quarta-feira, 27 de abril de 2011

Árvore dos Sonhos



Desenho: Dudu (9)
O costumeiro rangido da porta de entrada anunciava com pontual precisão a sua chegada. De barriga junto à borda do fogão, a mãe terminava de esquentar a comida, torcendo para que a lenha desse conta de garantir ao menos o jantar. Profundamente compenetrada em seus afazeres domésticos, não percebeu o menino passar como um foguete em direção ao quarto.

Não havia tempo a perder: “As ideias escapam, são como peixes escorregadios na beira do rio!” – ouviu essa máxima de passagem, da boca de um poeta anônimo de bar e adotou-a como importante mandamento. Tirou da sacola seu inseparável estojo, fiel companheiro de trabalho. A folha de papel adormecia por baixo de umas quatro camisas na estreita cômoda de três gavetas. Lápis na mão, ensaiou, pela enésima vez no mesmo espaço, os primeiros traços daquele começo de noite.

A ponta do grafite já não conservava mais a eloquência de minutos atrás quando, na Pracinha do Céu, desenhou o rosto de uma bela moça – olhos amendoados, castanhos, no mesmo tom de seus cabelos longos; nariz expressivo e lábios abundantes. Estava de passagem pela cidade e resolveu levar o próprio retrato como recordação. Henrique tinha dedos de artista, captava as expressões de quem quer que seja e as transpunha para o papel com rara precisão. Ajudava como podia a complementar a renda doméstica e aliviar o peso dos quilos de roupas à beira do tanque de cimento, onde sua mãe passava a maior parte do dia. A rotina era mais ou menos esta: ela acordava às cinco para dar conta do trabalho e o menino saía por volta das sete com seu material devidamente ajeitado, direto para a praça, à espera dos grupos de turistas.

Embora escondida no mapa em algum ponto no interior de Minas, a cidade atraía gente de todo canto. Talvez por preservar a mansidão perdida do dia a dia, ela fosse tão procurada. A Pracinha do Céu – como ficou conhecida – era a única do lugarejo. Meia-dúzia de bancos, alguns canteiros floridos e um coreto na parte central, teve seu nome rebatizado pela sabedoria popular. O endereço original, Praça Castiniano Epaminondas Ubaldino, de gracioso, continha apenas as inicias que foram oportunamente destacadas e acabaram por consolidar de vez sua referência. Justamente ali, naquele pedacinho de mundo, o pequeno artista impressionava todos com sua habilidade precoce.

Após riscar o papel e apagar dezenas de vezes, uma conhecida expressão de frustração dominou seu rosto. Já havia tentado traçar aquelas linhas anteriormente, mas, como sempre acontecia, via o peixe escapar pelos seus dedos sem que nada pudesse fazer. Desistiu. Posicionou de volta a folha na gaveta da cômoda da forma como quando a pegara: por baixo das roupas e com extremo cuidado, aguardando ansiosamente uma nova inspiração. Lembrou-se de avisar a mãe sobre sua chegada; àquela altura, a jovem senhora de aparência castigada pela rudeza do trabalho e pela viuvez repentina já se dirigia ao portão em busca de notícias.

Moravam os dois, sozinhos na casa, desde a enchente. Foi algo devastador. Não só levou tudo de material como também a vontade de viver do pai de Henrique. Dizem que o homem morreu de desgosto, não suportou o castigo do rio – ou da chuva – e, dias depois, teve um ataque cardíaco fulminante. As águas carregaram também as lembranças, não sobrou uma fotografia para contar história. Ou melhor, o único legado daqueles tempos ficava guardado a sete chaves dentro de um velho baú. A mulher prometera ao marido – ainda em cima do telhado, à espera da vazão – só abri-lo quando o menino fizesse 12 anos. Não entendeu bem as razões do pedido, afinal estavam os três a salvo, porém pressentiu que a vida jamais seria como antes.

