quarta-feira, 30 de março de 2011

O Presente Mais Desejado de Toda a Sua Vida



Ilustração: Dudu (9)
Chegou carregando nos braços uma pequena caixa embrulhada com um papel colorido. Os vizinhos observavam, curiosos, a excitação quase pueril daquela senhora de 75 anos, completados na semana anterior. Ela morava numa casa humilde de pouco mais de 20 metros quadrados, a última de um terreno de terra batida, ligeiramente íngreme, o qual abrigava ainda outras três moradias, não tão modestas e mais bem aparentadas – sendo a primeira, pertencente ao dono da propriedade e este, por extensão, senhorio de todas as habitações.
 
Vivia em Campo Grande, subúrbio carioca, desde a sua chegada ao Rio Janeiro. Deixou para trás uma vida dura que imprimiu em seu rosto e, sobretudo, em suas calejadas mãos as marcas do trabalho precoce. Viu sua infância ir embora aos sete anos, quando o pai a convocou para a labuta no canavial em que lavorava também desde a tenra idade. Lá na Zona da Mata é assim, mal ganhou um pouquinho de discernimento e sustento nos braços, começava então a fase adulta.

Escola, a menina passava ao largo, observava a pequena construção de paredes caiadas, mas suficientemente encardidas, com olhar distante, de cima do caminhão que transportava dezenas de boias-frias pela estrada de areia. A imagem da poeira levantando ia cobrindo paulatinamente aquele santuário à medida que se distanciava em direção ao roçado. Para Izadora, o lugar mais sagrado do mundo estava bem ali no meio do caminho – a Igreja, frequentava toda semana, já na modesta casinha de ensino, nunca tivera o ensejo de sequer pôr os pés.

A saída de Pernambuco foi um martírio. Ainda lembra a figura do pai, apoplético, com a alma eivada de insultos e o coração partido por ver a filha abandonar o lar - não para casar, mas, segundo o velho, com o propósito de levar uma vida de rapariga no sul. Sentiu muita raiva naquele momento, talvez o combustível de que necessitava para decidir, de uma vez por todas, seguir seu rumo, ganhar a estrada mesmo sem vislumbrar precisamente o que encontraria na cidade grande. Há tempos, tentava contato com uma prima, já instalada em Jacarepaguá e com emprego de doméstica numa mansão de sete quartos na Barra da Tijuca. Finalmente, o sinal verde de Eulália a encheu de esperanças.

Chegou por estas bandas trazendo na bagagem poucas roupas, nenhum dinheiro e muitas incertezas na meninice de seus 18 anos. Embora condicionada apenas ao trabalho com a cana, não passou por apuros ao aprender os atributos do lar e também a se precaver contra as artimanhas da vida. Quanto a isso, é eternamente grata a Eulália, que foi uma professora de mão cheia – a propósito, a única que pôde chamar de professora em toda a sua existência.

Vinha, no ônibus, pensativa. A prima, hoje já falecida, era sempre lembrada com muito carinho, especialmente nos momentos mais alegres. E Izadora estava radiante naquele dia. Ao abrir a porta de casa, sentiu-se de volta ao seu humilde paraíso. Chegou ofegante, um tanto pela subida, um tanto pela excitação de carregar nos braços uma singela preciosidade. Sem abrir o embrulho, depositou-o em cima da cama e passou apenas a observá-lo com seus olhos septuagenários, olhos que já enxergaram um bocado coisa neste mundo, mas agora concentrados em registrar aquele exato momento, um breve instante, o qual fazia questão de eternizar na memória.

Algumas horas atrás, ouvia um grito apressado vindo do alto do último degrau da escada de alumínio. “Dia de arrumação, a madame fica com o capeta”, costumava dizer. Sua patroa decidiu revirar os armários de cima a baixo. Saiu tanta coisa de dentro que o quarto era uma poeira só. Izadora chegou sobressaltada com um paninho molhado em punho e sua costumeira disposição para dar conta do recado. Ficaram por ali horas e horas até tudo se ajeitar. 

