quarta-feira, 6 de abril de 2011

O Sapateiro



Ilustração: Dudu (9)
Chegou mais cedo que de costume. Tirou o feixe de chaves do bolso, tentando separar aquela que abriria a loja. As ruas tomadas de poças ainda traziam vestígio do aguaceiro que castigou o Rio de Janeiro nesta última semana. Seus sapatos estavam encharcados. A barra da calça dobrada até o meio da canela deixava aparente o inchaço do peso dos anos – 90 para ser preciso –, fruto de um problema circulatório que já era crônico. Nos dias úmidos, a coisa ficava ainda pior. É daquelas pessoas que conseguem prever as mudanças de temperatura com habitual precisão. Segundo já relatou, o processo tem início com um formigamento que vem subindo da sola do pé até atingir a coluna. As pernas começam a intumescer sensivelmente até que as dores chegam junto com as águas. É batata.

Finalmente, reconheceu a chave dentre aquelas que passavam atabalhoadamente por seus dedos, a menor em meio ao conjunto preso a uma fita comprida localizada no interior do bolso direito da calça. A bem da verdade, a maioria servia apenas para fazer volume ao chaveiro – há muito, desconhecia que portas, pelo menos, meia dúzia delas abririam. Longe de este comportamento ser tomado como uma atitude particular, afinal, assim como ele, temos certa resistência em jogar fora o que quer que seja, até mesmo o dispensável. Importante ressaltar, portanto, que tal teimosia em acumular quinquilharias nada teria a ver com fatores de senilidade, mas com uma característica intrínseca de qualquer pessoa, independentemente, da idade. A cabeça, apesar da longevidade, continuava saudável.

Após pelejar por alguns minutos, conseguiu destravar a portinhola de ferro e entrou sem abrir o estabelecimento ao público. O lugar, composto por dois minúsculos ambientes, conservava o cheiro bafiento do couro, misturado com cola de sapateiro e outros odores que causavam ligeiro desconforto àqueles menos vezeiros que o velho empregado da sapataria. Extensas prateleiras de madeira, abarrotadas de sapatos e outros materiais, ladeavam as paredes da primeira sala, que abrigava também um carcomido, mas ainda imponente balcão de mármore, no qual trabalhavam uma quarentona enxuta que despertava a libido e alimentava a fantasia de alguns costumeiros fregueses, além de um caixa sexagenário metido a galã e meio janota no vestir. A lida diária do velho sapateiro acontecia nos fundos, onde recuperava os mais variados modelos, femininos ou masculinos. O patrão vinha sempre ao fim do dia para recolher a féria.

Sentou-se numa cadeira próxima à sua mesa de trabalho. Ainda arfante, secou o suor que brotava mais intensamente na testa com seu inseparável lenço de linho, presente da falecida esposa. Após recobrar o fôlego, retirou do bolso dois pedaços de papel amarrotados e, posicionando-os lado a lado, passou a dirigir-lhes um intenso olhar. Ele estava estranho aquele dia, uma inquietação, um prurido não condizente às suas nove décadas de existência, as quais viveu com invejáveis parcimônia e serenidade apesar dos infortúnios – estes maiores, ou melhor, mais incidentes geralmente na trajetória dos mais longevos.

Já não percebia o que estava escrito. Olhava mas não lia. Encontrava-se distante, os pensamentos começavam a percorrer seus primeiros anos. Lembrou-se de sua mãe, mal a conheceu. Saúde frágil, sete filhos – ele era o caçula –, submissa ao marido como a maioria das mulheres de seu tempo. Morreu cedo, de tuberculose, o menino ainda mamava no peito. O pai até que sofreu com a perda da esposa, mas homem consegue cicatrizar as feridas com mais rapidez, pelo menos, aparenta tanto. Logo, trouxe outra para dentro de casa.

Subitamente, como estremunhando de um breve estupor, voltou ao presente e, mais uma vez, leu com atenção o que havia anotado em um dos recortes antes de pousá-los sobre a mesa. Parecia não acreditar no que via...

Perdeu-se novamente no passado. O pai marcara muito sua existência. Rigoroso em seus princípios, desde muito cedo, tentou impingir aos filhos uma educação severa, sendo implacável na atribuição de castigo aos desobedientes. Entretanto, levava uma vida não tão exemplar. Acabou se entregando às bebidas e ao jogo, perdendo quase todos os bens de que a família dispunha. Pensou em seus irmãos, ele era o único vivo. Recordou-se do primeiro beijo; dos bailes que frequentava nas matinês de sábado; do campinho de futebol na rua vizinha; da dona Cecília, que ficava de tocaia no quintal para proteger o pé de goiaba da razia promovida pela molecada. Eram tantas as lembranças...

