quinta-feira, 17 de março de 2011

Bolo de Aniversário



Ilustração: Dudu (9)
Acordaram com o ar gelado da manhã transindo suas vestes. Aquele início de inverno já trazia consigo os dias mais frios do Rio de Janeiro nos últimos anos. Apesar da temperatura baixa, o sol começava a aparecer timidamente pelas frestas do barraco de madeira. As meninas dormiam num colchonete macilento ao lado de seus outros três irmãos. O chão de terra batida compunha quase totalmente a superfície do abrigo, que era recortado apenas em uma pequena porção por um assoalho irregular, onde ficavam a minúscula bancada da pia e o fogão.
 
Quanto ao banheiro, aliviavam-se do lado de fora numa casinha tão tosca e tão apertada que, ao sentar-se na latrina, os joelhos calcavam a portinhola e esta, por sua vez, não resistia à pressão e abria de vez em quando. Para ter o mínimo de privacidade, era preciso ficar segurando um prego oxidado, preso de forma remediada pelo lado interno da casinhota. Como diziam, viviam num caritó pra lá de humilde. 

Os pequenos continuavam dormindo. Tinham idades entre sete e onze. As gêmeas eram as primogênitas, completavam 15 anos exatamente naquela manhã de junho. A mãe, desempregada há mais de seis meses, saiu bem cedo para procurar trabalho. O pai saíra fazia bem uns cinco anos. Desse, os menores tinham parca lembrança e nenhuma notícia.

As duas levantaram quase simultaneamente ainda sonolentas, os olhos remelentos e três bocejos por minuto para cada uma. No intuito de chegarem ao fogão, tiveram de saltar levemente os meninos, apinhados de tal forma que era difícil distinguir a quais pernas e braços aqueles corpos pertenciam. Uma se dirigiu ao armário debaixo da pia a fim de alcançar o pacote de café, a outra contornou o fogão para liberar a válvula do gás.

Antes mesmo de a água começar a ferver, o botijão já demonstrava sinais de esgotamento. Foi a conta certa. As crianças levantaram com o aroma que tomava conta do barraco inteiro. Àquela altura, as gêmeas traziam a mesa posta, com um copo de café até a metade e uma fatia de pão de forma com um tasco de mortadela para cada um. Tiveram ainda de arrefecer os ânimos dos irmãos, que alegavam certa iniquidade na distribuição dos alimentos. Mesmo sem razão aparente, era praxe cada qual se sentir preterido, pois sempre enxergavam alguma vantagem no prato do outro. Passaram o tempo todo resmungando até saírem para a vida, carregando em seus braços pantomineiros as bolinhas de tênis utilizadas em suas performances nos sinais de trânsito.

Imediatamente, as duas se entreolharam com uma imprevista melancolia. Nada em relação ao comportamento dos irmãos, já estavam habituadas àquela algazarra toda. O caso é que, de fato, aquele era um dia especial: completavam 15 anos. E, se a data pedia comemoração, por mais modesta que fosse, importante era celebrar a ocasião da maneira como podiam. No entanto, não contavam com tamanho balde de água fria – ficaram inteiramente desapontadas com a falta do gás.

A vida andava difícil, haviam se organizado com um mês de antecedência para garantir, ao menos, o bolo de aniversário. A mãe conseguiu até economizar parte do fubá e do açúcar da cesta básica que recebia mensalmente numa casa de caridade. O leite, o fermento e meia dúzia de ovos – adquiridos com esforço desmedido – permaneciam imaculados, aguardando o momento solene da mistura dos ingredientes. Duro golpe este, se deparar com o botijão vazio.

– Só tem um jeito de fazer esse bendito bolo...
– Ah, não, de novo não!
– Você prefere passar os seus 15 anos em branco?
– Claro que não.
– Então?
– E a nossa promessa, como fica? Juramos pra mãe que isso não ia acontecer mais.
– E a mãe tem dinheiro pro gás?
­– A gente se humilhando pra aqueles filhos da puta...

Não era a primeira vez em que contribuíam com sua cota de sacrifício para suprir uma carência no lar. Cada tostão era contado e faltava quase de tudo sempre. O problema do gás, em geral, resolviam com puro pragmatismo, não obstante o fato de se sentirem ultrajadas pelo oportunismo despudorado daqueles pulhas do depósito, situado logo ali, no pé do morro.

Seguiam justamente para lá. Eram fisicamente idênticas. A pele negra como noite alta. As pernas compridas e roliças emprestavam-lhes aparência de mais idade, além de provocarem olhares fortuitos até mesmo dos mais contidos. Entretanto o cabelo curto e crespo ressaltava a meninice do rosto ainda com traços indefinidos e passageiros como sua própria puberdade. As duas chamavam a atenção quando estavam juntas, não somente por serem idênticas, mas pela maneira de se vestirem, geralmente com as coxas e a barriga à mostra. Pensando bem, não tencionavam ressumar a beleza de suas curvas. Na verdade, não havia escolha, usavam geralmente o que lhes era doado.

O botijão, mesmo vazio, era pesado. Carregavam juntas lado a lado, passando por becos estreitos, terrenos irregulares, parando aproximadamente a cada três minutos para recobrar o fôlego. Chegando ao depósito, foram recebidas por um funcionário e este solicitou a presença do dono – procedimento padrão nas situações em que o pagamento não era feito na forma convencional. Havia uma saleta reservada no fundo do pátio para o acerto de contas. Somente minutos mais tarde, após refestelarem-se com as duas, mandavam o moleque das entregas levar o botijão cheio até o barraco.

Mais uma vez, chegavam ao fim da via-crúcis com o firme propósito de parar com aquela história toda, não era nada justa a humilhação a que se submetiam para conseguir um simples suprimento de gás. Porém, se careciam das coisas mais simples da vida, como perimir, como evitar que a necessidade falasse mais alto que a consciência? A fome cala a alma. Pura ingenuidade acreditar que o fato não se repetiria. No fundo, sabiam ser dependentes daquela triste situação. Melhor seria não pensar nisso por ora. Era dia de festa. O bolo de aniversário estava garantido.

Licença Creative Commons
A obra Bolo de Aniversário de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em tipoescrito.blogspot.com.
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4 comentários:

  1. Roberta Guimarães17 de março de 2011 01:28

    Querido Xande,

    Mais uma vez um tema forte ... o que mais choca é saber que vc se inspirou em fatos (se são fatos, obviamente q são reais) ... como pode, em pleno século XXI, ainda existir estes "pulhas" ... coitadas, são apenas fruto do meio!!!

    Parabéns, vc mais uma vez mandou bem, apesar do, meu grande e fiel amigo, 'Houassis' estar ao meu lado ... mas é assim que enriquecemos o vocabulário: lendo e procurando as palavras desconhecidas, lendo e procurando as palavras desconhecidas e lendo e procurando as palavras desconhecidas ... Hahaha!!!

    Grande beijo!!!

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  2. Márcio Guimarães18 de março de 2011 22:10

    Caro amigo
    Muito bom, mas deixa de ser um conto e sim uma matéria jornalística romanceada.
    bjs
    Márcio Guimarães

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  3. Márcio Guimarães18 de março de 2011 22:12

    Alexandre

    Quando chegar ao nº 30 ou 40, vai dar um livro ótimo, mix de contos!!

    Márcio Guimarães

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  4. Alexandre

    Caso eu fosse editora não teria a menor dúvida de lançar um livro seu de contos. Este, especialmente, é maravilhoso!!! Amei!!!

    Bjuss

    Cátia Bisaggio

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