Antes de fechar a última porta, a dona da casa sacou uma caixa retangular de papelão. Abraçou-a por alguns segundos e a estendeu até que Izadora pudesse alcançá-la em seus braços. “Toma, é sua!”. Aqueles mesmos olhos que enxergaram um bocado de coisa na vida se encheram d’água. Sua vontade era sair pulando e gritando apartamento afora. Certamente imaginou-se fazendo isso. Levou então o inesperado presente até o quarto de empregada e contou as horas até o fim do expediente.

A papelaria ficava no caminho de casa, a uma quadra do ponto de ônibus. Seguiu para lá com passos ansiosos. Escolheu a folha com padrão mais colorido da loja para servir de embrulho e pediu ao atendente que o arrematasse com um lindo laço branco. Este mesmo laço que agora hesitava em desatar para, quem sabe, não apressar o desfecho e conservar uma gostosa sensação como nunca havia experimentado. Após degustar ao máximo aqueles deliciosos minutos, decidiu abrir seu alentado presente.

Retirou-a da caixa com extremo desvelo e, finalmente, tomou-a pelos braços como se ninasse uma criança de colo. Caminhou até a cômoda, de onde pegou uma escova para tentar desembaraçar aqueles fios que não eram tocados há mais de 15 anos. Desistiu. Bochechas rosadas e salientes, os olhos reviravam ao sabor do embalo da velha senhora, que agora se dirigia até a sua minúscula cozinha. Foi numa pequena bacia de metal que Izadora a batizou. Dali em diante, iria se chamar, Eulália, a primeira boneca de toda a sua vida.

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quinta-feira, 24 de março de 2011

Desatino



Ilustração: Dudu (9) e Carol (11)
A televisão foi ligada apenas para atenuar o sentimento de solidão que inundava o apartamento. As luzes apagadas ressaltavam ainda mais o tom argenta no sinteco, promovido com incrível competência por uma lua redonda e brilhante. Ela parece maior hoje. Ou  quem  sabe  a melancolia que agora toma conta de mim, acabe por superdimensionar qualquer coisa a qual porventura eu dirija o olhar.

Não entendi o que a fez sair da minha vida desta maneira tão abrupta. Nós éramos como um só. Uma união exemplar, ninguém jamais poderia cogitar a nossa separação. Foi um choque não só para mim, como também para os amigos. Após certo tempo, determinadas relações parecem transformar cada indivíduo em uma única instituição. Era o nosso caso. Como se Augusto – apenas – não existisse... E como falar de Maria no singular? Viramos uma joint-venture. Augusto e Maria eram um corpo só. Pelo menos, com o tempo, nos acostumamos com a situação.

Enquanto estávamos juntos, nunca havia refletido sobre os estragos, sobretudo emocionais, de uma falência conjugal. A Juju, único e principal ativo da relação, da inocência de seus cinco anos, não consegue entender a lógica ou a própria logística de seus pais possuírem cada qual sua casa. Definitivamente, uma fusão de 12 anos, não poderia acabar assim, do dia para a noite... Que agonia!... Nem um uísque eu tenho direito de tomar! Na minha época, esse móvel era abarrotado de bebida.

Não importa, eu preciso encarar os fatos de cara limpa. Aproveito para acender a luz e olhar para mim mesmo pelo reflexo da janela, dando fim ao espetáculo da lua, já começando a me incomodar com sua beleza inoportuna. Não gosto da derrota que vejo estampada no rosto: a barba por fazer, o olhar de autocomiseração. Se isso ao menos a sensibilizasse... Sem chance! Maria sempre foi muito decidida. Não fosse por ela, não teríamos nos casado tão cedo. Eu sempre fui meio inseguro, confesso. Ela quem me convenceu a marcar a data para dezembro, no início do verão, quando completaríamos um ano de namoro.

