quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Dilema



Ilustração: Dudu (9 anos)
Não entrou, nem saiu. Preferiu ficar encarcerado dentro de si matutando uma solução. Nem tudo estava perdido, sempre ouviu sua mãe repetir aos quatro ventos que o que não tivesse remédio, remediado estava. No entanto, em contrapartida – como em tudo na vida há uma reação para cada ação, isso ele também já estava careca de escutar –, surgiu, de súbito, a imagem de um xarope bem amargo em sua tela mental, daqueles de causar tremelique do primeiro fio de cabelo à última unha do dedo do pé.

Levantou-se da cadeira giratória de estofado verde que, há alguns anos, fazia companhia à sua escrivaninha de madeira clara – aliás, tão logo o móvel foi instalado em seu quarto, deu-se início uma discussão bizantina entre seus pais sobre a cor exata da mobília: a mulher dizia que era pau-marfim, o marido teimava que era marfim-imperial. A discussão não tinha fim até que seu irmão mais velho apresentou uma proposta tão conciliatória, quanto óbvia: “Vamos considerar apenas marfim, isso: cor marfim!” Pai e mãe, cada qual resmungou por um breve instante – ambos valendo-se de prudente discrição para não abrasar ainda mais os ânimos, vale frisar – porém, logo em seguida, concordaram que “apenas marfim” atendia a gregos e troianos. 

O menino seguia irrequieto, perambulando de um canto a outro do quarto. Ao passar pela janela, resolveu despender alguns minutos observando o movimento da rua, muito embora não enxergasse nada. Sua retina não atinava ao frenesi que pouco a pouco tomava conta do mundo exterior. Ao contrário, olhava cada vez mais pra dentro si, talvez ansiando que a solução do seu dilema surgisse a qualquer momento, visceral e soberana como um vulcão prestes a levar ao mundo exterior sua essência mais verdadeira. Para ele, porém, parecia um tanto devastador não vislumbrar um norte, um caminho que pudesse lhe subtrair daquela enrascada. Sua esperança era quase extinta.

Certamente, ficaria uma temporada sem computador, algo terrível nos dias de hoje. Era como morrer para o mundo sem funeral, sem cortejo, sem caixão, sem urna. Sem saudade, sem vela, sem coroa, sem fita amarela. Sem ser velado e posteriormente enterrado ou cremado. Seria a experiência sumária e impiedosa de ser des-co-nec-ta-do; alijado do convívio virtual abruptamente, semelhante àquelas mortes acidentais que, de uma hora para outra, nos revela nossa finidade instantânea e a total incapacidade de lidarmos com rupturas.

Voltou-se para a cama, onde permanecia aberta a mochila que atirara ao leito quando chegou da escola. Sentia o cheiro do almoço invadindo o seu cômodo pela fresta da porta, ainda trancada para evitar invasões, salvo aquelas que irrompem pelo ar como o irresistível aroma da carne moída de sua mãe. Ainda não sabia como abordá-la. O pai seria a segunda etapa. Dependendo da triagem materna, poderia ter amenizado o peso de uma reprimenda contundente, considerando o poder da mulher de amolecer o coração do marido. Mas, caso ela não recebesse bem a novidade – como provável –, estaria perdido.

Pegou o pedaço de papel ligeiramente amarrotado que aparentava ter sido regurgitado da bolsa do colégio e passou a fitá-lo sem perceber que seu pensamento evasivo tornava meramente mecânica a leitura. Despertou com um grito pontual indicando estar na mesa o almoço. Tomou coragem e saiu decidido, levando entre os dedos a dura realidade contida no seu boletim escolar.

Licença Creative Commons
A obra O Dilema de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em tipoescrito.blogspot.com.
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8 comentários:

  1. Já passei exatamente por isso! Incrível, quando estava no meio do conto, me lembrei quando tinha que mostrar uma nota vermelha pros meus pais...e depois vi que era exatamente o que vc estava escrevendo... Amei!
    Bjos
    Andrea Gubert

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  2. Li ao conto tarde demais.
    Acabo de encontrar a solução pros meus medos da infância.

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  3. Sensacional!!! É apenas o ínicio..., nós, aprendendo a lidar com os problemas e angústias.
    bjs
    Fernanda

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  4. Esse cara tem futuro... vamos guardar esse nome! Alexandre Cunha. Vou tirar logo uma foto com ele, pra depois que for famozaço eu mostrar pros outros.
    Show, Alexandre, bem real.
    Abs!

    Gustavo

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  5. Adorei!!!! Muito bommm vou indicar para meus amigos.
    Parabénssss Alexandre pelo talento

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  6. oi Alexandre! que blog mais bacana! parabéns!
    gostei muito do texto e da narrativa!
    um beijo
    Lídia

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  7. ah, tenho um blog tb...
    =D
    visite um dia, espero que goste...

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