seus lábios alcançassem minha boca antes mesmo de dizer qualquer palavra. Podia enxergar seu perfume a quilômetros de distância. Dificilmente me enganava.

Pedíamos então as casquinhas. Nada de aventurar sabores novos. Ela era apaixonada por morango. Eu preferia pistache. Rebeca repetia, com frequência, que a melhor coisa do sorvete de pistache é a cor, segundo ela, um verde-claro, lindo, melhor de se ver que se provar. Eu sempre tomo pensando que é azul, como o céu da manhã, que ela me confidenciou ser azul. E ela partiu sem saber que pistache, pra mim, é azul.

Às vezes, não dava mesmo tempo de dizer a ela tudo o que eu queria. Era uma faladeira e tanto. Posso ver as palavras saindo, freneticamente, de sua boca e atingindo os meus ouvidos, que estavam sempre mais receptivos que os dela. Mas eu gostava e como gostava! Provar a voz de Rebeca em meio às miríades de sons da praça dava-me um bem-estar inefável. O grito de crianças em bicicletas velozes; o entrevero da terceira idade, que discutia a cada lance no jogo de bocha; os cascos de animais espicaçando o asfalto, carregando no lombo risos de todos os tipos. E sobretudo o borbotar das águas do chafariz central, que parecia reger discretamente toda aquela folgança sonora. Um momento realmente mágico, que, por encanto, se acabou no instante em que Rebeca decidiu fazer aquele maldito intercâmbio.

Hoje, depois de uma semana – aliás, o primeiro sábado sem Rebeca, isso é muito marcante e como dói, dói demais – recebi sua ligação da Austrália. Cartas, não queria recebê-las, a menos que conseguisse enviá-las em braile; descartei, prontamente, a possibilidade de um interlocutor que as pudesse ler, assim não teria de aquinhoar com terceiros nossos mimos. Por outro lado, não me fez bem experimentar a frieza de seu discurso ao telefone, parecia uma correspondente internacional dando informações sobre os costumes e apresentando dados geográficos de um país distante.

Como alguém que viveu no Rio de Janeiro poderia dizer que Sydney é uma cidade maravilhosa? Com antonomásias não se brinca, cidade maravilhosa só existe uma no mundo. Como pôde passar o tempo todo me chamando pelo nome? A cada semana, ela inventava um apelido diferente, poderia escolher, eu adorava todos. Faltava ainda o golpe de misericórdia. Quase enlouqueci quando Rebeca disse que ainda não tinha data para voltar, iria depender de sua adaptação. A julgar pela primeira semana, creio que não teria maiores dificuldades. Pobre de mim, cego de paixão, cego de existência, cego de tudo.

Nunca dei importância a limites. Hoje, percebo o quanto estamos distantes. Minha vida é esta pracinha. Mil cento e trinta e dois passos e dou a volta ao mundo... Sou mesmo um tolo, o que ainda faço aqui tocando este banco sem graça, sem vida? Minhas pernas já não existem, sinto um breve apagar de luzes em meu cérebro, a cabeça roda como um turbilhão, acho que vou...

Para mais informações sobre a Praça Xavier de Brito, clique aqui.

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A obra Pracinha Xavier de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
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2 comentários:

  1. Pracinha Xavier...como lembra minha infância...passava por lá todos os dias...amei o cenário do conto e sua criatividade até me assusta...hehehe...pegou apenas alguns fatos como a moda de viajar p/Austrália, entre outros, e a história foi fluindo loucamente!!!!!!!!

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  2. Beleza de conto. Parabéns! Obrigada pela sua visita ao site Contos & Poesias.

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