De um canto morto da sala, o relógio de pêndulo continua me encarando com seu olhar espartano. Nunca simpatizei com ele, austero com seus ponteiros marchando em compasso perfeito e sempre entoando badaladas pontuais a cada hora. Não perdia o controle um minuto sequer e parecia vigiar a gente para que não saíssemos da linha, pelo menos, na sua presença. Aposto: a  mãe da Maria também não gostava dele, talvez por isso tenha nos passado esse estorvo antes mesmo de morrer. Minha mulher, aliás minha ex-mulher – não consigo me acostumar com a situação –, concedia-lhe mimos dignos de uma preciosa relíquia de família que atingira, incólume, a quarta geração de um matriarcado inaugurado por sua bisavó Palmirinha.

Dela, Maria não herdou apenas o relógio, era a velha quem tomava as rédeas da casa, mandava e desmandava e ai de alguém que ousasse a contrariar... Pu-ta-que-o-pa-riu!... essa porra desse ponteiro continua me repreendendo, dizendo ser três horas da madrugada e insistindo para eu me mancar e ir logo embora. Pro inferno! Em mim, você não manda!

Será que ela vai demorar? Toda sexta-feira é essa agonia, não volta pra casa antes das quatro. Deve estar por aí com um babaca de 25 anos que só quer curtir com a cara dela. Ou quem sabe arranjou um velho cheio da grana que não dá mais no couro. Não..., certamente não era brocha, senão a Maria já estaria em casa há muito tempo. Por que eu ainda tento me enganar? Às vezes, penso em segui-la, mas o desprazer de vê-la com outro termina com a minha curiosidade, além do mais, só de pensar nela suspirando ao toque de outra mão que não a minha, ao contato de outra boca, de outro corpo, me causa engulhos, tenho vontade de vomitar. Literalmente.

Três e quinze. O maldito me fuzila com um ar sobranceiro como se eu fosse um pária, um nada. Talvez seja melhor mesmo desligar tudo e ir embora pra casa. Não é tão mal assim, já consigo chamar aquele cubículo no apart hotel de casa. Preciso acabar com esta loucura de vir até aqui toda sexta-feira. Não faz sentido. Não reconheço o perfume de Maria neste apartamento, o seu travesseiro não conserva mais o cheiro a que me habituei sentir por todos esses anos, suas roupas exalam um aroma de mulher estranha, tudo está muito diferente. Estou cansado de subornar o porteiro, que me deixa subir e conserva uma discrição interesseira a troco de duas cervejas. E se ela me flagra, o que eu vou dizer?

Não posso correr o risco. Como explicar o fato de eu possuir a chave de sua casa, que teve o segredo trocado imediatamente após a minha saída? Seria ridículo descrever como a artimanha se processou. Uma chave descuidada sobre a mesa no dia em que subi para pegar a Juju... Não tive dificuldades em levar sorrateiramente aquele pedaço de metal até o banheiro e, lá, engastá-lo num naco de sabonete, moldando assim o passaporte deste meu desatino. Analisando friamente, sinto muita vergonha de ficar entrando aqui sem a Maria saber, no intuito de fazer sei lá o quê.

Três e meia. Você venceu, maldito, assino a minha rendição. De uma vez por todas, tenho de ir. A Juju pode ficar apavorada de acordar em plena madrugada e não encontrar o pai. Juro não voltar mais. Só não tenho coragem de me livrar desta maldita chave... Há seis meses tento jogar essa merda fora... Seis meses sem Maria.     

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quinta-feira, 17 de março de 2011

Bolo de Aniversário



Ilustração: Dudu (9)
Acordaram com o ar gelado da manhã transindo suas vestes. Aquele início de inverno já trazia consigo os dias mais frios do Rio de Janeiro nos últimos anos. Apesar da temperatura baixa, o sol começava a aparecer timidamente pelas frestas do barraco de madeira. As meninas dormiam num colchonete macilento ao lado de seus outros três irmãos. O chão de terra batida compunha quase totalmente a superfície do abrigo, que era recortado apenas em uma pequena porção por um assoalho irregular, onde ficavam a minúscula bancada da pia e o fogão.
 
