quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O Colchão



Ilustração: Dudu (9) e Guigo (5)
Apesar de estarmos um pouco afastadas, conheço a Idalina há muitos anos, desde quando ela e o marido foram morar no Rio Comprido. Na época, a Rua Itapiru era bem diferente, as favelas não haviam tomado conta da região e era possível – pasmem! – passar o dia inteiro sem ouvir um disparo de arma de fogo sequer, algo impensável nos dias de hoje.

Era comum passearmos despreocupadas pelas calçadas naqueles áureos anos 60, comecinho dos 70. Logo depois do almoço, saíamos para tomar picolé na venda do seu Daniel e, pontualmente, às cinco da tarde, chegava a hora do sonho com recheio de doce de leite da padaria da esquina. Ficávamos hipnotizadas pelo aroma que invadia o quintal de nossas casas, de onde podíamos enxergar a chaminé espargindo deliciosos sabores a nos convidar para o lanche.

Seu marido retornava do trabalho religiosamente às sete, e Idalina o aguardava disciplinarmente já de banho tomado e jantar semipronto. Viveram no bairro por alegres dez anos, que foram interrompidos pela morte inesperada do companheiro: um ataque cardíaco fulminante. A vida na casa passou a ser um martírio de recordações e a mulher não teve alternativa senão mudar de ares.

O destino escolhido foi a Tijuca, mais precisamente uma sossegada vila na Rua Pinto Guedes. Definitivamente, ela não gosta de apartamentos. Até hoje, refuta qualquer possibilidade de morar encaixotada ou viver em gavetas – como se refere às moradias que compõem os edifícios. Encantou-se com a terceira de um total de sete casas que se perfilavam à esquerda de quem vinha pelo portão principal. Os janelões de vidro encaixilhados por finas esquadrias, quando descerrados, davam mais liberdade aos raios solares que penetravam sem cerimônia pelos cômodos, conservando a casa sempre arejada. O pé-direito alto tornava o ambiente mais amplo e aprazível, emprestando o diferencial de que necessitava para não ficar com aquela horrível sensação de apinhamento.

A convivência de muitos anos me fez entender perfeitamente a angústia de Idalina ao presenciar a cena desta manhã. Ela retornava da feira por volta das nove quando se deparou com aquela situação inesperada – não pôde nem levar as mãos ao rosto, precisava esfregar os olhos para se certificar de que não era o sol a pino na cabeça a pregar-lhe uma peça. Vinha com duas sacolas carregadas de frutas e verduras que dividiam espaço com um pequeno embrulho reforçado, contendo em seu interior meia dúzia de filés de tainha criteriosamente selecionados para o almoço. Nada especial se o peixe – ao qual fiz questão de mencionar – não fosse o seu prato preferido, e ainda assim não seria um almoço igualmente especial não fosse o fato de ser o dia de seu aniversário. Justo hoje, não merecia passar por aquilo tudo.

Ficou paralisada, seus músculos se retesaram deixando as duas sacolas escorregarem pelos seus dedos. O colchão em que dormira por 35 anos, sendo os dez primeiros na companhia de seu saudoso marido, estava do lado de fora do portão da vila, abandonado no espaço reservado à coleta de quinquilharias – em geral, de grande porte. Mas que precipitação! Não era um colchão qualquer, era a única testemunha de um amor incondicional, de um tempo em que era feliz por completo, pois havia com quem compartilhar intimamente suas alegrias e, nos momentos tristes, gozava do privilégio de ter um homem em casa que a compreendesse por completo... E o cheiro dele ainda estava lá, impregnado.

Os filhos e seus respectivos cônjuges ficaram sobressaltados quando Idalina, da longevidade de seus 72 anos, arremeteu-se pela porta da sala, levando o colchão nas costas até o lugar de onde nunca deveria ter saído. Na verdade, ela parecia carregar no lombo o pedaço de vida que havia sido interrompido, o qual fazia questão de cultivar até o resto de sua existência aqui neste plano. Curioso imaginar que a família se reuniu e preparou a surpresa com a melhor das intenções: um colchão ortopédico novinho em folha que iria enfim aliviar as dores constantes da matriarca. Mas e as dores do coração? Essas são muito piores, não há remédio que as cure, existem sim paliativos que as tornam um pouco menos pungentes e, de certa forma, com a ajuda do tempo – dito popularmente ser o melhor remédio – nos trazem de volta à vida, ao dia a dia implacável, à dura realidade.

Desculpou-se com todos no recinto e foi para o quarto. Antes pediu ao filho que retirasse o colchão novo e o acomodasse no aposento de hóspedes, desocupado desde quando ele e a irmã – “as crianças”, termo usado até hoje – decidiram se casar. Na sala, decepcionados com desfecho da surpresa que saiu pela culatra, ainda especulavam quanto ao ocorrido. “Sempre foi assim, a gente quebra a cabeça para escolher o presente, mas ela não gosta de nada...”, a filha ressentia-se enquanto o genro caminhava até rua para buscar as sacolas e salvar o que restou do almoço.

Já deitada, de bruços, sua palma da mão alisava o colchão avidamente em busca de recordações como se elas pudessem surgir esvoaçantes, saídas do orifício de uma lâmpada mágica. Um dos pedidos seguramente seria trazer de volta os tempos vividos na casa do Rio Comprido. Todos os momentos armazenados em sua memória afetiva passaram como um filme pela cabeça. Em especial, o dia em que foram comprar o colchão e tiveram uma noite inesquecível, pois celebravam cada conquista, cada melhoria no lar. 

Lembrou-se de quando acordou com o corpo amuado e pediu ao marido para virá-lo – a vendedora da loja os aconselhou a cumprir esse procedimento anualmente para evitar dores no corpo. E ele sempre protelava, ou estava em cima da hora do trabalho ou chegava cansado e adiava para o dia seguinte. Passou uma década nessa lengalenga até o dia em que não voltou mais. Desde então, o colchão nunca foi trocado de posição, ficou exatamente como o seu companheiro o deixou. Mesmo na mudança do Rio Comprido para a Tijuca, a mulher fez questão de pôr uma discreta marca à caneta, indicando o lado que deveria permanecer na superfície pelo resto de seus dias.

A avalanche de recordações a fez adormecer, viajando para um mundo onde se pode tudo, onde o passado é presente e o futuro acontece neste instante, onde é possível reencontrar antecipadamente o seu grande amor. Provavelmente ele a espera em algum lugar do desconhecido, ansiando o dia em que a vida arranque o véu de sua amada e ela possa verdadeiramente enxergá-lo de olhos fechados, com olhos do espírito.

Enquanto esse dia não chega, o jeito é se contentar com os resquícios de memória que ainda lhe sobram, mas que o tempo se encarrega de ir obscurecendo paulatinamente até se apagarem sem deixar vestígios. Definitivamente, envelhecer não está entre as nuances mais agradáveis da vida. Pelo menos, não sem a presença daquele com quem se decide envelhecer junto, como deve ser quando duas almas se amam.

O bairro do Rio Comprido - Informações básicas
O bairro da Tijuca - Informações básicas

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Um comentário:

  1. Emocionantemente real!!!! Meus olhos chegaram a ficar cheios de lágrimas!!!
    Melhorando a cada dia!!!
    Bjs
    Renata.

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