quinta-feira, 21 de abril de 2011

Um Dia de Chuva



Desenho: Dudu (9)
Saiu de casa com a despensa vazia e a cabeça cheia de preocupações. O pouco do dinheiro que sobrou de sua pequena renda mensal mal foi suficiente para cobrir a primeira das duas contas de luz que acumularam nos últimos 60 dias. O pagamento do boleto, se não contribuiu para desenhar em seu rosto um sorriso aliviado que fosse, permitiu, ao menos, adiar ao mês seguinte a ameaça de ficar completamente às escuras.

Não tinha filhos, morava sozinha no subúrbio, em uma área com pouco mais de 30 metros quadrados milagrosamente distribuídos em sala, cozinha, banheiro e quarto. Era tudo muito simples, porém organizado, evidenciando o desvelo ofertado a cada objeto que adquiria com o suor do seu rosto. As telhas de amianto, entretanto, continuamente rachadas pela ação do tempo e as paredes externas emboçadas de forma precária revelavam ao mundo sua permanente dificuldade para equilibrar as finanças.

Não se podia dizer que era uma mulher bonita, tampouco seria justo classificá-la como alguém desinteressante. Todavia, chamava a atenção de maneira inconteste quando se produzia para ir à luta. Naquele início de noite, arriscaria dizer que estava especialmente atraente. Um vestido preto colado ao corpo respeitava com extrema fidelidade sua silhueta, ressaltando com o mesmo rigor tanto suas virtudes físicas quanto suas pequenas imperfeições que, por sinal, acabavam passando despercebidas num contexto mais amplo.

Fazia ponto na zona portuária da cidade. Lá pelas oito, o movimento de pedestres já havia diminuído consideravelmente. Os carros passavam céleres pelo asfalto molhado – só deus sabe o quanto não rende o trabalho por mais fina que seja a chuva, um verdadeiro balde de água fria na alma e, sobretudo, no bolso de quem precisa vender o corpo inexoravelmente. Azar o dela! Não tinha escolha a não ser ficar ali na incerteza de um programa que parecia ir pelo ralo abaixo com o aumento progressivo dos pingos. Pela assiduidade e voracidade com que caíam, foram – já não era em tempo – promovidos à categoria de temporal.

Não conservava mais o esplendor de horas atrás e a concorrência enfileirada ao longo da via – todas com o mesmo objetivo e esperando um milagre dos céus, neste caso, uma providencial estiagem – a faziam perder o ânimo: as mais cotadas da área permaneciam na vitrine, muito embora, numa situação como esta, o comprador é quem fica por trás da vidraça, enquanto os objetos de desejo se mostram ao relento. Pensou em retornar reconhecendo a derrota na batalha, porém não poderia se dar ao luxo de entregar-se ao inimigo, teria de lutar até as últimas consequências. A bem da verdade, não lhe restava qualquer escolha, recuar seria voltar a um cenário não menos inóspito.

A fome era uma realidade que lhe assombrava. Como retornar da caça sem a presa? Não tinha a quem recorrer numa situação como aquela que se esboçava. Os pais deixaram cedo este mundo, ela ainda não havia trocado os dentes da boca. O irmão mais velho partiu para os Estados Unidos e nunca mais deu notícias, talvez nem estivesse mais entre nós, tamanho talento adquirido para se meter em confusões. Sozinho e num país desconhecido, não seria surpresa se tivesse tomado um tiro no meio da testa tentando ganhar a vida em parceria com os marginais da área. A tia – irmã do pai – que a acolhera ainda adolescente, depois de se casar pela segunda vez, acabou por enxotá-la do lar. Àquela altura, seu corpo de mulher em frescor de menina se tornara uma ameaça a quem tivesse homem dentro de casa.

– Quanto é o programa?

Uma voz roufenha rompeu a sonoridade regular e métrica da chuva e a despertou de um ligeiro torpor. Era um tipo espandongado, desleixado no vestir e no trato pessoal, péssima aparência. Ao mesmo tempo em que constatou a decrepitude do cenário formado à sua frente, admitiu-se não estar em condições de selecionar clientes. Pagando, todo o trabalho torna-se digno, pelo menos, acreditava nesta máxima que a redimia da dúvida de estar levando, na prática, uma vida abjeta, submetendo-se, em muitas ocasiões, a sevícias e a manias doentias de seus parceiros eventuais.