A partir da morte do companheiro, ela se fechara para o mundo. Mal saía de casa, vivia mergulhada em seus afazeres como paliativo para disfarçar a saudade lancinante. Henrique conservava apenas lapsos de memória da figura paterna. Momentos cultivados com enorme carinho, como o dia em que estavam no quintal, numa tarde de domingo. Ficou impressionado com a história da Amendoeira realizadora de sonhos – o pai contava que, para ter um desejo atendido, bastava adormecer à sua sombra quando o céu ficasse alaranjado e a lua chegasse adiantada na despedida dos últimos raios solares. Ouvidos atentos e olhos arregalados, não pensava em outra coisa senão conhecer a árvore localizada do outro lado dos trilhos da ferrovia, próxima ao rio onde a cidade terminava.

De tempos em tempos, tentava sem sucesso convencer a mãe a atravessar a linha do trem. “Nem pensar, menino! Você não viu o que aconteceu com o filho da Laurinda? O monstrengo de ferro não perdoa, passa por cima! Já basta não ter o seu pai aqui por perto...”. “Mas, mãe, foi o pai quem falou sobre a Amendoeira! Ele ia lá todas as tardes quando era criança...”. “Nem mais uma palavra! Estamos conversados, você não chega perto daqueles trilhos senão vai levar uma surra de vara verde!” – Ouvia resignado à mesma reprimenda desde os cinco anos de idade.

Foi um jantar calado. Ela, com o olhar perdido em meio ao cansaço acumulado da semana. Ele, imaginando um jeito de convencer a mãe a aproveitar a tarde de sábado para, enfim, conhecer a tão sonhada Amendoeira. O fato de ser seu aniversário certamente poderia contribuir para sensibilizá-la – afinal, 12 anos, já impunha mais respeito, mais responsabilidade. Ensaiou as primeiras palavras mentalmente, mas, antes que abrisse a boca, a mulher se dirigiu ao quarto trazendo consigo o velho baú.

Não calculava haver sobrado qualquer registro. Surpreso, posicionou a chave no velho cadeado azinhavrado e a girou duas vezes para a direita. Seu rosto brilhou ao ver, num caderno de folhas amareladas, a história da Amendoeira registrada com a grafia de seu pai. Nas últimas páginas, o desenho da árvore trazia no rodapé da figura uma mensagem dirigida a Henrique: “Esta é só sua, faça seu pedido!” O menino sorriu, fechou os olhos e, sem hesitar, coloriu em seus pensamentos o sonho de sempre, de cada dia, o desejo permanente que o acompanhava não era de hoje.

Ao virar a última folha, deparou-se com uma fotografia. Em tom sépia, o rosto de seu pai fez disparar o coração, reacendendo as luzes apagadas no recanto mais terno de sua memória. Correu até a cômoda e, espalhando as roupas que ficavam pelo caminho, alcançou o pedaço de papel – este, anteriormente, riscado e apagado dezenas de vezes. Traços firmes e precisos faziam surgir, pouco a pouco, a figura tão procurada durante esses anos todos. Desta vez, seus dedos seguros agarraram o peixe escorregadio para nunca mais soltar.


Este conto é dedicado à minha querida Carol, que pautou o tema desta semana. Seu pedido era de que a história tivesse como argumento central o "sonho".

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A obra Árvore dos Sonhos de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Um Dia de Chuva



Desenho: Dudu (9)
Saiu de casa com a despensa vazia e a cabeça cheia de preocupações. O pouco do dinheiro que sobrou de sua pequena renda mensal mal foi suficiente para cobrir a primeira das duas contas de luz que acumularam nos últimos 60 dias. O pagamento do boleto, se não contribuiu para desenhar em seu rosto um sorriso aliviado que fosse, permitiu, ao menos, adiar ao mês seguinte a ameaça de ficar completamente às escuras.

Não tinha filhos, morava sozinha no subúrbio, em uma área com pouco mais de 30 metros quadrados milagrosamente distribuídos em sala, cozinha, banheiro e quarto. Era tudo muito simples, porém organizado, evidenciando o desvelo ofertado a cada objeto que adquiria com o suor do seu rosto. As telhas de amianto, entretanto, continuamente rachadas pela ação do tempo e as paredes externas emboçadas de forma precária revelavam ao mundo sua permanente dificuldade para equilibrar as finanças.

