quarta-feira, 30 de março de 2011

O Presente Mais Desejado de Toda a Sua Vida



Ilustração: Dudu (9)
Chegou carregando nos braços uma pequena caixa embrulhada com um papel colorido. Os vizinhos observavam, curiosos, a excitação quase pueril daquela senhora de 75 anos, completados na semana anterior. Ela morava numa casa humilde de pouco mais de 20 metros quadrados, a última de um terreno de terra batida, ligeiramente íngreme, o qual abrigava ainda outras três moradias, não tão modestas e mais bem aparentadas – sendo a primeira, pertencente ao dono da propriedade e este, por extensão, senhorio de todas as habitações.
 
Vivia em Campo Grande, subúrbio carioca, desde a sua chegada ao Rio Janeiro. Deixou para trás uma vida dura que imprimiu em seu rosto e, sobretudo, em suas calejadas mãos as marcas do trabalho precoce. Viu sua infância ir embora aos sete anos, quando o pai a convocou para a labuta no canavial em que lavorava também desde a tenra idade. Lá na Zona da Mata é assim, mal ganhou um pouquinho de discernimento e sustento nos braços, começava então a fase adulta.

Escola, a menina passava ao largo, observava a pequena construção de paredes caiadas, mas suficientemente encardidas, com olhar distante, de cima do caminhão que transportava dezenas de boias-frias pela estrada de areia. A imagem da poeira levantando ia cobrindo paulatinamente aquele santuário à medida que se distanciava em direção ao roçado. Para Izadora, o lugar mais sagrado do mundo estava bem ali no meio do caminho – a Igreja, frequentava toda semana, já na modesta casinha de ensino, nunca tivera o ensejo de sequer pôr os pés.

A saída de Pernambuco foi um martírio. Ainda lembra a figura do pai, apoplético, com a alma eivada de insultos e o coração partido por ver a filha abandonar o lar - não para casar, mas, segundo o velho, com o propósito de levar uma vida de rapariga no sul. Sentiu muita raiva naquele momento, talvez o combustível de que necessitava para decidir, de uma vez por todas, seguir seu rumo, ganhar a estrada mesmo sem vislumbrar precisamente o que encontraria na cidade grande. Há tempos, tentava contato com uma prima, já instalada em Jacarepaguá e com emprego de doméstica numa mansão de sete quartos na Barra da Tijuca. Finalmente, o sinal verde de Eulália a encheu de esperanças.

Chegou por estas bandas trazendo na bagagem poucas roupas, nenhum dinheiro e muitas incertezas na meninice de seus 18 anos. Embora condicionada apenas ao trabalho com a cana, não passou por apuros ao aprender os atributos do lar e também a se precaver contra as artimanhas da vida. Quanto a isso, é eternamente grata a Eulália, que foi uma professora de mão cheia – a propósito, a única que pôde chamar de professora em toda a sua existência.

Vinha, no ônibus, pensativa. A prima, hoje já falecida, era sempre lembrada com muito carinho, especialmente nos momentos mais alegres. E Izadora estava radiante naquele dia. Ao abrir a porta de casa, sentiu-se de volta ao seu humilde paraíso. Chegou ofegante, um tanto pela subida, um tanto pela excitação de carregar nos braços uma singela preciosidade. Sem abrir o embrulho, depositou-o em cima da cama e passou apenas a observá-lo com seus olhos septuagenários, olhos que já enxergaram um bocado coisa neste mundo, mas agora concentrados em registrar aquele exato momento, um breve instante, o qual fazia questão de eternizar na memória.

Algumas horas atrás, ouvia um grito apressado vindo do alto do último degrau da escada de alumínio. “Dia de arrumação, a madame fica com o capeta”, costumava dizer. Sua patroa decidiu revirar os armários de cima a baixo. Saiu tanta coisa de dentro que o quarto era uma poeira só. Izadora chegou sobressaltada com um paninho molhado em punho e sua costumeira disposição para dar conta do recado. Ficaram por ali horas e horas até tudo se ajeitar. 

