quarta-feira, 15 de junho de 2011

A Hora de Dormir



Desenho: Dudu (9)
Queria apenas deitar a cabeça no travesseiro e dormir imediatamente. A maldita colcha – presente da mãe da Mônica –, antes estendida sobre a cama, já havia sido posta de lado para abrir caminho ao meu corpo esgotado. A propósito, não sou louco de externar isto que vou pensar agora, mas, sempre ao me deparar com a tal coberta, fico com vontade de me ajeitar pela sala mesmo. Seus tons de amarelo escuro e preto por si só já tornam a combinação infeliz. E o que dizer das figuras sextavadas de mais ou menos quatro centímetros de aresta formando sucessivos alvéolos por toda a extensão do tecido? Isso mesmo! A sensação é de um imenso favo de abelha no meio do nosso quarto.
 
Encontrar o lençol branco diretamente esparramado pela cama foi inegavelmente um alívio para os olhos. Mônica adormecera vendo a novela, e a TV ligada preenchia burocraticamente de luz e som o recinto. Achei por bem desligá-la logo – quarto escuro, como manda o figurino! – e ir deitar de uma vez por todas. Talvez o tenha feito com alguma precipitação. A luminosidade vinda do corredor contornando as extremidades da porta sinalizava a necessidade de que eu me pusesse de pé novamente: primeira reversão de expectativa. No entanto, sem me deixar levar pelo impulso inicial, busquei rapidamente uma razão minimamente plausível para evitar esse meu já inconveniente deita-e-levanta de todas as noites, antes de dormir. Hoje não!... Pensando bem, a iluminação daria uma segurança maior às crianças caso acordassem no meio da noite, assustadas.

Vencido o primeiro round, hora de refazer mentalmente os meus três últimos minutos, uma espécie de check-list de atribuições para um sono tranquilo e reparador. Ao passar pelo quarto dos meninos, dei um beijo em cada bochecha e desliguei o abajur – Ótimo! Mais um motivo para conservar aceso o corredor, certamente iriam ficar amedrontados naquele breu todo. Fitei-os por alguns segundos até me certificar sobre a normalidade de sua respiração. Aguardei até que o movimento do diafragma de cada um completasse um ciclo por três vezes consecutivas. Demorei-me um pouco mais hoje. Provavelmente por distração, acabei contando cinco inspirações para o Léo. Tive de refazer a contagem para o Lipe também, não gostaria de parecer injusto.

As portas da sala e de serviços foram devidamente trancadas; a entrada social com três voltas na papaiz. A esquadria da área dos fundos, geralmente aberta para manter a ventilação, foi fechada excepcionalmente. Acostumada a visitar o apartamento a partir das onze, a brisa noturna chegou com ares mais frios que o habitual. Geladeira e freezer vedados, assim como as torneiras do tanque, da cozinha e dos banheiros. Passando pela sala, arrumei o quadro de cima do sofá, ligeiramente pendido para o lado esquerdo. Não apaguei o interruptor do corredor antes de entrar no quarto, porém, como ponderado há alguns minutos, não foi de todo o mal...

Finalmente, hora de dormir! Cheguei a perceber o desligamento de consciência por um átimo quando o ruído molhado da chuva alertou meus ouvidos quase desatentos. Não parecia, de modo algum, perturbador o barulho dos pingos, longe disso. Na cadência em que precipitavam, compunham até mesmo um improvisado aconchego sonoro. Se por um aspecto, a inesperada sinfonia do lado de fora não se estabeleceu de maneira desagradável, por outro, foi o suficiente para trazer de volta ao embate os meus pensamentos, como se erguessem da lona em frangalhos, porém indômitos, durante a contagem aberta com o primeiro knock-down. A luta entre o sono e a consciência permanecia indefinida.

Percorro novamente o último roteiro na intenção de me certificar se havia deixado escapar algum item, considerando então este novo cenário, desta vez, chuvoso. A esquadria da área dos fundos já estava fechada por causa da brisa fria. A sala, lembro-me de ter cerrado as cortinas quando fui realinhar o quadro torto, portando o janelão permanecia encostado. Os quartos, invariavelmente com seus aparelhos de ar-condicionado em funcionamento – seja inverno ou verão –, evidenciavam total controle da situação. A sensação de alívio teria sido completa não fosse o fato de surgir à mente, de chofre, a imagem do meu carro. A propósito, não estou convicto de ter elevado os vidros ao trancar o automóvel.

Não importa, isso não iria me fazer levantar da cama agora. Danem-se os estofados de couro! Ainda sim, existe, no mínimo, cinquenta por cento de chance deste bendido vidro estar realmente suspenso. Se a situação trouxesse algum risco iminente à família, não pagaria pra ver, mas, nestas circunstâncias... O máximo seria um inconveniente material. Novo round vencido! O sono parecia retomar o controle do rinque. No entanto, ardilosa, a consciência aparentava apelar para seu último recurso ao tentar buscar quais seriam, de fato, os tais riscos iminentes à família. Um direto levou à lona o oponente, completamente grogue por se dar conta de que as saídas de gás do fogão não haviam sido checadas. Imagina! Morte por intoxicação! Não me perdoaria jamais! 

Decepcionado com mais um fracasso, enfim, levanto-me resignado em direção à cozinha. Evidentemente as saídas de gás do fogão estavam vedadas, não fosse assim teria percebido algo de estranho ao deitar. Volto para cama, apreensivo. Espero que eu passe incólume – e o mais rápido possível – pelo novo check-list.


Licença Creative Commons
A obra A Hora de Dormir de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em tipoescrito.blogspot.com.
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5 comentários:

  1. Roberta Guimarães15 de junho de 2011 22:42

    Um tipo de TOC q cada um tem um pouco...hehehe!!!!!

    Seria TOC ou "Um Toque de Responsabilidade"?!?!?

    Adorei o tema...instigante, inteligente e divertido!!!

    E o desenho está maravilhoso...PARABÉNS Dudu!!!!!

    Bjs à dupla

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  2. Márcio Guimarães17 de junho de 2011 21:49

    Acho que desta vez, entrou em parafuso!!
    Que neura brava!!
    E olha que tem gente, exatamente assim!!
    Roberta,creio que está mais para TOCA...........
    O ilustrador está acompanhando os contos, maravilhoso!!
    Bjs a todos
    Márcio Guimarães

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  3. amei! quem nunca teve se não a coragem de realizar TUDO! a terrível vontade de verificar cada ítem ...TOC, compulsão, neura...cada um com sua loucura!
    real, este conto tá incrível!
    parabéns Xande!

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  4. Oi Alexandre !

    Todo mundo tem de louco um pouco.

    O conto está ótimo !
    Bjs,

    Edi

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  5. Adorei seu blog, adorei seu texto!Vc escreve muitissimo bem! Tenho um blog, super modesto, tem apenas 2 dias. Mas todos os textos são meus. Na verdade coloquei pouquissimos. Se puder, poderia visitar e dar sua opiniao? ortegacr.blogspot.com
    Obrigada!

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