quarta-feira, 4 de maio de 2011

Diário de Mãe



Desenho: Dudu (9)
As mesmas luzes que atraíram meu olhar tremeluzindo suavemente ao sabor do vento terminaram por me distanciar cada vez mais daquele ambiente. A emoção me tomava por inteiro. Nem a costumeira algazarra à volta da mesa parecia chamar minha atenção. Curioso como ainda não inventaram nada mais traiçoeiro que o tempo. Enquanto nos encontra no dia a dia, parece nos revelar sem subterfúgios a sua verdadeira face. No entanto, basta a menor invigilância para visualizarmos, logo em seguida, sua imagem ao longe, fugidia, escapando aos olhos e mostrando com peculiar indiferença nosso afastamento do momento presente.

Uma segunda-feira apressada, como muitas outras perdidas no calendário, tornou-se particular. Não pelo suco de laranja que escorregou dos meus dedos aflitos e manchou o tailleur no momento em que revirava a bolsa para conferir se esquecia de algo. Tampouco pelo fato de estar prestes a me atrasar para a entrevista do emprego imperdível – como havia me preparado! Era crucial chegar sem sobressaltos, porém, assim como tempo – ou ainda mais atrozes que ele –, as segundas-feiras apressadas se comprazem em dar rasteiras intempestivas. Ai de quem se descuidar um minuto sequer!... O telefone tocava pela segunda vez indicando a chegada do táxi.

Às sete e quarenta, as ruas de Ipanema já estavam abarrotadas de automóveis. Ônibus ferozes driblavam os carros como se todos também estivessem atrasados para sua entrevista do emprego imperdível. Em meio à desordenada sinfonia urbana que acometia meus ouvidos tão cedo pela manhã, fui surpreendida por um choro miúdo e lateral no curto trajeto até entrar no táxi. Ao descer o vidro traseiro, pude perceber com mais precisão aquele pedacinho de gente enrolado numa manta branca encardida. A mãe permanecia sentada na calçada, com as costas apoiadas na porta de ferro de uma das lojas localizadas embaixo do meu edifício. Envolta em jornais e com as vestes sujas, se preparava para dar o peito. Não sei por que, imaginei ser uma menina...

A terça-feira acordou sorrindo para mim. Fui contratada e começaria já na semana seguinte. O Roberto levantou mais cedo e preparou um café da manhã especial. As crianças haviam partido para escola e tudo parecia se encaixar perfeitamente. As terças-feiras são geralmente mais simpáticas, talvez para compensar o mau-humor das segundas, historicamente mais cenhosas e turbulentas. Aproveitei para descer e dar uma caminhada pelo calçadão, o sol já dava as boas-vindas aos que saíam da toca para recebê-lo. Deixando a portaria, encontrei o mesmo chorinho lateral. A mulher se mostrava mais impaciente. Ao me aproximar, ela esticou o braço e pediu alguns trocados.

– Há quanto tempo vocês estão por aqui?
– Desde domingo à noite, moça, viemos direto do hospital...
– É uma menina?
– É sim... Mas ela não para de chorar, eu já dei o peito, não sei o que essa guria quer...
– E o pai?
– Tem pai não. Sou eu e ela no mundo.

Perguntei o nome do bebê. A mulher, irrequieta e visivelmente incomodada, disse não ter pensado ainda nessas coisas, tinha mais com que se preocupar – como o fato de precisar sobreviver um dia após o outro. Demonstrou ligeira desconfiança com aquela sequência de questionamentos, mas serenou-se quando mencionei que iria preparar uma sacola com alguns mantimentos. Desisti da caminhada.

A quarta-feira chegou indecisa. Não sabia se levantava da cama e aproveitava o restinho dos meus dias de folga ou se continuava dormindo como se pudesse acumular energia suficiente para enfrentar a rotina desgastante do trabalho que estava por vir. Muito provavelmente por se localizar exatamente no meio da semana, as quartas não costumam tomar partido, conservam-se impassíveis em cima do muro. Pensei em descer para ver como estavam a mãe e a pequena sem nome, porém as horas foram passando, passando... Terminei por ficar organizando algumas miudezas em casa.

Certamente por não ter posto o nariz para fora no dia anterior, a quinta-feira apresentou-se ansiosa. Antes mesmo de tomar café, fui até a calçada para saber das duas. Não consegui tirá-las da cabeça. A mãe trazia o semblante carregado, o odor da sujeira acumulada começava a tresandar pelo ambiente. Cabelo curto, de um preto indefinido pela gordura das ruas, pele morena clara agravada pela fuligem que revestia todo o seu corpo, olhos castanhos desesperançados. Suas mãos imundas e pouco convictas, vez por outra, davam alguma atenção à criança, esta quase sempre recoberta pela manta e recostada numa pequena almofada de couro parcialmente carcomido. Por volta das nove, quando as lojas abriam suas portas, saíam pelo mundo. Não tinha menor ideia que rumo tomavam.