Antes de fechar a última porta, a dona da casa sacou uma caixa retangular de papelão. Abraçou-a por alguns segundos e a estendeu até que Izadora pudesse alcançá-la em seus braços. “Toma, é sua!”. Aqueles mesmos olhos que enxergaram um bocado de coisa na vida se encheram d’água. Sua vontade era sair pulando e gritando apartamento afora. Certamente imaginou-se fazendo isso. Levou então o inesperado presente até o quarto de empregada e contou as horas até o fim do expediente.

A papelaria ficava no caminho de casa, a uma quadra do ponto de ônibus. Seguiu para lá com passos ansiosos. Escolheu a folha com padrão mais colorido da loja para servir de embrulho e pediu ao atendente que o arrematasse com um lindo laço branco. Este mesmo laço que agora hesitava em desatar para, quem sabe, não apressar o desfecho e conservar uma gostosa sensação como nunca havia experimentado. Após degustar ao máximo aqueles deliciosos minutos, decidiu abrir seu alentado presente.

Retirou-a da caixa com extremo desvelo e, finalmente, tomou-a pelos braços como se ninasse uma criança de colo. Caminhou até a cômoda, de onde pegou uma escova para tentar desembaraçar aqueles fios que não eram tocados há mais de 15 anos. Desistiu. Bochechas rosadas e salientes, os olhos reviravam ao sabor do embalo da velha senhora, que agora se dirigia até a sua minúscula cozinha. Foi numa pequena bacia de metal que Izadora a batizou. Dali em diante, iria se chamar, Eulália, a primeira boneca de toda a sua vida.

Licença Creative Commons
A obra O Presente Mais Desejado de Toda a sua Vida de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em tipoescrito.blogspot.com.
Podem estar disponíveis permissões adicionais ao âmbito desta licença em http://tipoescrito.com.br.

7 comentários:

  1. Roberta Guimarães31 de março de 2011 00:25

    Não sei se foi uma homenagem à aniversariante de amanhã, mas de qualquer forma, foi dela que me lembrei ao ler este conto emocionante ... Guardo dela diversas lembranças, com muito carinho.

    Como vc pode pegar um fato corriqueiro, mas com uma importância ímpar, e construir uma história tão linda e comovente?!! Apesar das lágrimas, que garanto não serem de tristeza, muito obrigada por este momento!!!

    Que maravilha seria se todas as crianças do mundo pudessem ser crianças e estudar!!!

    Ah! Que menina nunca sonhou com uma boneca nova?!!

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  2. Sílvia Guimarães31 de março de 2011 12:31

    Será que você se inspirou na minha querida companheira durante 30 anos? Emocionei-me bastante com lágrimas de alegria.

    E adorei o desenho! Viva o Dudu!

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  3. Roberta Guimarães31 de março de 2011 19:37

    Dudu, sou sua fã!!!

    Incrível sua sensibilidade, o papai apenas lê o conto e vc o traduz no papel, conseguindo captar cada detalhe.

    Depois que a dinda Fefê lhe der umas dicas de desenho, você criará coisas ainda mais fantásticas.

    Viva o Dudu!!!

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  4. Fiquei emocionada!
    Amo passar por aqui!
    Bjos
    Andrea Gubert

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  5. Virgínia César5 de abril de 2011 16:48

    O mundo seria "perfeito" se todas as crianças pudessem ser crianças e se todo adulto se permitisse virar criança às vezes, só por um momento. Realmente teríamos paz!

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  6. Alexandre, comovente história de Izadora... começo aqui a acompanhar seus textos... esperarei ansiosa pelos seus livros! Parabéns! Continue escrevendo... nos presenteie! Beijos!
    Renata Couto.

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  7. Ah! Por sinal, recomendei seu blog a um amigo, excelente jornalista, a quem muito admiro, Eduardo Lamas, deve encontrá-lo perambulando por aqui... ele também tem um blog e textos fascinantes, vale conhecer. Edu já publicou um livro de poesia, tivemos o prazer de ir ao seu lançamento assim como teremos enorme prazer de ir ao seu um dia... beijos!

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