quarta-feira, 2 de março de 2011

O Peso da Vida



Ilustração: Dudu (9) e Guigo (5)
Depois de vários dias cinzentos, o sol de outono aparecia com um sorriso tímido naquela manhã de sábado. Os primeiros raios começavam a transpor o basculante do pequeno depósito da casa espírita, contribuindo de forma providencial para iluminar um pouco mais o ambiente, que era suportado apenas por uma fatigada lâmpada incandescente. As estantes que ladeavam as três paredes adjacentes à porta de entrada estavam abarrotadas de doações: roupas, brinquedos, utensílios domésticos, alimentos não perecíveis. Tudo, muito em breve, seguiria um novo destino de acordo com a programação assistencial da casa. Não tardaria muito, o estoque teria de ser renovado.

Após a prece de agradecimento, os trabalhadores do depósito já começavam a organizar as tarefas. Quinze famílias de diversos tamanhos, de cores variadas, de carências particulares seriam atendidas naquela manhã. Os sacos de pano, organizados por ordem numérica, eram desfraldados cuidadosamente para abrigar quilos e mais quilos de gêneros de primeira necessidade. Àquela altura, os dois companheiros se revezavam no encargo de buscar o alimento na estante. Arroz, feijão, fubá, açúcar, maisena, óleo, macarrão... A quantidade variava de acordo com o núcleo familiar, que era classificado por níveis de carência.

As bolsas estavam particularmente mais pesadas naquele dia, tamanho era o número de famílias cadastradas para receber a ajuda especial. Cada sacola preparada era transportada até um corredor fora do depósito para posterior distribuição. Estavam perto de completar as quinze doações, das quais apenas cinco não estavam entre aquelas que deveriam conter a quantidade máxima de gêneros. Um dos companheiros já sentia no corpo o desconforto causado pelo peso que carregava sistematicamente, sem descanso, ansioso para que o serviço fosse cumprido conforme o planejado e no tempo previsto.

Ao deitar o décimo fardo de alimentos no chão, queixou-se mentalmente, chegando a desejar, de maneira inadvertida, que as próximas sacolas fossem mais leves para atenuar seu problema momentâneo. O suor escorria pelo rosto e as pernas solicitavam um minuto de pausa. Necessitava recobrar o fôlego para continuar a lida embora não houvesse tempo a perder.

Voltou ao depósito um pouco menos cansado e mais reflexivo. Pensou sobre a importância do trabalho que realizavam e, sobretudo, quanto à situação daquelas mães que chegavam ali com suas dúzias de filhos. Obviamente – e não poderia ser de outro jeito –, as famílias com seis, sete, oito, nove crianças recebiam uma ajuda mais reforçada. Percebeu que o peso dos alimentos, que lhe oprimia o dorso e fazia ressumar o suor na sua testa, nada mais era que o reflexo da precariedade de um lar extremamente carente.

Mesmo no calor da tarefa, permitiu-se ter mais dois minutos de reflexão. Dirigiu-se até a porta do depósito e passou a contemplar o ambiente. Logo à sua frente, havia uma majestosa mangueira. A bem da verdade, não tão majestosa, pois seus galhos aparentes já revelavam a calvície da estação. No entanto, conservava uma beleza peculiar em sua nudez sazonal, como uma linda mulher desprovida de maiores cuidados estéticos, despenteada pelo vento e indiferente à sua aparência – mas, ainda assim, intrinsecamente bela aos nossos olhos.

Enquanto fitava a árvore, lembrou-se do motivo pelo qual havia interrompido o serviço: o peso dos sacos. E que peso era esse?! Não era apenas o resultado de seis quilos de feijão, cinco de fubá, quatro de açúcar... Somado aos mantimentos, carregava consigo, por alguns instantes, algo muito especial. Tinha a oportunidade de amparar, em seus braços bem nutridos – ao menos, por um pequeno instante – o peso da vida de cada família carente. Um peso, que, na matemática da existência humana ou na física da caridade, foge à lógica das ciências exatas.

Se o fardo daquelas mães, parindo filhos em catadupas, era pesado e implacável como as leis universais; o que o trabalhador da casa carregava, no curto trajeto do depósito ao corredor, era leve, muito leve... Tão leve quanto à derradeira folha ressequida que acabara de se precipitar da mangueira em frente ao depósito, ilustrando com sutileza uma autêntica e bela manhã de outono. 





 

Uma homenagem à Casa de Fabiano.


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