Quanto ao banheiro, aliviavam-se do lado de fora numa casinha tão tosca e tão apertada que, ao sentar-se na latrina, os joelhos calcavam a portinhola e esta, por sua vez, não resistia à pressão e abria de vez em quando. Para ter o mínimo de privacidade, era preciso ficar segurando um prego oxidado, preso de forma remediada pelo lado interno da casinhota. Como diziam, viviam num caritó pra lá de humilde. 

Os pequenos continuavam dormindo. Tinham idades entre sete e onze. As gêmeas eram as primogênitas, completavam 15 anos exatamente naquela manhã de junho. A mãe, desempregada há mais de seis meses, saiu bem cedo para procurar trabalho. O pai saíra fazia bem uns cinco anos. Desse, os menores tinham parca lembrança e nenhuma notícia.

As duas levantaram quase simultaneamente ainda sonolentas, os olhos remelentos e três bocejos por minuto para cada uma. No intuito de chegarem ao fogão, tiveram de saltar levemente os meninos, apinhados de tal forma que era difícil distinguir a quais pernas e braços aqueles corpos pertenciam. Uma se dirigiu ao armário debaixo da pia a fim de alcançar o pacote de café, a outra contornou o fogão para liberar a válvula do gás.

Antes mesmo de a água começar a ferver, o botijão já demonstrava sinais de esgotamento. Foi a conta certa. As crianças levantaram com o aroma que tomava conta do barraco inteiro. Àquela altura, as gêmeas traziam a mesa posta, com um copo de café até a metade e uma fatia de pão de forma com um tasco de mortadela para cada um. Tiveram ainda de arrefecer os ânimos dos irmãos, que alegavam certa iniquidade na distribuição dos alimentos. Mesmo sem razão aparente, era praxe cada qual se sentir preterido, pois sempre enxergavam alguma vantagem no prato do outro. Passaram o tempo todo resmungando até saírem para a vida, carregando em seus braços pantomineiros as bolinhas de tênis utilizadas em suas performances nos sinais de trânsito.

Imediatamente, as duas se entreolharam com uma imprevista melancolia. Nada em relação ao comportamento dos irmãos, já estavam habituadas àquela algazarra toda. O caso é que, de fato, aquele era um dia especial: completavam 15 anos. E, se a data pedia comemoração, por mais modesta que fosse, importante era celebrar a ocasião da maneira como podiam. No entanto, não contavam com tamanho balde de água fria – ficaram inteiramente desapontadas com a falta do gás.

A vida andava difícil, haviam se organizado com um mês de antecedência para garantir, ao menos, o bolo de aniversário. A mãe conseguiu até economizar parte do fubá e do açúcar da cesta básica que recebia mensalmente numa casa de caridade. O leite, o fermento e meia dúzia de ovos – adquiridos com esforço desmedido – permaneciam imaculados, aguardando o momento solene da mistura dos ingredientes. Duro golpe este, se deparar com o botijão vazio.

– Só tem um jeito de fazer esse bendito bolo...
– Ah, não, de novo não!
– Você prefere passar os seus 15 anos em branco?
– Claro que não.
– Então?
– E a nossa promessa, como fica? Juramos pra mãe que isso não ia acontecer mais.
– E a mãe tem dinheiro pro gás?
­– A gente se humilhando pra aqueles filhos da puta...

Não era a primeira vez em que contribuíam com sua cota de sacrifício para suprir uma carência no lar. Cada tostão era contado e faltava quase de tudo sempre. O problema do gás, em geral, resolviam com puro pragmatismo, não obstante o fato de se sentirem ultrajadas pelo oportunismo despudorado daqueles pulhas do depósito, situado logo ali, no pé do morro.

Seguiam justamente para lá. Eram fisicamente idênticas. A pele negra como noite alta. As pernas compridas e roliças emprestavam-lhes aparência de mais idade, além de provocarem olhares fortuitos até mesmo dos mais contidos. Entretanto o cabelo curto e crespo ressaltava a meninice do rosto ainda com traços indefinidos e passageiros como sua própria puberdade. As duas chamavam a atenção quando estavam juntas, não somente por serem idênticas, mas pela maneira de se vestirem, geralmente com as coxas e a barriga à mostra. Pensando bem, não tencionavam ressumar a beleza de suas curvas. Na verdade, não havia escolha, usavam geralmente o que lhes era doado.

