quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Chá das Onze



Desenho: Dudu / Finalização: Roberta
Esperou até a chaleira romper o silêncio da noite com um grito estridente e pontual reclamando a presença imediata da dona da casa na cozinha. O segredo para um chá saboroso – se é que estamos falando propriamente de um mistério guardado a sete chaves, não me parece o caso – é a temperatura da água. Nada mais, nada menos que cem graus célsius. A partir de então, bastava promover a união. E o casamento perfeito aconteceria diretamente no interior da caneca de porcelana, onde, já fazia alguns minutos, o saquinho de ervas da família camomila aguardava pacientemente para encontrar sua cara metade. E ela chegava fervendo, estuante, febril, ardente, como devem ser os encontros de dois elementos saborosamente afinados.

Sem adicionar açúcar, adoçante ou qualquer artifício em condições de modificar o gosto original do enlace que acabara de promover – isso seria um verdadeiro sacrilégio de acordo com suas convicções –, a mulher rumou para o estreito quintal nos fundos de sua casa. Paredes brancas e bem conservadas acomodando janelas e portas de madeira impecavelmente envernizadas delineavam uma área construída de pouco mais de sessenta metros quadrados. Se não dispunha de um lar com cômodos amplos, cuidava, ao lado do marido, com extremo desvelo para preservar seu aconchegante cantinho – como ela própria se referia à sua residência ao receber visitas. Prestes a completar quarenta e cinco anos de casados, viviam os dois ali, sozinhos, fazia bem umas três décadas.

Ao passar pela entrada do quarto, ouviu um ressonar contínuo sinalizando que seu companheiro dormia em sono profundo. Antes, porém, alcançou o aparador da sala de estar e abriu a única gaveta fechada à chave. Retirou de seu interior um conjunto de doze folhas amareladas, empalidecidas certamente pelo tempo em que jaziam no móvel e pelo seu manuseio diário. Repetia o mesmo procedimento todas as noites, antes de se deitar. A propósito, dependia emocionalmente daquele ritual e o cumpria com disciplina litúrgica, caso contrário encontrava-se rendida à saudade lancinante, nefasta, a ferir sua alma da maneira mais cruel e impiedosa. Um desassossego sem preço, sem medida.

Embora decidida, seguia a passos lentos pelo piso de sinteco que revestia a sala, os dois quartos e o corredor de acesso à cozinha, esta com o chão coberto de um porcelanato claro. Seus braços eram salpicados por uma infinidade de sinais que desenhavam, na pele curtida, as manchas trazidas pela ação do tempo. Os cabelos curtos e grisalhos e o rosto ligeiramente marcado emprestavam alguns anos a mais à senhora de olhos conformados, prestes a completar sessenta e três. Naquele instante, seus dedos calejados seguravam firmemente a caneca de um lado, enquanto, em oposição, sua mão esquerda espalmada comprimia o precioso documento contra o peito. Não teve maiores dificuldades em chegar ao quintal. Entreaberta a maior parte do dia, a porta dos fundos não exigiu de suas mãos ocupadas o acionamento da maçaneta.

Sentou-se num toco de madeira largo que fazia as vezes de banquinho. Posou a caneca ao seu lado na intenção de esperar alguns minutos até o chá atingir o ponto ideal para ser saboreado. A iluminação natural daquela noite de lua cheia contribuía consideravelmente com a única e fatigada lâmpada incandescente designada a dar conta de todo o quintal. Seus óculos, cujas hastes eram presas por uma fita improvisada que rodeava seu pescoço a maior parte do dia, foram devidamente posicionados. A exemplo das outras ocasiões, ao iniciar a leitura, foi tomada de uma emoção arrebatadora.

Há exatos vinte e um anos, passava diariamente os olhos atentos pelas linhas de grafia apressada da carta endereçada duplamente a ela e ao marido. Era o combustível da vida, a força motriz capaz de animá-la a enfrentar com resignação as provas mais duras da existência. Entre os goles de chá, sorvidos ao final de cada página, a esperança – que reclama cultivo cotidiano – renascia em seu coração dilacerado abruptamente, havia algum tempo, pela maior dor do mundo. Uma sensação aguda, indescritível, um sofrimento que parece não ter fim – e talvez não termine mesmo, apenas vai abrandando. E como aquelas letras garranchosas ajudam! Ajudam muito. 

Ao engolir a derradeira gota do chá de camomila, chegou ao último trecho da carta ditada por seu filho quatro anos depois do acidente de carro que o levou: “Fiquem em paz! Lembrem-se de que a morte não existe, apenas mudamos de roupa para renascermos na verdadeira vida. Estou bem e sempre por perto. Beijo, mãe e pai queridos!... Marquinhos.” De fato, ela sentia a constante presença de seu eterno menino, sobretudo naquele momento especial de cada noite. Após retirar os óculos, cerrou os olhos e fez uma breve prece de agradecimento. Estava mais leve, poderia dormir sem sobressalto. Já passava das onze.

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