quinta-feira, 24 de março de 2011

Desatino



Ilustração: Dudu (9) e Carol (11)
A televisão foi ligada apenas para atenuar o sentimento de solidão que inundava o apartamento. As luzes apagadas ressaltavam ainda mais o tom argenta no sinteco, promovido com incrível competência por uma lua redonda e brilhante. Ela parece maior hoje. Ou  quem  sabe  a melancolia que agora toma conta de mim, acabe por superdimensionar qualquer coisa a qual porventura eu dirija o olhar.

Não entendi o que a fez sair da minha vida desta maneira tão abrupta. Nós éramos como um só. Uma união exemplar, ninguém jamais poderia cogitar a nossa separação. Foi um choque não só para mim, como também para os amigos. Após certo tempo, determinadas relações parecem transformar cada indivíduo em uma única instituição. Era o nosso caso. Como se Augusto – apenas – não existisse... E como falar de Maria no singular? Viramos uma joint-venture. Augusto e Maria eram um corpo só. Pelo menos, com o tempo, nos acostumamos com a situação.

Enquanto estávamos juntos, nunca havia refletido sobre os estragos, sobretudo emocionais, de uma falência conjugal. A Juju, único e principal ativo da relação, da inocência de seus cinco anos, não consegue entender a lógica ou a própria logística de seus pais possuírem cada qual sua casa. Definitivamente, uma fusão de 12 anos, não poderia acabar assim, do dia para a noite... Que agonia!... Nem um uísque eu tenho direito de tomar! Na minha época, esse móvel era abarrotado de bebida.

Não importa, eu preciso encarar os fatos de cara limpa. Aproveito para acender a luz e olhar para mim mesmo pelo reflexo da janela, dando fim ao espetáculo da lua, já começando a me incomodar com sua beleza inoportuna. Não gosto da derrota que vejo estampada no rosto: a barba por fazer, o olhar de autocomiseração. Se isso ao menos a sensibilizasse... Sem chance! Maria sempre foi muito decidida. Não fosse por ela, não teríamos nos casado tão cedo. Eu sempre fui meio inseguro, confesso. Ela quem me convenceu a marcar a data para dezembro, no início do verão, quando completaríamos um ano de namoro.

De um canto morto da sala, o relógio de pêndulo continua me encarando com seu olhar espartano. Nunca simpatizei com ele, austero com seus ponteiros marchando em compasso perfeito e sempre entoando badaladas pontuais a cada hora. Não perdia o controle um minuto sequer e parecia vigiar a gente para que não saíssemos da linha, pelo menos, na sua presença. Aposto: a  mãe da Maria também não gostava dele, talvez por isso tenha nos passado esse estorvo antes mesmo de morrer. Minha mulher, aliás minha ex-mulher – não consigo me acostumar com a situação –, concedia-lhe mimos dignos de uma preciosa relíquia de família que atingira, incólume, a quarta geração de um matriarcado inaugurado por sua bisavó Palmirinha.

Dela, Maria não herdou apenas o relógio, era a velha quem tomava as rédeas da casa, mandava e desmandava e ai de alguém que ousasse a contrariar... Pu-ta-que-o-pa-riu!... essa porra desse ponteiro continua me repreendendo, dizendo ser três horas da madrugada e insistindo para eu me mancar e ir logo embora. Pro inferno! Em mim, você não manda!

Será que ela vai demorar? Toda sexta-feira é essa agonia, não volta pra casa antes das quatro. Deve estar por aí com um babaca de 25 anos que só quer curtir com a cara dela. Ou quem sabe arranjou um velho cheio da grana que não dá mais no couro. Não..., certamente não era brocha, senão a Maria já estaria em casa há muito tempo. Por que eu ainda tento me enganar? Às vezes, penso em segui-la, mas o desprazer de vê-la com outro termina com a minha curiosidade, além do mais, só de pensar nela suspirando ao toque de outra mão que não a minha, ao contato de outra boca, de outro corpo, me causa engulhos, tenho vontade de vomitar. Literalmente.

Três e quinze. O maldito me fuzila com um ar sobranceiro como se eu fosse um pária, um nada. Talvez seja melhor mesmo desligar tudo e ir embora pra casa. Não é tão mal assim, já consigo chamar aquele cubículo no apart hotel de casa. Preciso acabar com esta loucura de vir até aqui toda sexta-feira. Não faz sentido. Não reconheço o perfume de Maria neste apartamento, o seu travesseiro não conserva mais o cheiro a que me habituei sentir por todos esses anos, suas roupas exalam um aroma de mulher estranha, tudo está muito diferente. Estou cansado de subornar o porteiro, que me deixa subir e conserva uma discrição interesseira a troco de duas cervejas. E se ela me flagra, o que eu vou dizer?

Não posso correr o risco. Como explicar o fato de eu possuir a chave de sua casa, que teve o segredo trocado imediatamente após a minha saída? Seria ridículo descrever como a artimanha se processou. Uma chave descuidada sobre a mesa no dia em que subi para pegar a Juju... Não tive dificuldades em levar sorrateiramente aquele pedaço de metal até o banheiro e, lá, engastá-lo num naco de sabonete, moldando assim o passaporte deste meu desatino. Analisando friamente, sinto muita vergonha de ficar entrando aqui sem a Maria saber, no intuito de fazer sei lá o quê.

Três e meia. Você venceu, maldito, assino a minha rendição. De uma vez por todas, tenho de ir. A Juju pode ficar apavorada de acordar em plena madrugada e não encontrar o pai. Juro não voltar mais. Só não tenho coragem de me livrar desta maldita chave... Há seis meses tento jogar essa merda fora... Seis meses sem Maria.     

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A obra Desatino de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
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4 comentários:

  1. Xande,

    Que texto gostoso!!!

    Adoro parar e ler..leio e releio várias vezes de tanto que gosto!!!

    Já ansiosa pelo da semana que vem!!!

    Grande beijo,
    Bobbie

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  2. Muito bacana, Alexandre...de onde tira as ideias? E historia real?

    bj

    Parabens!!

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  3. Oi, gente, queria aproveitar o 10º conto do Tipo Escrito para dizer que estou muito feliz com as visitas, não esperava ter tantos acessos de página em tão pouco tempo. Valeu mesmo.

    Quanto às histórias, geralmente são contruídas a partir de pequenos fragmentos do cotidiano. O "Desatino", por exemplo, surgiu de um comentário de um amigo recém-separado. Ele falou algo mais ou menos assim: "Nunca achei que isso iria acontecer um dia, foi um choque também para os amigos. Estávamos juntos há tanto tempo que nos viam como uma instituição..." A partir daí, foi tudo criação, o ambiente, a situação etc.

    Diria que a maior parte dos contos contêm, no máximo, 30 por cento de realidade. Ou melhor, os outros 70 passam a existir a partir do momento em que são publicados.

    Beijo grande.
    Alexandre.

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  4. É o contrário ! 70% de realidade.Quem já não viveu esses sentimentos, mas sem a capacidade de se expressar assim ?
    Ser original com estórias cotidianas é que são elas...Vc faz isso muito bem !
    Parabens !
    Luiz Carlos Lacerda

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