Não se podia dizer que era uma mulher bonita, tampouco seria justo classificá-la como alguém desinteressante. Todavia, chamava a atenção de maneira inconteste quando se produzia para ir à luta. Naquele início de noite, arriscaria dizer que estava especialmente atraente. Um vestido preto colado ao corpo respeitava com extrema fidelidade sua silhueta, ressaltando com o mesmo rigor tanto suas virtudes físicas quanto suas pequenas imperfeições que, por sinal, acabavam passando despercebidas num contexto mais amplo.

Fazia ponto na zona portuária da cidade. Lá pelas oito, o movimento de pedestres já havia diminuído consideravelmente. Os carros passavam céleres pelo asfalto molhado – só deus sabe o quanto não rende o trabalho por mais fina que seja a chuva, um verdadeiro balde de água fria na alma e, sobretudo, no bolso de quem precisa vender o corpo inexoravelmente. Azar o dela! Não tinha escolha a não ser ficar ali na incerteza de um programa que parecia ir pelo ralo abaixo com o aumento progressivo dos pingos. Pela assiduidade e voracidade com que caíam, foram – já não era em tempo – promovidos à categoria de temporal.

Não conservava mais o esplendor de horas atrás e a concorrência enfileirada ao longo da via – todas com o mesmo objetivo e esperando um milagre dos céus, neste caso, uma providencial estiagem – a faziam perder o ânimo: as mais cotadas da área permaneciam na vitrine, muito embora, numa situação como esta, o comprador é quem fica por trás da vidraça, enquanto os objetos de desejo se mostram ao relento. Pensou em retornar reconhecendo a derrota na batalha, porém não poderia se dar ao luxo de entregar-se ao inimigo, teria de lutar até as últimas consequências. A bem da verdade, não lhe restava qualquer escolha, recuar seria voltar a um cenário não menos inóspito.

A fome era uma realidade que lhe assombrava. Como retornar da caça sem a presa? Não tinha a quem recorrer numa situação como aquela que se esboçava. Os pais deixaram cedo este mundo, ela ainda não havia trocado os dentes da boca. O irmão mais velho partiu para os Estados Unidos e nunca mais deu notícias, talvez nem estivesse mais entre nós, tamanho talento adquirido para se meter em confusões. Sozinho e num país desconhecido, não seria surpresa se tivesse tomado um tiro no meio da testa tentando ganhar a vida em parceria com os marginais da área. A tia – irmã do pai – que a acolhera ainda adolescente, depois de se casar pela segunda vez, acabou por enxotá-la do lar. Àquela altura, seu corpo de mulher em frescor de menina se tornara uma ameaça a quem tivesse homem dentro de casa.

– Quanto é o programa?

Uma voz roufenha rompeu a sonoridade regular e métrica da chuva e a despertou de um ligeiro torpor. Era um tipo espandongado, desleixado no vestir e no trato pessoal, péssima aparência. Ao mesmo tempo em que constatou a decrepitude do cenário formado à sua frente, admitiu-se não estar em condições de selecionar clientes. Pagando, todo o trabalho torna-se digno, pelo menos, acreditava nesta máxima que a redimia da dúvida de estar levando, na prática, uma vida abjeta, submetendo-se, em muitas ocasiões, a sevícias e a manias doentias de seus parceiros eventuais.

Teve de cobrar menos pelo programa que de costume. São as leis de mercado, mera questão de oferta e procura. Valendo-se de sua condição favorável, o sujeito aproveitou o poder de barganha para garfar pela metade os serviços de que iria dispor pela próxima hora.

– Oitenta? nem fodendo! – esbravejou o tipo.
– É o preço, meu amigo. E só fodendo mesmo. Lá atrás e beijinho nem pensar...
– Só tenho quarenta e com direito a “basquetinho”, falou?
– Sessenta e fica o boquete.
– Quarenta e está acabado. É pegar ou largar.