O botijão, mesmo vazio, era pesado. Carregavam juntas lado a lado, passando por becos estreitos, terrenos irregulares, parando aproximadamente a cada três minutos para recobrar o fôlego. Chegando ao depósito, foram recebidas por um funcionário e este solicitou a presença do dono – procedimento padrão nas situações em que o pagamento não era feito na forma convencional. Havia uma saleta reservada no fundo do pátio para o acerto de contas. Somente minutos mais tarde, após refestelarem-se com as duas, mandavam o moleque das entregas levar o botijão cheio até o barraco.

Mais uma vez, chegavam ao fim da via-crúcis com o firme propósito de parar com aquela história toda, não era nada justa a humilhação a que se submetiam para conseguir um simples suprimento de gás. Porém, se careciam das coisas mais simples da vida, como perimir, como evitar que a necessidade falasse mais alto que a consciência? A fome cala a alma. Pura ingenuidade acreditar que o fato não se repetiria. No fundo, sabiam ser dependentes daquela triste situação. Melhor seria não pensar nisso por ora. Era dia de festa. O bolo de aniversário estava garantido.

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quarta-feira, 9 de março de 2011

O Beijo Que Não Dei



Ilustração: Dudu (9)
Tudo aconteceu – ou teria acontecido – numa quarta-feira de cinzas, em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, a qual me reservo o direito de omitir para evitar problemas domésticos. A Maria Alice morreria de ciúmes mesmo sabendo que eram tempos de solteiro, como se o passado pudesse ameaçar sua posição consolidada a meu lado – muito por conta de méritos próprios dela, diga-se de passagem – há mais de 30 anos.  Bobagem de sua cabeça, de minha parte, conserva apenas cacos de memórias, lembranças sensivelmente truncadas de uma aventura adolescente que, na prática, nem existiu.

Talvez você que esteja lendo agora este bilhete escrito em letras garranchosas deva estar se perguntando como um episódio nunca ocorrido pode conservar alguma relevância. Não sei as razões, muito embora entenda como o fenômeno se dê na prática. Não fosse desta forma teríamos relegado ao esquecimento o maravilhoso gol de antes do meio-campo que o Pelé não fez contra a Tchecolosváquia na Copa de 70 ou aquele inolvidável drible no goleiro uruguaio sem sequer tocar na bola, tendo a pelota saído provocativa pelo lado de fora da trave, indo parar, teimosa, na linha de fundo...

Melhor deixar as razões de lado e dar voz ao coração, afinal, por causa dele vim parar aqui neste quarto de hospital. Quem sabe por não ter certeza se voltarei após essa cirurgia de safena decidi compartilhar com o mundo – e também com minha dedicada esposa – um pequeno segredo, um fato que não aconteceu ao final de um carnaval qualquer em Minas Gerais, porém tendo como protagonista uma linda menina que existiu de verdade, a qual tratarei aqui por ‘Ela’ – perdoem-me, uma vez mais, por não dar nomes aos bois. Neste caso, por elegância e respeito ao passado, faço questão de ressalvar imediatamente: dar nome à inesquecível dona do beijo que não dei.

Não lembro quantas bocas passaram por mim naqueles quatro dias de folia, no entanto, sei que foram o suficiente para me esbaldar. Meu grupo, se não me falha a memória, éramos quatro cariocas marrentos disputando quem atingiria a maior marca de beijos – “Selinho não conta!”. Curiosamente, não esqueço esse fragmento de fala, salvo engano, dito pelo Toninho, sempre preocupado em estabelecer a ordem mesmo nas horas mais inusitadas. Foram muitos bailes, bastante cerveja, animação e um punhado de mulheres, das quais nem um esforço sobre-humano é capaz de me fazer recordar um rosto ao menos...

