quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A Escolhida



Tela Favela Colorida - Katia Almeida
Antes a leve saliência abdominal não chamava muito a atenção.  Tratava-se de uma mulher madura, quase cinquentona e com uma constituição física que poderia ser classificada como normal. Nem alta ou baixa, nem gorda ou magra, mas já carregando o peso dos anos de uma vida que pouco lhe sorriu. Mãe de 12 filhos, vários já saíram pelo mundo afora, outros já saíram para fora deste mundo. O cotidiano na favela tem dessas coisas, os caminhos nem sempre se apresentam como alamedas floridas que desembocam em belos jardins, muito pelo contrário, algumas das inúmeras vielas pedregosas conduzem inexoravelmente ao abismo do desengano. No início, a mulher tentava em vão convencer os mais velhos a procurar um emprego honesto, o que era usualmente preterido pelo fascínio da cachoeira de cédulas a jorrar das mãos dos 'homens do movimento'.

Se não teve sorte com os filhos, cooptados e, posteriormente, executados pelo mundo das drogas, o que poderíamos dizer sobre os companheiros? Dezenas passaram pelo seu colchão, cada qual deixando um forçoso legado que iria, em meses, manifestar-se em pranto copioso para seu desespero. A carência de muitas gerações passadas imprimiu em seu íntimo uma total inépcia, uma terrível incapacidade de inibir suas reproduções mecânicas, as quais redundavam em gestações que duravam mais tempo que a permanência dos homens em sua casa. Aquela barriga mais aparente, antes uma leve saliência abdominal fruto da idade, das mudanças hormonais, dos diversos partos, parecia aumentar de volume a cada dia. A confirmação do décimo terceiro filho pegou a todos de sobressalto. 

O pai deste último – melhor dizendo: do mais recente, nunca se sabe quando a torneira vai secar – já havia tomado o rumo da rua. No barraco, restavam, além da mãe, cinco crianças perambulando descalças e maltrapilhas pelo chão de terra, onde dividiam espaço com enormes ratazanas que, vez por outra, cruzavam o caminho. Não adoeciam gravemente por puro milagre, ou, como podem preferir os mais céticos, por terem desenvolvido um mecanismo de imunidade, tal como o indivíduo que, na refrega do rocio, colecionara dezenas de picadas de cobra, tendo o veneno se tornado inócuo pela repetição das ocorrências e as mordidas quase desprezíveis, não fosse o incômodo da dentada.
 
A surpresa de sua gravidez deixou de se figurar como a principal preocupação da semana no momento em que o 'aviãzinho' do morro chegou com a notícia. Naquele instante, embora tomada por uma incalculável excitação, não saberia precisar se o motivo que trouxera o estafeta a sua casa seria, de fato, algo a se festejar. O ensejo de ser ela, exatamente ela, a mãe da escolhida para mulher do dono do morro foi lhe causando, aos poucos, uma estranha sensação de lisonja. De certa maneira, o futuro da menina – a única entre os quatro varões que ainda permaneciam sob a asa materna – estaria praticamente garantido, pelo menos, enquanto o marido fosse vivo. Escusado seria considerar a possibilidade do homem perder o comando sem deixar a cabeça como prêmio aos inimigos, como dizem: rei posto, rei morto.

Os 'coronéis' da favela são assim mesmo, impõem seus preceitos e ai de quem não viver segundo sua cartilha. A hierarquia dentro do grupo determina uma escala de regalias que cresce de acordo com o poder exercido. No patamar mais alto, o chefe da boca se reserva o direito de determinar qual menina da comunidade deverá fazer as vezes de primeira dama do tráfico. Uma escolha criteriosa, munida de paciência e astúcia, pois um dos pré-requisitos – e este o mais importante – diz respeito à conduta ilibada da eleita. Uma pureza, um recato não somente comprovado, mas notório, a virgindade de sua amada como questão de honra e afirmação de poder. Obviamente a principal exigência fazia com que o escopo da pesquisa ficasse restrito somente às meninas que não chegaram à puberdade. O afunilamento deixava para trás as fisicamente menos atraentes ou de higiene duvidosa. Fazia pouco mais de um mês, a então escolhida soprara as velinhas cor-de-rosa que enfeitavam seu bolo de aniversário. Não precisou recorrer a um segundo fôlego para apagar aquelas dez pequenas chamas que tremeluziam ao sabor do vento na parte externa do barraco.   