Se os argumentos não soavam justos, eram, no mínimo, suficientes para entender que a noite, ou melhor, o dia seguinte dependia de um esforço extra. O hotel de quinta aonde seguiram após o acerto conservava um cheiro de mofo, do qual suas narinas já não mais reclamavam, estavam viciadas pelo odor que tresandava das paredes e dos lençóis mal lavados. Pensava apenas em liquidar a fatura o mais rápido possível. Começou pela pior parte: abriu, sem maiores delongas, o zíper da calça de seu algoz, desalojando a lança que iria feri-la na alma, no orgulho. Controlou-se para não vomitar tamanha imundice com que se deparou e para onde deveria endereçar sua língua e boca num movimento frenético, podendo este durar um, dois, três, cinco, dez eternos minutos.

Entregou-se, finalmente, ao serviço. Olhos fechados, pensamento fixo, focado estritamente num mantra desenvolvido a pretexto de não sucumbir à tarefa. Parecia entrar em estado de transe, repetindo mentalmente centenas de vezes a mesma frase que, se não lhe amenizava o trabalho, prestava-se a contento para salvar a sua honra: “casa, comida, vida – casa, comida, vida – casa, comida, vida...”. Certamente, mais que honra. Questão de sobrevivência.

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quarta-feira, 13 de abril de 2011

1982



Desenho: Beta - Ideia: Dudu 
Senti o coração disparar quando o papai chegou carregando aquela pequena caixa azul. Assim como eu, todos os meus amigos estavam eufóricos para completar o álbum. Aliás, cabe aqui uma oportuna ressalva no intuito de atribuir o devido valor às coisas: não era apenas um álbum, tratava-se de um livro sagrado, uma preciosidade, o maior tesouro que um menino poderia almejar naquele ano de 1982.

O cheiro de tutti frutti invadia o apartamento e despertava o desejo de finalmente conseguir a última figurinha, o derradeiro rosto para dar contornos definitivos à minha estimada relíquia. Justo ele, que acabara por não ir à Copa da Espanha. Lembro-me de ouvir uma calorosa discussão do grupo do Buraco Quente – como chamavam uma pequena confraria de amigos que se reunia para tomar umas e outras numa apertada galeria defronte ao prédio onde morava. Reinaldo! Este era o nome mais falado na roda. “Que bichado nada, foi cortado porque o Telê não se dá com ele...”, concluía um dos mais assomados.

O álbum ficaria assim...
Embora supostamente preterido pelo técnico da Seleção, o craque do Galo era o mais cobiçado de nossa turma. Foi com a sanha de quem vasculha um bilhete premiado envolto a miríades de papéis que desembrulhei dezenas de tabletes de Ping Pong, espargindo de vez um doce e permanente aroma de chiclete pelo ambiente. E, se ao final daquela deliciosa busca, não fui tomado de abatimento e frustração por ter apenas aumentado o meu bolo de repetidas, era porque aquela tarde de abril reservava algo ainda mais grandioso pela frente.

Logo após o almoço, já me encontrava devidamente vestido a caráter para o dia de gala. Papai, ainda à mesa, me advertia de vez quando, procurando fazer com que contivesse minha excitação. Não parava de falar um minuto sequer. “Onde fica o botão que desliga esse menino!”, brincava com ternura a mamãe, passando da sala à cozinha com uma pilha de pratos. Ele permanecia sentado, tomando calmamente seu licor a despeito de estarmos a poucas horas do majestoso espetáculo, do instante inesquecível, do primeiro olhar, da imagem que ficaria gravada no cantinho mais terno de minha memória.

Chegamos com meia-hora de antecedência. Após a divertida subida por uma rampa gigantesca, atingimos, por fim, o acesso. Aquele corredor escuro revelava pouco a pouco o esplendor de um dia radiante de sol à medida que nos aproximávamos de sua extremidade. Passos lentos e curtos em meio a empurrões apressados, a multidão acotovela-se no estreito curral. Papai segurou firme a minha mão. Naquele momento, já podia enxergar por entre pequenos vãos irregulares as primeiras nesgas do céu azulado. De súbito, um clarão ofuscou-me a visão indicando a chegada ao destino. Ao descerrar os olhos, permaneci extasiado observando um imenso mar vermelho e preto que se apresentava à minha frente, cobrindo praticamente todo o anel do estádio e desaguando num imenso tapete verde, um verde tão belo, tão belo... De se encher os olhos d’água.