A sexta-feira acordou animada. Saí cedo da cama, e conseguimos enfim reunir a família à mesa pela manhã. Roberto e os dois filhotes combinaram de fazer um almoço especial no domingo para comemorar o Dia das Mães. Não quiseram revelar o prato, mas garantiram que os três preparariam tudo. Adorei a iniciativa. Após seguirem cada qual aos seus afazeres, decidi ir ao mercado. Quem sabe, comprando algumas fraldas descartáveis, um tanto de leite em pó, água mineral, mamadeira, eu pudesse levar uma pitada de alento à mulher da calçada.

Nunca um sábado foi tão surpreendente. Ainda guardava na memória a expressão de gratidão daquela mãe recebendo meu singelo agrado. Ingenuidade a minha achar que meia-dúzia de mantimentos seria suficiente para minorar a luta das duas... Desci por volta das nove. No lugar da aflição materna, encontrei o choro abandonado da criança sem nome, envolta na manta encardida e entregue à própria sorte. Tomei-a no colo, ainda atônita. Senti no peito o calor da febre, mas esperei cerca de cinquenta minutos, antes de subir com a pequena, por um retorno que nunca veio.

A previsibilidade típica dos domingos foi abalada pela instabilidade dos últimos acontecimentos. Rápida mudança de planos. Seguimos com a menina para o hospital. A noite havia sido conturbada. A mãe não deixara rastro, e se a vida me fazia um convite ao qual não me sentia apta a aceitar, por outro lado, não me restava dúvidas de que não estava em condições de recusar. A pneumonia em estado avançado inspirava absoluta cautela. Temi pelo futuro daquela que não tinha nome.

A manhã de segunda deu o ar da graça trazendo importantes decisões. Declinei da oferta do emprego imperdível tão logo soube que a internação seria por tempo indeterminado... No fim das contas, passaram-se quase nove meses – uma gestação na prática – até que fosse possível tê-la em meus braços definitivamente. O processo de adoção, felizmente, correu sem maiores sobressaltos. 

Sem atinar de imediato o quão longe me encontrava, fui resgatada pelo sopro vigoroso e certeiro que apagou as luzes tremeluzentes ao sabor do vento. Ela estava radiante em sua festa de aniversário. Fui tomada de emoção ao ver sobre o bolo as duas velas indicando seus dezoitos anos. E pensar no nosso primeiro encontro... Tudo se deu numa segunda-feira apressada. Apressada, mas particular – o dia em que a menina sem nome passou a existir pra mim. Particular e ainda assim apressada – tão apressada que, na ocasião, não pude nem chamá-la pelo seu nome: Gabriela. Muitos anos de vida, filha querida!

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9 comentários:

  1. Roberta Guimarães4 de maio de 2011 20:56

    A quatro dias do Dia das Mães, e vc vem com esta história linda, comovente e emocionante!!!

    Pode parecer um simples conto, mas na verdade é uma grande reflexão e grande prova de amor, amor materno!

    Histórias como esta devem existir, mas a maneira como escreveu é muito Real. A vida das mães de hoje é tão corrida ... Será que não deixamos passar entre os dedos momentos mágicos?!?!

    Que cada mãe, inclusive eu, pare um pouco, reflita no próprio "Diário de Mãe", e viva intensamente com seus filhos, não esquecendo de enxergar verdadeiramente seu desenvolvimento.
    FELIZ DIA DAS MÃES!!!!!!

    Bjs de um S2 super emocionado!!!

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  2. Márcio Guimarães4 de maio de 2011 21:03

    Alexandre
    Muito inspirador este conto, e próprio pela proximidade da data.
    Afinal de CONTO,todos podemos ser pai,mãe e irmãos no sentido amplo.
    E o tempo, êle passa ou nós é que passamos por êle??.. afinal o tempo é!!
    Parabéns, está se superando a cada semana.
    Sucesso
    Márcio

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  3. Verdade Beta! Emocionou. Lindo Xande! Bjs e um maravilhoso Dia das Mães pra nós!!! Rê.

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  4. Lindo demais! Passar por aqui sempre vale a pena! Bjs, Paulinha.

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  5. Olha eu de volta!!!! Lindo Alexandre. Vou compartilhar. Bjuuss, Catia

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  6. Eu de novo!!! Dudu, adorei o seu desenho!!! Bjin, Catia

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  7. Que lindo!!
    A gente tenta obter tanto controle sobre a vida, planejamos para que as coisas saiam do jeito "certo"...e a vida vem até nós repleta de surpresas...
    Adorei.
    Tô te seguindo.

    meu blog:http://www.criadourodeespinhos.blogspot.com/

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  8. Lindo texto, emocionante.
    Muito bom ter vindo aquí!

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  9. Olá, Alexandre

    Vimos o endereço do seu blog num outro de uma senhora brasileira (somos portugueses). Quando lemos o seu currículo quase desistimos de deixar um comentário! Mas, depois, vimos que também gosta de Saramago e de García Marquez ... e de escrever!

    Atrevemo-nos a convidá-lo para ler umas coisinhas que escrevemos em www.enredos-enredos.blogspot.com :)

    Saulo e Simone

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