quarta-feira, 1 de junho de 2011

Um Segundo e Meio Depois



Desenho: Dudu (9)
De súbito, uma frase atravessada cruzou a mesa acometendo meus ouvidos desarmados. Justamente aquele encontro, promovido à custa de muita insistência, tinha o objetivo de acalmar os ânimos exaltados das últimas semanas. Pelo menos, o cenário era favorável. As notas do piano compunham harmonicamente o som ambiente, tornando o simpático bistrô ainda mais aprazível. A segunda garrafa de vinho tinto trazia maior satisfação ao paladar que a anterior, contribuindo de maneira decisiva com a crescente desenvoltura de nossa conversa. Até então, o clima beligerante havia sido substituído por uma promissora possibilidade de reconciliação.

Era a primeira vez em que saía de casa nesses sete anos de casamento. Tudo por causa de uma despretensiosa carona. Como explicar um batom perdido no console do carro? Até existe justificativa, pois não há nada demais em transportar uma colega de trabalho que seguiria por um trajeto semelhante. O problema é levar alguém tão distraído a ponto de deixar um rastro inocente, embora comprometedor ao faro feminino de uma esposa desconfiada.

Mesmo sem culpa no cartório, não conseguia parar de gaguejar. O rosto lívido, o olhar de espanto e os dedos irrequietos coçando a cabeça de maneira intermitente desenhavam o perfil do réu sem defesa. Jurei inocência, no entanto, as evidências pareciam refutar de bate-pronto qualquer tentativa minha de explicar a situação. Parecer culpado é tão constrangedor como ser culpado de fato. Não adiantava repetir, pela décima vez, que o raio do batom não era de nenhuma vagabunda com quem estava saindo.

Rosana permanecia irredutível. A traição arquitetada por sua imaginação tornara-se líquida e certa, não me permitindo qualquer recurso em minha defesa. A sentença já estava formulada, e as duas malas de roupas empilhadas sobre o capacho da porta de entrada indicavam o caminho a seguir. Naquele instante, senti muita vontade de ter tido efetivamente alguma responsabilidade. Seria mais justo pra nós dois, assim o casamento terminaria por algo concreto. Não merecíamos ter a figura de um culpado inocente, de um vilão sem delito, de um pecado sem originalidade como estopim de nossa separação.

Os primeiros dias foram de isolamento absoluto. A partir da segunda semana, ela passou a atender minhas ligações e, finalmente, algum tempo depois, marcamos nosso jantar. Não imaginava encontrá-la tão atraente, ou melhor, havia me esquecido da última vez em que se produzira daquela maneira – decididamente, Rosana não trazia consigo o cabelo, a pele e o olhar cotidianos. Não demorou muito, esvaziamos a primeira garrafa de vinho, quebrando a formalidade inicial e enchendo de sorrisos abertos o nosso encontro.

Àquela altura, inúmeras recordações passeavam entre goles tintos e gestos apressados tentando resgatar episódios que cada um de nós expunha com promissor entusiasmo. Talvez, para reconstruir o futuro, seja menos penoso recorrer aos bons momentos do passado. E o fazíamos com plena competência. Começamos pelo nascimento da Clarinha. O cordão umbilical enrolado em seu pescoço sufocava a nossa esperança, e o medo da perda nos assombrou como nunca antes havíamos experimentado. Contudo, a explosão de alegria ao ouvir o choro mais aguardado de nossas vidas foi algo de retumbante, inigualável, inenarrável. Sempre nos emocionamos ao pensar...

Rosana lembrou o dia do casamento no instante em que fizemos o segundo brinde. Ela se vangloriava em dizer ser a responsável por ter me ensinado a brindar de maneira polida: “Pôr a taça na mesa antes de provar a bebida é de uma pobreza de espírito sem precedentes...”, asseverava sempre num tom de provocação e com um meneio de cabeça reprovador. Antes da cerimônia, recomendou-me duas coisas apenas, ainda que umas trezentas vezes: “Não se esqueça de sorrir na entrada e, no brinde, pelo-amor-de-deus, não deixe de provar a bebida logo depois da saudação! Posso ficar tranquila?”.

Pura quimera! Não ficaria tranquila enquanto não começasse a celebração e se certificasse do bom andamento de tudo. Brinquei que quase desisti de casar ao presenciar sua crise nervosa por causa das indesejáveis nuvens cinzentas. Eram realmente numerosas pela manhã, passeando intimidadoras e sobranceiras pelo céu – justo no grande dia! A recepção seria realizada num vasto gramado, ao ar livre, e, se a chuva tivesse chegado conforme a ameaça, a festa iria literalmente por água abaixo.