Dezoito de abril de 1982. A bola rolou às cinco horas da tarde. A torcida do Flamengo comandava um espetáculo à parte. Não sabia aonde dirigir minha atenção. Papai, com seu radinho de pilha ao pé ouvido, não desgrudava os olhos do campo e xingava como nunca o havia visto fazer antes. “Aqui pode, filhão! Não tem problema, mas é só aqui, combinado?!”, justificou-se muito provavelmente ao perceber em meu rosto tamanha expressão de surpresa pelo seu comportamento incomum – algo inédito, pelo menos, pra mim. Devo acrescentar que me refestelei com aquela inesperada permissão, aproveitando para desfilar toda a sorte de palavrões do meu farto e, até então proibido, repertório.

Tudo parecia muito lúdico na minha primeira incursão ao Maracanã. Até mesmo os ambulantes em disparada de um lado a outro, com seus isopores no ombro, colhendo da imensa multidão os mais duros xingamentos ao obstruir por alguns instantes o campo de visão de quem quer que fosse. Eu próprio contribuí um tanto para despertar a ira de alguns torcedores à nossa volta: devo ter me lambuzado com uma meia-dúzia de picolés, fora a iniciação ao cachorro-quente Genial – amor à primeira mordida – acompanhado do Matte Leão espumante, lançado de uma pistola simplesmente irresistível ao imaginário infantil.

Desenho: Guigo (5)
O cenário era mágico... E ainda tinha o jogo – nada mais nada menos que a partida de abertura das finais do Campeonato Brasileiro. “Fica tranquilo, filho, não demora o Mengo tira o zero do placar.” Quase duvidei dos superpoderes do papai quando o Grêmio calou o estádio aos 38 do segundo tempo. Não fosse o Galinho para salvar a lavoura no último minuto, o estrago teria sido fatal – em vez de uma doce recordação, restaria o trauma, e, possivelmente, o famigerado estigma de pé-frio a me assombrar pelo resto dos meus dias. Se o empate em um a um não me legou uma empolgante estreia, obteve contornos de profundo alívio.

Pensando bem, o velho também tirou um peso enorme das costas. Qualquer pai detestaria carregar nos ombros este terrível fardo de ver o filho transitar da euforia efêmera à frustração plena – correndo o risco até de nunca mais querer ouvir falar em bola. Isso seria a glória para o Coronel Coutinho, nosso vizinho de porta que fazia pouco da situação: “Sair de casa pra ver um bando de marmanjo suado correndo atrás duma esfera de couro inexpressiva e ainda pagar por isso...”. Papai fingia não se importar, a despeito de deixar transparecer certo incômodo quando o homem se dirigia diretamente a mim nesses termos. Eu até achava divertido, embora não compreendesse se a indiferença de Coutinho era sincera ou, de fato, mera provocação. Cresci sem saber ao certo. 

Na saída do estádio, tive a imediata sensação de que não demoraria muito, estaria novamente ali, presenciando glórias e derrotas (estas, menos se deus quisesse), mas convicto de ter começado com o pé direito – sim, sem dúvida: imagino que todos conheçam a continuação desta história. O Fla teve mais duas batalhas contra os tricolores gaúchos em pleno estádio Olímpico, tornando-se bicampeão brasileiro em território inimigo com o tiro heróico de um soldado – com lampejos de herói – que atendia pela alcunha de Nunes.

O ano de 82 só não foi perfeito a propósito de um duro golpe, minha primeira grande decepção na vida. A Seleção mais perfeita que vi jogar deixava escapar o título mais óbvio de todos os tempos. Uma lástima indelével na história do Futebol – aliás, pior para o Futebol que a geração de Zico, Sócrates, Júnior e Falcão tenha fracassado. Duro recordar as derrotas, ainda mais quando existe a certeza do triunfo. Uma lição que cada brasileiro carrega dentro de si desde o Maracazo em 50. 

