sábado, 14 de abril de 2012

Ponto de Ônibus

Desenho: Dudu - Colorido: Roberta
Cheguei um pouco antes do horário para não correr o menor risco. Àquela altura, a meia do pé direito já começava incomodar com uma impertinência maior, quem sabe querendo se vingar por não ter lhe dado a devida atenção enquanto me vestia. Saí às pressas, com um naco de pão na boca e sorvendo o último gole de café com leite que passou pela garganta como se deixasse um rastilho do qual ainda não consegui me recuperar. Mal penteei o cabelo e, de alguma forma, isso trazia certa preocupação. Controlei os passos sistematicamente para que fossem apressados, porém numa cadência tal que não me fizesse transpirar. Impossível, mais um revés. Pior dos mundos: suado e descabelado, as minhas chances estariam sensivelmente reduzidas.

Os últimos postes de luz iniciavam seu período de repouso. Estiveram vigilantes a noite inteira, olhos acesos e presentes, perscrutando os movimentos mais furtivos ou simplesmente contemplando o quase silêncio de uma madrugada chuvosa. Nada mais merecido que se entregassem ao sono dos justos. Do alto, os matizes azulados cada vez mais claros se encarregavam de espanar as derradeiras nuvens, sinalizando não somente o início de uma bela manhã ensolarada, mas sobretudo indicando que os despertadores da turma das seis da matina iriam entrar em ação não demoraria cinco minutos. O ponto de ônibus conservava-se vazio.
  
Ao sentar, experimentei uma sensação de frio úmido se espalhar pelo jeans. Aquele pedaço de concreto coberto de madeira fina que, salvo engano, deveria estar ali para servir a mim - e a quantos fossem - não foi nada receptivo. Imagina que ainda não havia se livrado das últimas gotas de chuva, teimosamente presentes como se quisessem pregar uma peça nos mais desavisados. Devia ter desconfiado da indiferença com que o banco me recebeu, talvez irritado por eu ter chegado tão cedo e tê-lo feito despertar cinco minutos antes da hora convencional. E quem não se dá conta de quão preciosos são cinco minutos a mais de sono?!  Pensando bem, no contexto presente, eu era o elemento fora da curva, ninguém senão eu mesmo resolveu romper a rotina, pegando a todos de surpresa. Nada mais justo que me pusesse de pé para aguardar a condução. No entanto, isso seria muito lógico se estivesse, de fato, esperando a chegada do próximo ônibus.

Suado, descabelado e agora com as calças molhadas... As chances foram de vez para o beleléu! Preciso manter a calma. Por mais que tudo não tenha saído exatamente conforme havia calculado, o relógio continuava a meu favor. A incidência de automóveis na via parecia se intensificar rapidamente e o ponto passava a ficar abarrotado de pessoas com olhares apressados, muito embora uma parcela - eu diria a maioria - conserva certa madorna naturalmente compreensível. De onde havia surgido tanta gente num espaço de menos de dez minutos?! Um tempinho atrás, era a única viva alma a perambular por aí. De manhã, de repente, parece soar um sinal e, ao mesmo tempo, estudantes e trabalhadores começam brotar do solo aos borbotões. Sempre achei intrigante este fenômeno - creio que podemos chamar de fenômeno tal a complexidade do comportamento humano. Pra minha surpresa, ou melhor, decepção o que interessava mesmo ainda permanecia recôndito aos olhos do dia.

Ontem, foi a conta certa. Ela chegou no preciso momento em que sua condução encostou próxima ao meio-fio. Eu vinha do lado oposto e, pra minha felicidade, ainda tive tempo de confirmar aquilo que parecia ter enxergado a uns metros de distância. Era linda, muito linda, linda demais. Cabelos ondulados até os ombros, inesquecivelmente castanhos, olhos amendoados, memoravelmente verdes, boca polposa, expressivamente vermelha, pele morena recobrindo pernas e curvas inequivocamente delineadas. Pegou o ônibus exatamente às seis e cinco, sem que me desse chance de me aproximar e dizer qualquer bobagem apenas para puxar assunto. Dispensável confessar que passei as últimas 24 horas com a ideia fixa de abordá-la, torcendo para ganhar uns dois ou três minutos entre o provável momento de sua chegada ao ponto e a irritante pontualidade do carro das seis e cinco.

E por falar nele, aí está... Indefectivelmente, no horário habitual. No entanto, nem sinal dela. Embora uma pontinha de angústia ensaiasse ganhar corpo pela possibilidade de não encontrá-la, a esperança de que estivesse apenas atrasada encheu-me de ânimo. Devia ser nova no bairro, provavelmente desacostumada com o horário da condução. Pensando bem, melhor sentar e esperar. O banco havia abandonado inteiramente o comportamento inóspito de minutos atrás... Seis e dez: descartei o meu primeiro ônibus... Seis e quinze: ela perdeu o segundo... Seis e vinte: tensão pura... Seis e vinte e cinco: meus deus, nem sinal dela!... Às sete e meia, subi desesperançoso os degraus do transporte que me levaria ao colégio e me afastaria do objetivo – ao menos, por mais um longo e tortuoso dia. Pelo jeito, as próximas 24 horas vão ser de lascar!
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