quarta-feira, 9 de março de 2011

O Beijo Que Não Dei



Ilustração: Dudu (9)
Tudo aconteceu – ou teria acontecido – numa quarta-feira de cinzas, em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, a qual me reservo o direito de omitir para evitar problemas domésticos. A Maria Alice morreria de ciúmes mesmo sabendo que eram tempos de solteiro, como se o passado pudesse ameaçar sua posição consolidada a meu lado – muito por conta de méritos próprios dela, diga-se de passagem – há mais de 30 anos.  Bobagem de sua cabeça, de minha parte, conserva apenas cacos de memórias, lembranças sensivelmente truncadas de uma aventura adolescente que, na prática, nem existiu.

Talvez você que esteja lendo agora este bilhete escrito em letras garranchosas deva estar se perguntando como um episódio nunca ocorrido pode conservar alguma relevância. Não sei as razões, muito embora entenda como o fenômeno se dê na prática. Não fosse desta forma teríamos relegado ao esquecimento o maravilhoso gol de antes do meio-campo que o Pelé não fez contra a Tchecolosváquia na Copa de 70 ou aquele inolvidável drible no goleiro uruguaio sem sequer tocar na bola, tendo a pelota saído provocativa pelo lado de fora da trave, indo parar, teimosa, na linha de fundo...

Melhor deixar as razões de lado e dar voz ao coração, afinal, por causa dele vim parar aqui neste quarto de hospital. Quem sabe por não ter certeza se voltarei após essa cirurgia de safena decidi compartilhar com o mundo – e também com minha dedicada esposa – um pequeno segredo, um fato que não aconteceu ao final de um carnaval qualquer em Minas Gerais, porém tendo como protagonista uma linda menina que existiu de verdade, a qual tratarei aqui por ‘Ela’ – perdoem-me, uma vez mais, por não dar nomes aos bois. Neste caso, por elegância e respeito ao passado, faço questão de ressalvar imediatamente: dar nome à inesquecível dona do beijo que não dei.

Não lembro quantas bocas passaram por mim naqueles quatro dias de folia, no entanto, sei que foram o suficiente para me esbaldar. Meu grupo, se não me falha a memória, éramos quatro cariocas marrentos disputando quem atingiria a maior marca de beijos – “Selinho não conta!”. Curiosamente, não esqueço esse fragmento de fala, salvo engano, dito pelo Toninho, sempre preocupado em estabelecer a ordem mesmo nas horas mais inusitadas. Foram muitos bailes, bastante cerveja, animação e um punhado de mulheres, das quais nem um esforço sobre-humano é capaz de me fazer recordar um rosto ao menos...

Um minuto de pausa nas referências do passado para a enfermeira trocar o soro. Foi a própria quem descolou o bloquinho e me emprestou esta BIC que mancha meus dedos de azul à medida da escrita. Tomara não demore o procedimento, preciso terminar essas linhas antes que Maria Alice volte do almoço. Evidentemente saberá desta singela confissão, porém não convém abreviar a notícia. Além do mais, não conseguiria evocar minha doce lembrança com a mulher do lado, valendo-se de um olhar inquiridor e repetindo que não era conveniente me esforçar antes da cirurgia. Bolas, e se eu não voltar?! Que diferença isso faz?!

Após verificar a pressão, a gentil enfermeira finalmente saiu... De volta então ao carnaval passado: levados por inevitável empolgação, decidimos estender nossa estada até o domingo seguinte, a intenção era prolongar aquela balbúrdia toda por mais uns dias. Teria sido bárbaro não fosse o fato de a cidade inteira se esmerar com severidade no cumprimento da liturgia durante a Quaresma. Nada de farra, nada de noitadas, nada de excessos pelos próximos 40 dias. Apesar de ensolarada, uma quarta-feira de cinzas nunca pareceu tão cinza como naquela manhã.