O que talvez ninguém saiba até hoje é que não consegui a figurinha do danado do Reinaldo. Porém, como deus escreve certo por linhas tortas – e não é diferente no meu álbum de figurinhas –, seu espaço foi devidamente preenchido. Foi com um sorriso de contentamento no rosto que, 12 anos mais tarde, completei o meu livro sagrado, colando no retângulo vazio aquele que o destino escalou fora de época. Com o Romário no ataque, desenhei no papel, a Seleção que o mundo não conheceu, mas que certamente iria mudar o rumo dos acontecimentos.

Referências:
Comercial Álbum Ping Ponghttp://www.youtube.com/watch?v=THyQMXhVK08
Finais do Brasileiro de 1982http://www.youtube.com/watch?v=QyiuCh2PzP0

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quarta-feira, 6 de abril de 2011

O Sapateiro



Ilustração: Dudu (9)
Chegou mais cedo que de costume. Tirou o feixe de chaves do bolso, tentando separar aquela que abriria a loja. As ruas tomadas de poças ainda traziam vestígio do aguaceiro que castigou o Rio de Janeiro nesta última semana. Seus sapatos estavam encharcados. A barra da calça dobrada até o meio da canela deixava aparente o inchaço do peso dos anos – 90 para ser preciso –, fruto de um problema circulatório que já era crônico. Nos dias úmidos, a coisa ficava ainda pior. É daquelas pessoas que conseguem prever as mudanças de temperatura com habitual precisão. Segundo já relatou, o processo tem início com um formigamento que vem subindo da sola do pé até atingir a coluna. As pernas começam a intumescer sensivelmente até que as dores chegam junto com as águas. É batata.

Finalmente, reconheceu a chave dentre aquelas que passavam atabalhoadamente por seus dedos, a menor em meio ao conjunto preso a uma fita comprida localizada no interior do bolso direito da calça. A bem da verdade, a maioria servia apenas para fazer volume ao chaveiro – há muito, desconhecia que portas, pelo menos, meia dúzia delas abririam. Longe de este comportamento ser tomado como uma atitude particular, afinal, assim como ele, temos certa resistência em jogar fora o que quer que seja, até mesmo o dispensável. Importante ressaltar, portanto, que tal teimosia em acumular quinquilharias nada teria a ver com fatores de senilidade, mas com uma característica intrínseca de qualquer pessoa, independentemente, da idade. A cabeça, apesar da longevidade, continuava saudável.

Após pelejar por alguns minutos, conseguiu destravar a portinhola de ferro e entrou sem abrir o estabelecimento ao público. O lugar, composto por dois minúsculos ambientes, conservava o cheiro bafiento do couro, misturado com cola de sapateiro e outros odores que causavam ligeiro desconforto àqueles menos vezeiros que o velho empregado da sapataria. Extensas prateleiras de madeira, abarrotadas de sapatos e outros materiais, ladeavam as paredes da primeira sala, que abrigava também um carcomido, mas ainda imponente balcão de mármore, no qual trabalhavam uma quarentona enxuta que despertava a libido e alimentava a fantasia de alguns costumeiros fregueses, além de um caixa sexagenário metido a galã e meio janota no vestir. A lida diária do velho sapateiro acontecia nos fundos, onde recuperava os mais variados modelos, femininos ou masculinos. O patrão vinha sempre ao fim do dia para recolher a féria.

Sentou-se numa cadeira próxima à sua mesa de trabalho. Ainda arfante, secou o suor que brotava mais intensamente na testa com seu inseparável lenço de linho, presente da falecida esposa. Após recobrar o fôlego, retirou do bolso dois pedaços de papel amarrotados e, posicionando-os lado a lado, passou a dirigir-lhes um intenso olhar. Ele estava estranho aquele dia, uma inquietação, um prurido não condizente às suas nove décadas de existência, as quais viveu com invejáveis parcimônia e serenidade apesar dos infortúnios – estes maiores, ou melhor, mais incidentes geralmente na trajetória dos mais longevos.

