quarta-feira, 27 de abril de 2011

Árvore dos Sonhos



Desenho: Dudu (9)
O costumeiro rangido da porta de entrada anunciava com pontual precisão a sua chegada. De barriga junto à borda do fogão, a mãe terminava de esquentar a comida, torcendo para que a lenha desse conta de garantir ao menos o jantar. Profundamente compenetrada em seus afazeres domésticos, não percebeu o menino passar como um foguete em direção ao quarto.

Não havia tempo a perder: “As ideias escapam, são como peixes escorregadios na beira do rio!” – ouviu essa máxima de passagem, da boca de um poeta anônimo de bar e adotou-a como importante mandamento. Tirou da sacola seu inseparável estojo, fiel companheiro de trabalho. A folha de papel adormecia por baixo de umas quatro camisas na estreita cômoda de três gavetas. Lápis na mão, ensaiou, pela enésima vez no mesmo espaço, os primeiros traços daquele começo de noite.

A ponta do grafite já não conservava mais a eloquência de minutos atrás quando, na Pracinha do Céu, desenhou o rosto de uma bela moça – olhos amendoados, castanhos, no mesmo tom de seus cabelos longos; nariz expressivo e lábios abundantes. Estava de passagem pela cidade e resolveu levar o próprio retrato como recordação. Henrique tinha dedos de artista, captava as expressões de quem quer que seja e as transpunha para o papel com rara precisão. Ajudava como podia a complementar a renda doméstica e aliviar o peso dos quilos de roupas à beira do tanque de cimento, onde sua mãe passava a maior parte do dia. A rotina era mais ou menos esta: ela acordava às cinco para dar conta do trabalho e o menino saía por volta das sete com seu material devidamente ajeitado, direto para a praça, à espera dos grupos de turistas.

Embora escondida no mapa em algum ponto no interior de Minas, a cidade atraía gente de todo canto. Talvez por preservar a mansidão perdida do dia a dia, ela fosse tão procurada. A Pracinha do Céu – como ficou conhecida – era a única do lugarejo. Meia-dúzia de bancos, alguns canteiros floridos e um coreto na parte central, teve seu nome rebatizado pela sabedoria popular. O endereço original, Praça Castiniano Epaminondas Ubaldino, de gracioso, continha apenas as inicias que foram oportunamente destacadas e acabaram por consolidar de vez sua referência. Justamente ali, naquele pedacinho de mundo, o pequeno artista impressionava todos com sua habilidade precoce.

Após riscar o papel e apagar dezenas de vezes, uma conhecida expressão de frustração dominou seu rosto. Já havia tentado traçar aquelas linhas anteriormente, mas, como sempre acontecia, via o peixe escapar pelos seus dedos sem que nada pudesse fazer. Desistiu. Posicionou de volta a folha na gaveta da cômoda da forma como quando a pegara: por baixo das roupas e com extremo cuidado, aguardando ansiosamente uma nova inspiração. Lembrou-se de avisar a mãe sobre sua chegada; àquela altura, a jovem senhora de aparência castigada pela rudeza do trabalho e pela viuvez repentina já se dirigia ao portão em busca de notícias.

Moravam os dois, sozinhos na casa, desde a enchente. Foi algo devastador. Não só levou tudo de material como também a vontade de viver do pai de Henrique. Dizem que o homem morreu de desgosto, não suportou o castigo do rio – ou da chuva – e, dias depois, teve um ataque cardíaco fulminante. As águas carregaram também as lembranças, não sobrou uma fotografia para contar história. Ou melhor, o único legado daqueles tempos ficava guardado a sete chaves dentro de um velho baú. A mulher prometera ao marido – ainda em cima do telhado, à espera da vazão – só abri-lo quando o menino fizesse 12 anos. Não entendeu bem as razões do pedido, afinal estavam os três a salvo, porém pressentiu que a vida jamais seria como antes.

A partir da morte do companheiro, ela se fechara para o mundo. Mal saía de casa, vivia mergulhada em seus afazeres como paliativo para disfarçar a saudade lancinante. Henrique conservava apenas lapsos de memória da figura paterna. Momentos cultivados com enorme carinho, como o dia em que estavam no quintal, numa tarde de domingo. Ficou impressionado com a história da Amendoeira realizadora de sonhos – o pai contava que, para ter um desejo atendido, bastava adormecer à sua sombra quando o céu ficasse alaranjado e a lua chegasse adiantada na despedida dos últimos raios solares. Ouvidos atentos e olhos arregalados, não pensava em outra coisa senão conhecer a árvore localizada do outro lado dos trilhos da ferrovia, próxima ao rio onde a cidade terminava.