Um minuto de pausa nas referências do passado para a enfermeira trocar o soro. Foi a própria quem descolou o bloquinho e me emprestou esta BIC que mancha meus dedos de azul à medida da escrita. Tomara não demore o procedimento, preciso terminar essas linhas antes que Maria Alice volte do almoço. Evidentemente saberá desta singela confissão, porém não convém abreviar a notícia. Além do mais, não conseguiria evocar minha doce lembrança com a mulher do lado, valendo-se de um olhar inquiridor e repetindo que não era conveniente me esforçar antes da cirurgia. Bolas, e se eu não voltar?! Que diferença isso faz?!

Após verificar a pressão, a gentil enfermeira finalmente saiu... De volta então ao carnaval passado: levados por inevitável empolgação, decidimos estender nossa estada até o domingo seguinte, a intenção era prolongar aquela balbúrdia toda por mais uns dias. Teria sido bárbaro não fosse o fato de a cidade inteira se esmerar com severidade no cumprimento da liturgia durante a Quaresma. Nada de farra, nada de noitadas, nada de excessos pelos próximos 40 dias. Apesar de ensolarada, uma quarta-feira de cinzas nunca pareceu tão cinza como naquela manhã.

Foi quando Ela apareceu. A sorveteria estava repleta de gente. Cabelos castanhos claros, com largas ondulações até a metade das costas, passando por ombros que pareciam acomodar harmonicamente cada fio, antes de precipitá-los radiantes como uma sedutora cachoeira dourada. Olhos de um magnetismo indescritível, daqueles raros em que qualquer adjetivo, por mais bem empregado, empobreceria o impacto de sua beleza. Pele branca, macia no olhar, esfuziante ao tocar. Nariz delicado, fino em seu curso e, por fim, arrebitado na medida exata. Tudo convergindo para uma boca desinibida, de um vermelho que prescindia de qualquer artifício para torná-la irresistível.

Fomos apresentados por uma das meninas que conhecemos na noite anterior. Se pra mim, a beleza Dela já era elouquente mesmo antes de ouvir sua voz, não pude deixar de sucumbir aos seus encantos enquanto conversámos a dois palmos de distância. Permaneci inebriado pelo movimento de seus lábios por mais alguns instantes, não percebendo mais o zum-zum-zum ambiente. Ao encontrar a sua mão, meu corpo se alegrou da cabeça aos pés e ganhou coragem para iniciar a incursão que redundaria no beijo mais desejado de toda a minha vida.

Entrelaçamos os braços. Aproximei o rosto com delicadeza e fechei os olhos para poder enxergar mais nitidamente o momento grandioso que estava por vir. Senti o calor de sua respiração roçar os meus lábios e uma sensação de felicidade plena me inundou por inteiro. Um momento sublime que, pra minha decepção, não se prolongou por muito tempo. A sorveteria passou a existir novamente no minuto em que seus dedos prevenidos entraram em ação – foram dois que tocaram suavemente minha boca advertindo não ser possível aquele beijo. Não em plena Quaresma.

Conversamos por mais algum tempo sem o entusiasmo de antes – seria fácil presumir – e ficamos de nos encontrar novamente num feriado qualquer. Certamente, quando estivesse desimpedida de sua abstinência religiosa, iríamos corrigir esta malfadada peça pregada pelo destino, que nos uniu no momento mais inoportuno possível. Jamais a vi de novo. Quem sabe a magia Dela ainda exista em minhas lembranças somente pelo fato deste beijo nunca ter acontecido, como os gols que o Pelé nunca fez e, por isso, somente por isso, se tornaram tão importantes, tão majestosos, tão inesquecíveis. 

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quarta-feira, 2 de março de 2011

O Peso da Vida



Ilustração: Dudu (9) e Guigo (5)
Depois de vários dias cinzentos, o sol de outono aparecia com um sorriso tímido naquela manhã de sábado. Os primeiros raios começavam a transpor o basculante do pequeno depósito da casa espírita, contribuindo de forma providencial para iluminar um pouco mais o ambiente, que era suportado apenas por uma fatigada lâmpada incandescente. As estantes que ladeavam as três paredes adjacentes à porta de entrada estavam abarrotadas de doações: roupas, brinquedos, utensílios domésticos, alimentos não perecíveis. Tudo, muito em breve, seguiria um novo destino de acordo com a programação assistencial da casa. Não tardaria muito, o estoque teria de ser renovado.

