quarta-feira, 13 de abril de 2011

1982



Desenho: Beta - Ideia: Dudu 
Senti o coração disparar quando o papai chegou carregando aquela pequena caixa azul. Assim como eu, todos os meus amigos estavam eufóricos para completar o álbum. Aliás, cabe aqui uma oportuna ressalva no intuito de atribuir o devido valor às coisas: não era apenas um álbum, tratava-se de um livro sagrado, uma preciosidade, o maior tesouro que um menino poderia almejar naquele ano de 1982.

O cheiro de tutti frutti invadia o apartamento e despertava o desejo de finalmente conseguir a última figurinha, o derradeiro rosto para dar contornos definitivos à minha estimada relíquia. Justo ele, que acabara por não ir à Copa da Espanha. Lembro-me de ouvir uma calorosa discussão do grupo do Buraco Quente – como chamavam uma pequena confraria de amigos que se reunia para tomar umas e outras numa apertada galeria defronte ao prédio onde morava. Reinaldo! Este era o nome mais falado na roda. “Que bichado nada, foi cortado porque o Telê não se dá com ele...”, concluía um dos mais assomados.

O álbum ficaria assim...
Embora supostamente preterido pelo técnico da Seleção, o craque do Galo era o mais cobiçado de nossa turma. Foi com a sanha de quem vasculha um bilhete premiado envolto a miríades de papéis que desembrulhei dezenas de tabletes de Ping Pong, espargindo de vez um doce e permanente aroma de chiclete pelo ambiente. E, se ao final daquela deliciosa busca, não fui tomado de abatimento e frustração por ter apenas aumentado o meu bolo de repetidas, era porque aquela tarde de abril reservava algo ainda mais grandioso pela frente.

Logo após o almoço, já me encontrava devidamente vestido a caráter para o dia de gala. Papai, ainda à mesa, me advertia de vez quando, procurando fazer com que contivesse minha excitação. Não parava de falar um minuto sequer. “Onde fica o botão que desliga esse menino!”, brincava com ternura a mamãe, passando da sala à cozinha com uma pilha de pratos. Ele permanecia sentado, tomando calmamente seu licor a despeito de estarmos a poucas horas do majestoso espetáculo, do instante inesquecível, do primeiro olhar, da imagem que ficaria gravada no cantinho mais terno de minha memória.

Chegamos com meia-hora de antecedência. Após a divertida subida por uma rampa gigantesca, atingimos, por fim, o acesso. Aquele corredor escuro revelava pouco a pouco o esplendor de um dia radiante de sol à medida que nos aproximávamos de sua extremidade. Passos lentos e curtos em meio a empurrões apressados, a multidão acotovela-se no estreito curral. Papai segurou firme a minha mão. Naquele momento, já podia enxergar por entre pequenos vãos irregulares as primeiras nesgas do céu azulado. De súbito, um clarão ofuscou-me a visão indicando a chegada ao destino. Ao descerrar os olhos, permaneci extasiado observando um imenso mar vermelho e preto que se apresentava à minha frente, cobrindo praticamente todo o anel do estádio e desaguando num imenso tapete verde, um verde tão belo, tão belo... De se encher os olhos d’água.

Dezoito de abril de 1982. A bola rolou às cinco horas da tarde. A torcida do Flamengo comandava um espetáculo à parte. Não sabia aonde dirigir minha atenção. Papai, com seu radinho de pilha ao pé ouvido, não desgrudava os olhos do campo e xingava como nunca o havia visto fazer antes. “Aqui pode, filhão! Não tem problema, mas é só aqui, combinado?!”, justificou-se muito provavelmente ao perceber em meu rosto tamanha expressão de surpresa pelo seu comportamento incomum – algo inédito, pelo menos, pra mim. Devo acrescentar que me refestelei com aquela inesperada permissão, aproveitando para desfilar toda a sorte de palavrões do meu farto e, até então proibido, repertório.

Tudo parecia muito lúdico na minha primeira incursão ao Maracanã. Até mesmo os ambulantes em disparada de um lado a outro, com seus isopores no ombro, colhendo da imensa multidão os mais duros xingamentos ao obstruir por alguns instantes o campo de visão de quem quer que fosse. Eu próprio contribuí um tanto para despertar a ira de alguns torcedores à nossa volta: devo ter me lambuzado com uma meia-dúzia de picolés, fora a iniciação ao cachorro-quente Genial – amor à primeira mordida – acompanhado do Matte Leão espumante, lançado de uma pistola simplesmente irresistível ao imaginário infantil.