Foi quando Ela apareceu. A sorveteria estava repleta de gente. Cabelos castanhos claros, com largas ondulações até a metade das costas, passando por ombros que pareciam acomodar harmonicamente cada fio, antes de precipitá-los radiantes como uma sedutora cachoeira dourada. Olhos de um magnetismo indescritível, daqueles raros em que qualquer adjetivo, por mais bem empregado, empobreceria o impacto de sua beleza. Pele branca, macia no olhar, esfuziante ao tocar. Nariz delicado, fino em seu curso e, por fim, arrebitado na medida exata. Tudo convergindo para uma boca desinibida, de um vermelho que prescindia de qualquer artifício para torná-la irresistível.

Fomos apresentados por uma das meninas que conhecemos na noite anterior. Se pra mim, a beleza Dela já era elouquente mesmo antes de ouvir sua voz, não pude deixar de sucumbir aos seus encantos enquanto conversámos a dois palmos de distância. Permaneci inebriado pelo movimento de seus lábios por mais alguns instantes, não percebendo mais o zum-zum-zum ambiente. Ao encontrar a sua mão, meu corpo se alegrou da cabeça aos pés e ganhou coragem para iniciar a incursão que redundaria no beijo mais desejado de toda a minha vida.

Entrelaçamos os braços. Aproximei o rosto com delicadeza e fechei os olhos para poder enxergar mais nitidamente o momento grandioso que estava por vir. Senti o calor de sua respiração roçar os meus lábios e uma sensação de felicidade plena me inundou por inteiro. Um momento sublime que, pra minha decepção, não se prolongou por muito tempo. A sorveteria passou a existir novamente no minuto em que seus dedos prevenidos entraram em ação – foram dois que tocaram suavemente minha boca advertindo não ser possível aquele beijo. Não em plena Quaresma.

Conversamos por mais algum tempo sem o entusiasmo de antes – seria fácil presumir – e ficamos de nos encontrar novamente num feriado qualquer. Certamente, quando estivesse desimpedida de sua abstinência religiosa, iríamos corrigir esta malfadada peça pregada pelo destino, que nos uniu no momento mais inoportuno possível. Jamais a vi de novo. Quem sabe a magia Dela ainda exista em minhas lembranças somente pelo fato deste beijo nunca ter acontecido, como os gols que o Pelé nunca fez e, por isso, somente por isso, se tornaram tão importantes, tão majestosos, tão inesquecíveis. 

Licença Creative Commons
A obra O Beijo Que Não Dei de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em tipoescrito.blogspot.com.
Permissões adicionais ao âmbito desta licença podem estar disponíveis em http://tipoescrito.com.br.

7 comentários:

  1. Alexandre,
    Está bastante criativo, só não entendo o porque da comparação com lances de futebol,tão insípidos e efêmeros.O beijo nuca dei e desejei até os dias de hoje, soa maravilhosamente bem e combina com o que fiz e que nunca deveria ter feito, ou o que não fiz e deveria ter feito!!rsrs
    Sucesso nesta nova empreitada.
    bjs
    MG

    ResponderExcluir
  2. Roberta Guimarães12 de março de 2011 18:14

    Xande,

    Adorei!!!!!!!!
    SEN-SA-CIO-NAL!!!!!

    É muito gostoso participar da construção dos seus contos...continue!!!

    Bjs,
    Bobbie

    ResponderExcluir
  3. Alexandre,

    muito bom!!

    Grande abraço,

    André De Biase

    ResponderExcluir
  4. Alexandre,

    ADOREI!!!! Não sabia que você escrevia!
    Virei sempre visitar! Vou ler os anteriores!
    Parabéns!
    Beijos,
    Claudia

    ResponderExcluir
  5. Germana Lucia de Araujo16 de março de 2011 00:43

    Alexandre,
    Que surpresa boa saber que você escreve, e tão bem. Gosto muito da incursão que você faz pelo imaginário. Vou me tornar assídua frequentadora.
    Beijo, Germana

    ResponderExcluir
  6. Oi Alexandre,

    Adorei o conto.
    Sucesso.

    Bjs,

    Edi

    ResponderExcluir
  7. Como não compartilhar seus contos tão deliciosos com quer que possa...
    Adoro como escreve, aleveza da construção dos momentos e "personagens" e os desenhos então...
    Salve Alexandre... poeta.

    ResponderExcluir