Após a prece de agradecimento, os trabalhadores do depósito já começavam a organizar as tarefas. Quinze famílias de diversos tamanhos, de cores variadas, de carências particulares seriam atendidas naquela manhã. Os sacos de pano, organizados por ordem numérica, eram desfraldados cuidadosamente para abrigar quilos e mais quilos de gêneros de primeira necessidade. Àquela altura, os dois companheiros se revezavam no encargo de buscar o alimento na estante. Arroz, feijão, fubá, açúcar, maisena, óleo, macarrão... A quantidade variava de acordo com o núcleo familiar, que era classificado por níveis de carência.

As bolsas estavam particularmente mais pesadas naquele dia, tamanho era o número de famílias cadastradas para receber a ajuda especial. Cada sacola preparada era transportada até um corredor fora do depósito para posterior distribuição. Estavam perto de completar as quinze doações, das quais apenas cinco não estavam entre aquelas que deveriam conter a quantidade máxima de gêneros. Um dos companheiros já sentia no corpo o desconforto causado pelo peso que carregava sistematicamente, sem descanso, ansioso para que o serviço fosse cumprido conforme o planejado e no tempo previsto.

Ao deitar o décimo fardo de alimentos no chão, queixou-se mentalmente, chegando a desejar, de maneira inadvertida, que as próximas sacolas fossem mais leves para atenuar seu problema momentâneo. O suor escorria pelo rosto e as pernas solicitavam um minuto de pausa. Necessitava recobrar o fôlego para continuar a lida embora não houvesse tempo a perder.

Voltou ao depósito um pouco menos cansado e mais reflexivo. Pensou sobre a importância do trabalho que realizavam e, sobretudo, quanto à situação daquelas mães que chegavam ali com suas dúzias de filhos. Obviamente – e não poderia ser de outro jeito –, as famílias com seis, sete, oito, nove crianças recebiam uma ajuda mais reforçada. Percebeu que o peso dos alimentos, que lhe oprimia o dorso e fazia ressumar o suor na sua testa, nada mais era que o reflexo da precariedade de um lar extremamente carente.

Mesmo no calor da tarefa, permitiu-se ter mais dois minutos de reflexão. Dirigiu-se até a porta do depósito e passou a contemplar o ambiente. Logo à sua frente, havia uma majestosa mangueira. A bem da verdade, não tão majestosa, pois seus galhos aparentes já revelavam a calvície da estação. No entanto, conservava uma beleza peculiar em sua nudez sazonal, como uma linda mulher desprovida de maiores cuidados estéticos, despenteada pelo vento e indiferente à sua aparência – mas, ainda assim, intrinsecamente bela aos nossos olhos.

Enquanto fitava a árvore, lembrou-se do motivo pelo qual havia interrompido o serviço: o peso dos sacos. E que peso era esse?! Não era apenas o resultado de seis quilos de feijão, cinco de fubá, quatro de açúcar... Somado aos mantimentos, carregava consigo, por alguns instantes, algo muito especial. Tinha a oportunidade de amparar, em seus braços bem nutridos – ao menos, por um pequeno instante – o peso da vida de cada família carente. Um peso, que, na matemática da existência humana ou na física da caridade, foge à lógica das ciências exatas.

Se o fardo daquelas mães, parindo filhos em catadupas, era pesado e implacável como as leis universais; o que o trabalhador da casa carregava, no curto trajeto do depósito ao corredor, era leve, muito leve... Tão leve quanto à derradeira folha ressequida que acabara de se precipitar da mangueira em frente ao depósito, ilustrando com sutileza uma autêntica e bela manhã de outono. 





 

Uma homenagem à Casa de Fabiano.


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