De tempos em tempos, tentava sem sucesso convencer a mãe a atravessar a linha do trem. “Nem pensar, menino! Você não viu o que aconteceu com o filho da Laurinda? O monstrengo de ferro não perdoa, passa por cima! Já basta não ter o seu pai aqui por perto...”. “Mas, mãe, foi o pai quem falou sobre a Amendoeira! Ele ia lá todas as tardes quando era criança...”. “Nem mais uma palavra! Estamos conversados, você não chega perto daqueles trilhos senão vai levar uma surra de vara verde!” – Ouvia resignado à mesma reprimenda desde os cinco anos de idade.

Foi um jantar calado. Ela, com o olhar perdido em meio ao cansaço acumulado da semana. Ele, imaginando um jeito de convencer a mãe a aproveitar a tarde de sábado para, enfim, conhecer a tão sonhada Amendoeira. O fato de ser seu aniversário certamente poderia contribuir para sensibilizá-la – afinal, 12 anos, já impunha mais respeito, mais responsabilidade. Ensaiou as primeiras palavras mentalmente, mas, antes que abrisse a boca, a mulher se dirigiu ao quarto trazendo consigo o velho baú.

Não calculava haver sobrado qualquer registro. Surpreso, posicionou a chave no velho cadeado azinhavrado e a girou duas vezes para a direita. Seu rosto brilhou ao ver, num caderno de folhas amareladas, a história da Amendoeira registrada com a grafia de seu pai. Nas últimas páginas, o desenho da árvore trazia no rodapé da figura uma mensagem dirigida a Henrique: “Esta é só sua, faça seu pedido!” O menino sorriu, fechou os olhos e, sem hesitar, coloriu em seus pensamentos o sonho de sempre, de cada dia, o desejo permanente que o acompanhava não era de hoje.

Ao virar a última folha, deparou-se com uma fotografia. Em tom sépia, o rosto de seu pai fez disparar o coração, reacendendo as luzes apagadas no recanto mais terno de sua memória. Correu até a cômoda e, espalhando as roupas que ficavam pelo caminho, alcançou o pedaço de papel – este, anteriormente, riscado e apagado dezenas de vezes. Traços firmes e precisos faziam surgir, pouco a pouco, a figura tão procurada durante esses anos todos. Desta vez, seus dedos seguros agarraram o peixe escorregadio para nunca mais soltar.


Este conto é dedicado à minha querida Carol, que pautou o tema desta semana. Seu pedido era de que a história tivesse como argumento central o "sonho".

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A obra Árvore dos Sonhos de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em tipoescrito.blogspot.com.
Podem estar disponíveis permissões adicionais ao âmbito desta licença em http://tipoescrito.com.br.

3 comentários:

  1. Muito lindo, Alexandre.Prosa-poética; bela construção de personagens.Final mágico e supreendente.Parabéns !

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  2. Roberta Guimarães28 de abril de 2011 16:01

    Xande,

    ADOREI!!! Como todos? Não!!!

    Além do "Final Mágico", como bem observado pelo Luiz Carlos, este texto tem umas sutilezas fantásticas e encantadoras: um menino de 12 anos que viveu uma enchente, viu o pai morrer de desgosto e precisa ajudar a mãe com as despesas...volta a ter inspiração para seu dom, desenhar rostos, realizando um "SONHO" (=conhecer a Amendoeira q seu pai sempre contou e lembrar do rosto dele).

    A importância do rosto do Pai para um menino é indescritível e vc conseguiu passar neste conto!

    Grande beijo e que vc nunca perca sua inspiração para escrever!

    Bobbie

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  3. Márcio Guimarães3 de maio de 2011 16:40

    Meu amiguinho!!
    Lindo seu conto eivado de imaginação.
    Cada dia uma nova prospecção mental.
    Gosto muito das frases curtas e com conceitos bem expressos e claros.
    Só que sempre fica a sensação de quero mais!!
    Bjs no coração
    Márcio

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