Sentou-se. Pegou mais uma vez os recortes, cotejando cada número inscrito. Não havia dúvida, as seis dezenas se correspondiam, e o valor do prêmio era aquele mesmo que vira na casa lotérica minutos antes de chegar à sapataria: cerca de vinte milhões. Seus dedos fremiam, não parava de transpirar um minuto sequer, o lenço de linho embebido em suor já pesava no bolso e, àquela altura, não servia mais a seu propósito.

Pensou em sua mulher, nos momentos felizes que passaram juntos, também nas dificuldades, como naquele período em que estava desempregado: precisaram morar de favor na casa da tia solteirona de sua esposa. A emoção que sentiu no nascimento do Pedrinho e depois o parto complicado da Aninha, que tinha o cordão umbilical comprimindo o pescoço e ficava cada vez mais roxa. A dor da perda, o mundo caindo em suas costas com a morte da mulher de sua vida. O câncer chegara implacável, devastador, célere, apenas três meses da convalescência ao último suspiro. Pedrinho e Aninha cresceram, se casaram e nunca mais teve notícias. Não sabia se tinha netos, não entendia a distância que se criara entre ele e os filhos. Não fora um mau pai, não pôde dar muito à família, é verdade, mas concedia tudo o que estava ao seu alcance, principalmente amor e carinho. Luxo e fartura se encontravam muito distantes da realidade de um modesto empregado de sapataria.

Sentiu uma saudade lancinante, aliás, o fato de ter uma vida solitária o deprimia profundamente. Morava num quarto de sobrado na Rua do Riachuelo. Quando não estava na sapataria, passava a maior parte do tempo olhando as paredes descascadas e imaginando como seriam os dias futuros, a idade chegando ao limite...

Passou os dedos pelos fios de cabelo que restavam em sua cabeça, deslizando, em seguida, as palmas da mão por toda a superfície do rosto, percorrendo cada vinco talhado pelo tempo até alcançar o bilhete premiado sobre a mesa. Guardou-o no bolso, depois de desfazer-se do rascunho que anotara para conferir mil vezes aqueles malditos números da sorte. Talvez sejam malditos mesmo para quem tem mais passado que futuro como ele. Planos, não os tinha, ao menos, por ora. Não conseguia fazer outra coisa senão relembrar, relembrar e relembrar. Sua cabeça era inundada por recordações. Se tivesse vinte, trinta anos, ainda veria a estrada da vida por desbravar as montanhas até se perder no horizonte; assim é a lei natural. Com noventa, o peso dos anos pretéritos parece esmagar o breve porvir. E ele se sentia abafado, sufocado, asfixiado pela sua história.

Resolveu sair, tomar um ar fresco o faria se sentir melhor. O sol ainda aparecia tímido naquelas primeiras horas da manhã.

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A obra O Sapateiro de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em tipoescrito.blogspot.com.
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11 comentários:

  1. Se ainda não tiver passado 90 dias do sorteio, fala pra ele que eu aceito o bilhete... rsrsrs Muito bom! Grande Abraço!

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  2. Muito legal e o desenho do Dudu ficou incrível.

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  3. Será que eu sou o filho dele?
    Muito bom Alexandre!
    Abraços
    Pedro Flores da Cunha

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  4. Fabuloso Alexandre, fabuloso... Sem mais palavras.

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  5. Excelente, aliás, como sempre.
    Realmente curioso e extremamente solitário ganhar na megasena quado já não há maiores perspectivas no viver.

    Bjus

    Cátia Bisaggio

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  6. Olá Alexandre, belíssimo conto. Escreves divinamente. Gostaria de aproveitar e convidá-lo para dar uma passadinha no meu blog e se puder linkar e divulgar eu agradeço. Abraços
    http://rabiscosaquatromaos.blogspot.com/

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  7. É possível linkar nossos blogs?

    joezil Poesias: http://joezilpoesias.wordpress.com/

    Obrigado.

    Adimilson

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  8. genial, como sempre! Adoro passar por aqui.
    Bjos
    Andrea Gubert

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  9. Roberta Guimarães21 de abril de 2011 01:35

    Se passaram duas semanas que vc publicou este conto...
    Esta semana a Mega-Sena está acumulada e eu fiz um joguinho...bem que podíamos ganhar, mas não adianta, segundo o ditado popular "Deus NUNCA dará asas à cobra!!!"

    Eu não sou nenhuma jararaca...hehehe..., mas bem que gostaria de ganhar asas como "Red Bull"!!!

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  10. Márcio Guimarães3 de maio de 2011 17:25

    Estou cada vez mais perplexo, não posso imaginar que quem escreve este conto, seja alguém que conheço.Parece uma jóia lapidada exemplarmente, para que o seu brilho se destaque com toda sua intensidade.SÓ QUE FICA MAIS UMA VEZ !!E AÍ?? O QUE SE SUCEDEU??GOSTO DE QUERO MAIS!!SERÁ PROPOSITAL?OU PURA SAC......., SE ASSIM O FOR PERDERÁ SEUS LEITORES!!

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