quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O Esconderijo do Super-herói



Ilustração feita pelo Dudu (9 anos)
A máquina de escrever era de fato o objeto mais lúdico que havia no local. Ficava em cima de uma mesa revestida com fórmica de cor escura, imitando imbuia; pés de madeira e três gavetas do lado direito. Na cadeira, que compunha conjunto com a mesa, uma resma de papel ofício fazia as vezes de coxim para que meus dedos buliçosos alcançassem as teclas do meu brinquedinho.

Era simplesmente impossível posicionar o papel de forma equânime. Quando não ficava torto, ficava completamente amassado. Teimava em colocá-lo sozinho, mas, após inúmeros insucessos, acabava pedindo o socorro da moça que ficava sentada à entrada da sala. Ela vinha sorrindo, solícita, ajeitando a saia e passando a mão nos longos cabelos castanhos que ora jogava para esquerda ora para a direita. Suas pernas eram longas, roliças, bem torneadas, uma beleza. Apesar da pouca idade, eu já sabia apreciar um belo par de pernas. E dona Irene não deixava a desejar, pelo menos, ao olhar crítico masculino de um menino de sete anos.

Debruçava-se sobre a mesa ao alojar o papel na máquina, explicando-me pela milésima vez, passo a passo, como posicionar corretamente a folha. Nunca aprendia, talvez porque meus olhos estavam mais interessados em prestar atenção em seu colo, desprotegido por trás de um generoso decote. Devia perceber minha singela perversão de menino, mas, ao menos, fingia não dar importância. Tinha uma paciência infindável, estava pronta a atender meus caprichos tantas quantas fossem as solicitações. Afinal eu era o filho do patrão.

Enquanto o rei ocupava-se com seus afazeres diários – não parava de entrar gente na sala dele: eram os funcionários que dependiam da liberação dos serviços de rua, a dona Irene levando calhamaços de papel para assinatura, um grupo de desavisados perguntando a data de entrega da R.A.I.S., o frenesi das ligações –, o príncipe marcava seu território na antessala. Os que passavam sorriam subservientes, cheios de salamaleques, demonstrando profunda satisfação por eu estar ali, ocupando uma mesa de escritório e mudando a rotina daquele lugar que, um dia, quem sabe, seria governado por mim. Pelo menos, assim eles pareciam pensar. Bobagem, não ligava para aquela lisonja toda. Queria mesmo era bater a máquina o mais rápido que pudesse, eliminando quase por completo o hiato sonoro entre uma tecla e outra. Como fazia a dona Celina, responsável pelo lançamento do I.S.S. das empresas, uma vetusta senhora com óculos fundo-de-garrafa e carola no jeito de se vestir. Era taciturna, mas simpática quando abordada.

Ficava defronte à mesa em que eu estava. Quando trabalhava na máquina, mal olhava para o teclado, parecia saber de cor a posição de cada letra, de cada número, de cada sinal. Tentava imitá-la na forma. Conseguia. O som era contagiante, os dedos céleres premendo cada tecla numa velocidade alucinante. Porém o resultado: kqwoe wfjfdj nf dsoçlnlsdd... Nada animador. Mas eu gostava, como gostava. Ficava entretido um par de horas naquela brincadeira particular com a máquina de escrever, notando os trejeitos de cada um em suas mesas de trabalho e observando os passos apressados de funcionários que buscavam as pastas de arquivos guardadas nos armários pregados nos quatro cantos de uma das salas do escritório. Apenas ao final da tarde, quando as coisas pareciam acalmar, iria ter com meu pai.

E nem por isso terminava a diversão. Adorava bulir nos pesos de formas variegadas que oprimiam a papelada em cima de sua mesa. Clipes eram destituídos de sua aparência original para serem transformados em bonecos, carros e tudo o que me desse na telha. Elásticos eram esticados de uma ponta a outra da mesa num momentoso campeonato, em que vencia o mais resiliente de todos. Fileiras de grampos eram tiradas e recolocadas em grampeadores de diversas espessuras. O furador de papel em minhas mãos era implacável. Espicaçava dezenas e dezenas de folhas de rascunho para, mais adiante, recolher as rodelas que acumulavam no fundo do objeto. Não parava um minuto.

Papai parecia não se importar com aquela pequena confusão em sua sala. Estava tão mergulhado em seus afazeres que não ensaiava uma reprimenda sequer. Talvez, para ele, o fato de estar entretido fazia com que não o interrompesse com bobagens. Antes entretido que entediado, melhor assim. Ao lado, o burburinho dos funcionários já começava a se arrefecer. Às dez para as seis, já traziam suas mesas arrumadas. Ficavam, digamos, num estágio transitório, não trabalhavam, mas também não saíam. Apenas aguardavam, contando cada segundo para que pudessem deixar o ofício em paz com suas consciências. Às seis e cinco, as duas salas adjacentes estavam completamente vazias. Chegava ao fim mais um dia de trabalho.

- Vamos, meu filho, sua mãe já deve estar nos esperando.
- Claro, papai, eu já estou pronto!

Mantendo o punho direito cerrado, esperava o momento em que todas as luzes fossem apagadas. Sigilo era fundamental. Claridade, apenas a que saía pelo corredor afora. Papai aguardava-me próximo ao elevador. Finalmente chegara a hora. Abrindo a palma da mão, liberava o restolho que retirara minutos antes do furador, improvisando uma breve chuva de confetes. Confetes para coroar o dia. Um dia, simplesmente, mágico. 








Este conto é dedicado a Geraldo Vieira dos Santos, também conhecido como meu pai.


Licença Creative Commons
A obra O Esconderijo do Super-herói de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em tipoescrito.blogspot.com.
Permissões adicionais ao âmbito desta licença podem estar disponíveis em http://tipoescrito.com.br.

5 comentários:

  1. Emocionante...fantástica sua sensibilidade em homenagear seu PAI, usando suas lembranças da infância com muitas pitadas de criatividade e imaginação...ADOREI!!!!!!!

    Qdo crescer quero ser como vc!!!!

    ResponderExcluir
  2. O filho que homenageia o pai e o pai que homenageia o filho! Adorei o conto e a ilustração do conto!
    Renata.

    ResponderExcluir
  3. Bem lindo... quase chorei no final, com a chuva de confetes...! = )

    ResponderExcluir