Obviamente, não perdi a deixa: “Nunca entendi aquele seu piti, o maior prejudicado seria eu...” e prossegui sarcástico, porém evidenciando familiar carinho: “Eu quem tive de fazer dois investimentos de alto-risco de uma só vez: pagar uma fortuna por uma festa que podia não acontecer e consentir em passar o resto dos meus dias ao seu lado... Muita coragem!”. Ela me premiou com uma risada aberta, embora isso não significasse bastante devido às circunstâncias, devo confessar. A bebida já se encarregara de afastar qualquer inibinição remanescente.

Nossa viagem ao passado finalmente chegou ao ponto de partida. Decisão da Copa de 94, as ruas do Leblon estavam apinhadas de gente na hora da disputa dos pênaltis. Minha euforia após a cobrança do Baggio por cima do travessão durou relativamente pouco. De súbito, senti uma ligeira, mas aguda queimadura no braço esquerdo. Era o cigarro de Rosana, que pulava feito louca no meio da multidão. Disse somente aceitar as desculpas se ela concordasse em tomar um sorvete. E o nosso primeiro beijo foi verde-claro, com gostinho de pistache...

A noite caminhava para o desfecho esperado quando uma frase atravessada cruzou a mesa acometendo meus ouvidos desarmados. Eu não podia ter perdido o timming, não naquele momento. Rosana não se conteve e disparou em minha direção, cobrando mais compostura e respeito à sua presença. Meu descuido – chamemos desta maneira – durou um segundo e meio a mais, não chegou a dois – tenho certeza absoluta –, mas foi o suficiente para reavivar os nossos tempos mais críticos.

Dispensável dizer que minha atitude mereça alguma defesa, mas era simplesmente impossível não observar a presença devastadora da dona daquele vestido justo. E digo justo não apenas pela estreiteza, mas, sobretudo, por delinear com desejável competência e fidelidade suas curvas. Perigosas curvas... Ao passar pela lateral da mesa, cativou simultaneamente nossos olhares por alguns instantes, meu e de Rosana. O grande erro, entretanto, foi me prolongar por um segundo e meio em minha atenta observação – uma eternidade para um homem acompanhado. O pior é que não cogitava de forma alguma aventurar-me em qualquer relacionamento extraconjugal. Pura babaquice masculina...

Não pedimos a terceira garrafa de vinho, a solicitação ao garçon foi de que telefonasse à cooperativa de táxi mais próxima da região. Em silêncio, sentimos o último gole descer amargo pela garganta quando a derradeira nota do piano desafinou, quebrando o encanto da noite. Paguei a conta antes que as luzes de nossos rostos se apagassem por completo. Partimos em carros separados, cada qual para seu respectivo destino.

Licença Creative Commons
A obra Um Segundo e Meio Depois de Alexandre Cunha dos Santos foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em tipoescrito.blogspot.com.
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3 comentários:

  1. Márcio Guimarães2 de junho de 2011 23:36

    Muito bom!!
    Está se superando a cada dia.
    Até o futebol entrou de forma suave.
    Mas este conto foi um desencont(r)o.
    Abcs e sucesso
    Márcio Guimarães

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  2. Olá, Alexandre

    Continuamos a seguir os seus escritos.

    Sabe ... sou professora de Língua Portuguesa e com a entrada em vigor, nas escolas, do Novo Acordo Ortográfico, já no ano lectivo de 2011/2012, estou cada vez mais atenta ao português do Brasil. Aqui, em Portugal, o novo acordo foi muito contestado, sobretudo por se pensar que estávamos a ceder a pressões do seu país para uniformizar a língua segundo os vossos padrões. Pois a mim parece-me que a questão se prende com a forma como o português do Brasil chega até nós: a oralidade. E, basicamente, esta oralidade invade-nos pelas telenovelas e alguns filmes que retratam ambientes sociais degradados. Ora, naturalmente, essa oralidade não formal está impregnada de vocábulos, expressões e construções frásicas incorrectos do ponto de vista formal.

    Quero com isto dizer que os portugueses mudariam, certamente, de opinião se lessem bons textos em português do Brasil.

    Parabéns pelo seu registo de escrita. Rivaliza com a sua criatividade e com a sua capacidade de tornar únicos momentos aparentemente banais do quotidiano. :)

    Simone

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  3. Muito bom, o mais legal é a riqueza de detalhes, que faz nossa imaginação voar...bjs
    Mônica Reis

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