Desenho: Guigo (5)
O cenário era mágico... E ainda tinha o jogo – nada mais nada menos que a partida de abertura das finais do Campeonato Brasileiro. “Fica tranquilo, filho, não demora o Mengo tira o zero do placar.” Quase duvidei dos superpoderes do papai quando o Grêmio calou o estádio aos 38 do segundo tempo. Não fosse o Galinho para salvar a lavoura no último minuto, o estrago teria sido fatal – em vez de uma doce recordação, restaria o trauma, e, possivelmente, o famigerado estigma de pé-frio a me assombrar pelo resto dos meus dias. Se o empate em um a um não me legou uma empolgante estreia, obteve contornos de profundo alívio.

Pensando bem, o velho também tirou um peso enorme das costas. Qualquer pai detestaria carregar nos ombros este terrível fardo de ver o filho transitar da euforia efêmera à frustração plena – correndo o risco até de nunca mais querer ouvir falar em bola. Isso seria a glória para o Coronel Coutinho, nosso vizinho de porta que fazia pouco da situação: “Sair de casa pra ver um bando de marmanjo suado correndo atrás duma esfera de couro inexpressiva e ainda pagar por isso...”. Papai fingia não se importar, a despeito de deixar transparecer certo incômodo quando o homem se dirigia diretamente a mim nesses termos. Eu até achava divertido, embora não compreendesse se a indiferença de Coutinho era sincera ou, de fato, mera provocação. Cresci sem saber ao certo. 

Na saída do estádio, tive a imediata sensação de que não demoraria muito, estaria novamente ali, presenciando glórias e derrotas (estas, menos se deus quisesse), mas convicto de ter começado com o pé direito – sim, sem dúvida: imagino que todos conheçam a continuação desta história. O Fla teve mais duas batalhas contra os tricolores gaúchos em pleno estádio Olímpico, tornando-se bicampeão brasileiro em território inimigo com o tiro heróico de um soldado – com lampejos de herói – que atendia pela alcunha de Nunes.

O ano de 82 só não foi perfeito a propósito de um duro golpe, minha primeira grande decepção na vida. A Seleção mais perfeita que vi jogar deixava escapar o título mais óbvio de todos os tempos. Uma lástima indelével na história do Futebol – aliás, pior para o Futebol que a geração de Zico, Sócrates, Júnior e Falcão tenha fracassado. Duro recordar as derrotas, ainda mais quando existe a certeza do triunfo. Uma lição que cada brasileiro carrega dentro de si desde o Maracazo em 50. 

O que talvez ninguém saiba até hoje é que não consegui a figurinha do danado do Reinaldo. Porém, como deus escreve certo por linhas tortas – e não é diferente no meu álbum de figurinhas –, seu espaço foi devidamente preenchido. Foi com um sorriso de contentamento no rosto que, 12 anos mais tarde, completei o meu livro sagrado, colando no retângulo vazio aquele que o destino escalou fora de época. Com o Romário no ataque, desenhei no papel, a Seleção que o mundo não conheceu, mas que certamente iria mudar o rumo dos acontecimentos.

Referências:
Comercial Álbum Ping Ponghttp://www.youtube.com/watch?v=THyQMXhVK08
Finais do Brasileiro de 1982http://www.youtube.com/watch?v=QyiuCh2PzP0

Licença Creative Commons
A obra 1982 de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em tipoescrito.blogspot.com.
Podem estar disponíveis permissões adicionais ao âmbito desta licença em htttp://www.tipoescrito.com.br.

5 comentários:

  1. Amei! O meu álbum era o do "Amar é"...me lembro da empolgação que eu ficava quando meus pais chegavam com figurinhas novas...era muito bom! Me identifiquei muito, mas, como não gosto de futebol...hehehe...minha primeira emoção dessa foi no...ahn...é...ahn............

    no show do Menudo. Pronto. FALEI!

    ResponderExcluir
  2. Maravilhoso, Alexandre!O conto passa toda a expectativa e o nervosismo do jogo e o final é surpreendente !!

    ResponderExcluir
  3. Roberta Guimarães21 de abril de 2011 01:27

    Este conto faz um 'revival' da rica infância dos anos 80 ... Ao ler este conto, muita coisa saiu do fundo baú da minha memória.

    Ah! E este Coronel Coutinho? Por que vc não me responde se qualquer semelhança é mera coincidência? :D

    ResponderExcluir
  4. Márcio Guimarães3 de maio de 2011 17:07

    Característica eclética do nosso escritor, muito genial, conseguir colocar interesse e emoção num assunto desfocado e embrutecido, como o futebol.Criou um enredo coloquial como o vivido, por muitos de nós.Lembro-me da caça às figurinhas carimbadas, no bafo bafo e nas trocas valorizadas.MAS O QUE ME DEIXOU MAIS EUFÓRICO FOI O APARECIMENTO DE UM NOVO E PROMISSOR ILUSTRADOR, QUEM É ESTE TAL DE TAL DE GUIGO??PROMETE!!HEIM!!fALTOU DIZER QUE O ESCRITOR TEM UM SOGRO GENIAL, QUE TENHO O PRAZER DE CONHECER!!

    ResponderExcluir