A novidade se espalhou com espantosa rapidez. No início, foi curioso experimentar a mudança de comportamento daqueles que agora faziam questão de cumprimentar a mãe da menina sem economizar nos salamaleques. Até cafezinho com bolo de aipim a mexeriqueira da casa 33 preparou como agrado vespertino para a futura sogra da comunidade – título que a própria fingia não abraçar, com falsa modéstia. Farta do constante incômodo causado pelos soldados do pó, que utilizavam sua laje como ponto estratégico para perscrutar a instante movimentação dos 'canas', a pragmática senhora da casa ao lado tinha pleno interesse de pôr em prática a tão falada política da boa vizinhança. Uma amiga como essa, agora mais íntima que antes, não lhe negaria o favor de pedir ao genro – o grande chefão – para que o bando fizesse outra freguesia de observatório.

A mãe da escolhida aceitava os mimos de bom grado, não deixando transparecer que sabia muito bem o que estava a se passar. Preferia estampar no rosto um ar de quem é mesmo especial na essência, sem depender de fatores externos ou ficar ao sabor dos acontecimentos como aquele que se apresentava. Era como se ganhasse uma bolada na loteria esportiva e permanecesse com a fleuma de quem acabou de achar um trocado no bolso da calça e que este mal seria suficiente para comprar um litro de leite. Que atire a primeira pedra quem não gosta de ser paparicado.

Podemos, entretanto, assegurar de forma hipotética que poucos seriam aqueles a rejeitar qualquer forma de agrado, porém, analisando mais profundamente, observamos que tudo tem o seu preço: a principal causa de toda aquela adulação trazia em si recordações não muito agradáveis. A mulher, ao contrário do que se pudesse supor, parecia inebriada com o seu novo status quo na comunidade. O mesmo tráfico que lhe arrancou os filhos estava agora a solicitar sua pequena jóia de apenas dez anos de idade e ela achava o máximo. Talvez imaginasse que, neste novo cenário, não estava mais cedendo reles soldados para o front de batalha e sim oferecendo de suas entranhas uma princesa plebeia que entraria para a linhagem dos poderosos do morro. 
 
No entanto, a principal interessada no assunto recebeu a notícia com visível perplexidade. Brincava de mãe-e-filha com sua inseparável boneca de plástico quando pressentiu sua infância lhe escorregar pelos dedos. De agora em diante, o faz-de-conta cederia lugar às verdadeiras obrigações domésticas; os filhos, não demoraria muito, seriam de carne e osso e não mais de material sintético, como seu estimado brinquedo caído, estatelado, sob chão de terra batida. Essa vida de bandido não era com ela, sonhava em sair do morro, ser bailarina ou cantora ou, se seus dotes artísticos não se manifestassem como o esperado, faria ao menos um curso técnico de enfermagem. Desde cedo, traçava vários planos e chegou a dizer, certa vez, que homem nenhum a faria mudar de ideia, ele que a aceitasse como ela era. A boneca, desconjuntada e de olhos esbugalhados, parecia refletir em sua aparência o estado interior de sua mãe de mentirinha, uma criança de dez anos de idade, assustada, acuada, ainda sem entender propriamente o significado daquelas palavras que saíam estuantes da boca de sua mãe e atingiam completamente arrefecidas os seus ouvidos hesitantes. Um balde de água fria inundou a sua alma.

Naquela mesma noite, a escolhida decidiu ganhar o mundo, tal como o passarinho que não se deixa engaiolar em troca de água e refeição farta. Num primeiro impulso, a mãe pensou em procurá-la e trazê-la pelo cabresto no intuito de honrar o título conferido entre miríades de jovens que não tiveram a mesma sorte – ou competência – e que continuariam convivendo com uma incômoda e perversa invisibilidade. Desistiu no minuto em que outro mensageiro chegou com um breve comunicado do todo-poderoso. O bilhete trazia inscrições num garrancho quase ininteligível, informando que a escolhida havia sido desclassificada e que, por pura misericórdia e em respeito ao estado de gravidez, a mãe não sofreria as consequências pelo ato reprovável de sua filha. “Mulher...”, segundo encerrou a missiva, “deveria honrar e venerar seu homem como a um deus na Terra.”

Após guardar o bilhete na gaveta de sua cômoda surrada e carcomida nas extremidades, sentou-se na cadeira ao lado do fogão e, passando a mão com delicadeza sobre sua ainda discreta barriga, desejou com todas as forças que o Senhor lhe enviasse uma menina. Uma nova postulante à princesa, com a diferença que, desta vez, o pepino seria torcido desde cedo para evitar acidentes de percurso. Do ventre em diante, passando pelo primeiro vagido, o primeiro passo, a primeira fala a pequena seria educada para ser a próxima escolhida na comunidade.   

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