Teve de cobrar menos pelo programa que de costume. São as leis de mercado, mera questão de oferta e procura. Valendo-se de sua condição favorável, o sujeito aproveitou o poder de barganha para garfar pela metade os serviços de que iria dispor pela próxima hora.

– Oitenta? nem fodendo! – esbravejou o tipo.
– É o preço, meu amigo. E só fodendo mesmo. Lá atrás e beijinho nem pensar...
– Só tenho quarenta e com direito a “basquetinho”, falou?
– Sessenta e fica o boquete.
– Quarenta e está acabado. É pegar ou largar.

Se os argumentos não soavam justos, eram, no mínimo, suficientes para entender que a noite, ou melhor, o dia seguinte dependia de um esforço extra. O hotel de quinta aonde seguiram após o acerto conservava um cheiro de mofo, do qual suas narinas já não mais reclamavam, estavam viciadas pelo odor que tresandava das paredes e dos lençóis mal lavados. Pensava apenas em liquidar a fatura o mais rápido possível. Começou pela pior parte: abriu, sem maiores delongas, o zíper da calça de seu algoz, desalojando a lança que iria feri-la na alma, no orgulho. Controlou-se para não vomitar tamanha imundice com que se deparou e para onde deveria endereçar sua língua e boca num movimento frenético, podendo este durar um, dois, três, cinco, dez eternos minutos.

Entregou-se, finalmente, ao serviço. Olhos fechados, pensamento fixo, focado estritamente num mantra desenvolvido a pretexto de não sucumbir à tarefa. Parecia entrar em estado de transe, repetindo mentalmente centenas de vezes a mesma frase que, se não lhe amenizava o trabalho, prestava-se a contento para salvar a sua honra: “casa, comida, vida – casa, comida, vida – casa, comida, vida...”. Certamente, mais que honra. Questão de sobrevivência.

Licença Creative Commons
A obra Um Dia de Chuva de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
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5 comentários:

  1. Roberta Guimarães21 de abril de 2011 01:22

    "-Que atire a primeira pedra quem nunca pecou" disse Jesus à população que apedrejava Magdalena

    Vamos viver melhor, julgando menos as pessoas...Cada um sabe das suas necessidades...Às vezes é sem-vergonhice, outras é questão de sobrevivência!

    Esta belíssima história foi, para mim, uma bela lição de vida!!!!!

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  2. Interessante história me chamou atenção, pois, quinta feira fui ao parque da luz e "pequei" ao sentar em um dos ensolarados bancos para escrever e me aquecer ao sol...não sabia que era a "senha" do local...fui cercada, fugi assustada antes de receber a proposta fatal...
    Muito dificil deve ser, tive uma sensanção de vulnerabilidade...ali exposta...não quis saber qual seria o "preço"...
    Bom domingo de páscoa

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  3. Alexandre, maravilhoso conto/crônica! sse é um dos melhores.Digno de umaantologia de bons contos.
    A primeira frase é uma obra prima.
    A utilização de imagens alusivas à chuva que cai como "o programa que ia pelo ralo"; a imagem do vidro do carro como "vitrine";o boquete com mantra, etc, são muito originais e criativos ! Parabéns !

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  4. Márcio Guimarães3 de maio de 2011 16:54

    Despensa vazia e a casa cheia de preocupações!!Quanta ironia para uma vida de sobrevivência, uma guerra constante para a maioria.Sabe querido amigo, temos que entender as coisas e as pessoas como são e não como gostariam que fossem!!Se conseguirmos ajudar, ótimo, mas caso contrário se pudermos, basta não atrapalhar.
    A PROPÓSITO ACHO QUE IMAGINO QUEM SEJA ESTE ILUSTRE ILUSTRADOR, QUANTA GENIALIDADE PARA A IDADE!!sem protecionismo, ou favorecimento qualquer que seja!!rsrsr
    Márcio

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