Já não percebia o que estava escrito. Olhava mas não lia. Encontrava-se distante, os pensamentos começavam a percorrer seus primeiros anos. Lembrou-se de sua mãe, mal a conheceu. Saúde frágil, sete filhos – ele era o caçula –, submissa ao marido como a maioria das mulheres de seu tempo. Morreu cedo, de tuberculose, o menino ainda mamava no peito. O pai até que sofreu com a perda da esposa, mas homem consegue cicatrizar as feridas com mais rapidez, pelo menos, aparenta tanto. Logo, trouxe outra para dentro de casa.

Subitamente, como estremunhando de um breve estupor, voltou ao presente e, mais uma vez, leu com atenção o que havia anotado em um dos recortes antes de pousá-los sobre a mesa. Parecia não acreditar no que via...

Perdeu-se novamente no passado. O pai marcara muito sua existência. Rigoroso em seus princípios, desde muito cedo, tentou impingir aos filhos uma educação severa, sendo implacável na atribuição de castigo aos desobedientes. Entretanto, levava uma vida não tão exemplar. Acabou se entregando às bebidas e ao jogo, perdendo quase todos os bens de que a família dispunha. Pensou em seus irmãos, ele era o único vivo. Recordou-se do primeiro beijo; dos bailes que frequentava nas matinês de sábado; do campinho de futebol na rua vizinha; da dona Cecília, que ficava de tocaia no quintal para proteger o pé de goiaba da razia promovida pela molecada. Eram tantas as lembranças...

Sentou-se. Pegou mais uma vez os recortes, cotejando cada número inscrito. Não havia dúvida, as seis dezenas se correspondiam, e o valor do prêmio era aquele mesmo que vira na casa lotérica minutos antes de chegar à sapataria: cerca de vinte milhões. Seus dedos fremiam, não parava de transpirar um minuto sequer, o lenço de linho embebido em suor já pesava no bolso e, àquela altura, não servia mais a seu propósito.

Pensou em sua mulher, nos momentos felizes que passaram juntos, também nas dificuldades, como naquele período em que estava desempregado: precisaram morar de favor na casa da tia solteirona de sua esposa. A emoção que sentiu no nascimento do Pedrinho e depois o parto complicado da Aninha, que tinha o cordão umbilical comprimindo o pescoço e ficava cada vez mais roxa. A dor da perda, o mundo caindo em suas costas com a morte da mulher de sua vida. O câncer chegara implacável, devastador, célere, apenas três meses da convalescência ao último suspiro. Pedrinho e Aninha cresceram, se casaram e nunca mais teve notícias. Não sabia se tinha netos, não entendia a distância que se criara entre ele e os filhos. Não fora um mau pai, não pôde dar muito à família, é verdade, mas concedia tudo o que estava ao seu alcance, principalmente amor e carinho. Luxo e fartura se encontravam muito distantes da realidade de um modesto empregado de sapataria.

Sentiu uma saudade lancinante, aliás, o fato de ter uma vida solitária o deprimia profundamente. Morava num quarto de sobrado na Rua do Riachuelo. Quando não estava na sapataria, passava a maior parte do tempo olhando as paredes descascadas e imaginando como seriam os dias futuros, a idade chegando ao limite...

Passou os dedos pelos fios de cabelo que restavam em sua cabeça, deslizando, em seguida, as palmas da mão por toda a superfície do rosto, percorrendo cada vinco talhado pelo tempo até alcançar o bilhete premiado sobre a mesa. Guardou-o no bolso, depois de desfazer-se do rascunho que anotara para conferir mil vezes aqueles malditos números da sorte. Talvez sejam malditos mesmo para quem tem mais passado que futuro como ele. Planos, não os tinha, ao menos, por ora. Não conseguia fazer outra coisa senão relembrar, relembrar e relembrar. Sua cabeça era inundada por recordações. Se tivesse vinte, trinta anos, ainda veria a estrada da vida por desbravar as montanhas até se perder no horizonte; assim é a lei natural. Com noventa, o peso dos anos pretéritos parece esmagar o breve porvir. E ele se sentia abafado, sufocado, asfixiado pela sua história.

Resolveu sair, tomar um ar fresco o faria se sentir melhor. O sol ainda aparecia tímido naquelas primeiras horas da manhã.

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