sábado, 11 de janeiro de 2014

Brigar Não Vale a Pena

(Adaptação para teatro)



Desenho: Dudu - Colorido: Roberta

Quarto iluminado apenas por um abajur localizado na mesa de cabeceira, bem ao lado da cama onde o marido costuma se deitar. A mulher dorme pesado, ela está sozinha. Ele aproxima-se sonolento, havia adormecido no sofá da sala. Antes de se acomodar, o homem se senta na cama e procura acordar a esposa com suavidade. Primeiro, a chamando carinhosamente, quase sussurrando:

        — Lili, ô, Lili, acorda... Lili, acorda, vai...
        Ela nem se mexe. Ele resolve acariciar os cabelos da mulher, com leveza pra não assustá-la. Sabia o quanto sua esposa ficava irritada por ser acordada de forma abrupta. Esforçava-se para tentar despertá-la da maneira mais branda possível. Enquanto passava levemente os dedos pelos fios de cabelo que repousavam alinhados ao limite do ombro dela, permanecia sussurrando. Desta vez, um pouco mais alto:
        — Acorda, minha linda. Eu preciso falar contigo...
        Nada. Ela permanecia impassível. Ele olha para o lado e encontra sobre a cama uma pena de cor azul clara. Por incrível que pareça, o homem realmente pensou que seria uma boa ideia acordá-la movimentando delicadamente o seu achado pela orelha da mulher. Na terceira passada, a ponta da pena penetra a entrada do ouvido e sua esposa dá um salto:
        — Que merda é essa! — Ela grita assustada, coçando a orelha e demonstrando muito incômodo.
        — Calma, Lili, sou eu.
        — Isso é jeito de acordar os outros, Luiz Alberto? Que porra é essa que você enfiou no meu ouvido?
        — Caramba! Precisa desse circo todo? É só uma pena! Eu não conheço nada mais leve e suave que uma pena...
        — Ah, tá, quando você tiver dormindo então eu vou ficar passando uma pena no olho do seu cu pra ver se você desperta carinhoso...
        — Nossa mãe! Achei que eu tava chamando delicadamente a minha doce Lili, mas acabei acordando a porra da Dercy Gonçalves...
        — Porra, Luiz Alberto, me acordar com uma pena?! Onde é que você encontrou essa merda?
        — Tava aí, pela cama.
        — Cacete! Os meninos jogaram peteca no nosso quarto novamente. Já falei pra aqueles garotos que eu não quero bagunça aqui.
        Ah, não exagera, vai! Peteca é uma brincadeira saudável. Hoje a gurizada só quer saber de videogame... Melhor brincar de peteca que ficar enfurnado no quarto jogando GTA. Ainda bem que os meninos não estão nessa.
        — Quem disse que não?! Eles ganharam de dia das crianças. E que eu saiba, eles estão viciados no GTA 5.
        — Como "ganharam de dia das crianças"? E eu não sabia de nada?
        — Não sabia porque, quando eu falei, você devia estar vendo a merda do jogo do Flamengo e ficou fazendo cara de paisagem, concordando com tudo o que eu dizia.
        — Aí você aproveitou, né?
        Ela apenas faz um gesto abrindo os braços com as mãos espalmadas, sorrindo levemente e levantando as sobrancelhas, como se dissesse: "quem mandou?"
        — Mas logo o GTA 5, Maria Eliza?! O Matheus tem 6 anos, porra!... O Lucas tem 10, mas ainda não tem nem pentelho.
        — É... Vê-se que você não se liga muito nos detalhes...
        — Por quê? Ele já tem pentelho?
        — Não, Luiz Alberto, nem a idade dos seus filhos você sabe direito... E foi bom você me avisar que pra jogar GTA precisa ter pentelho. Eu ia dar aquela depilada geral pra dar uma apimentada, fazer uma coisa diferente, sei lá... Mas como eu quero jogar também pra ver como é o negócio, vou ter que deixar pelo menos o bigodinho...
        — Ha-ha-ha (debochando). Muito engraçada você. Eu estou sério assim na aparência, mas meu cérebro tá dando cambalhotas de tanto rir.
        — Beleza, você não me acordou pra falar sobre isso, né? Desembucha logo e deixa eu dormir, vai.
        — Porra, Maria Eliza, GTA 5?!
        — Minha nossa! O homem voltou com o assunto...
        — Claro, você acha normal eles terem contato com esse universo? Nesse jogo o cara fuma maconha, sai roubando e matando quem aparece pela frente...
        — Putz, ele fuma maconha? Achei que só roubava uns carros e cortava a cabeça das pessoas...
        — Hein?!!!
        — É que sobre roubar e matar eu já conversei com eles, falei que era errado e entenderam bem. Mas, da maconha, eu não sabia...
        — Tá bom, tá bom, deixa... Vamos ao que interessa. Eu te acordei pra gente terminar a conversa que não terminamos ontem.
        — Ok, mas à 1h da manhã? A gente não poderia falar num horário mais apropriado?
        — Poderia sim, mas você tem problema em concluir as coisas que começa.
        — Como assim? Do que você tá falando?... Mais de três bilhões de homens no mundo e eu fui casar com o único cara que insiste em fazer D.R... E de madrugada!
        — Nossa, mas você tá tão espirituosa... Fazendo piadinha sofisticada... Com estatística e tudo... Andou lendo a Superinteressante por esses dias?
        — Ai, minha nossa senhora dos sonâmbulos, por que será que nós não terminamos o raio da conversa que começamos ontem?
        — Você não se lembra, eu te digo por quê. Quando a conversa estava chegando perto de uma possível conclusão, começou a sua novelinha... 
        — Mas depois que a novelinha acabou, começou o seu joguinho... 
        — E quando acabou o joguinho, cadê você? Já tinha ido pra caminha...
        — Claro, você queria que eu ficasse do seu lado fazendo a análise da partida?... E você fala como se tivesse passado muito tempo: "Oh! A conversa que não terminamos ontem". Ontem o cacete! Tem algumas horinhas só... E o senhor certinho não pode esperar um tempinho pra concluir as coisas que inicia.
        — Quer saber, dona Maria Eliza, eu me orgulho mesmo de ser certinho. E foi ontem sim que começamos a conversa. Como já passou da meia-noite, um novo dia se iniciou...
        — Certo, e o que você precisa terminar comigo que não pode esperar nem o dia amanhecer?
        — Você não muda mesmo, né, Maria Eliza?
        — Não mudo o quê, Luiz Alberto?
        — Não muda esse jeito de nunca terminar o que inicia?
        — Do que exatamente você tá falando agora?
        — Por exemplo, quantos cursos de inglês você já se matriculou na vida?
        — Sei lá, uns cinco ou seis...
        — E concluiu algum deles?
        — Não, mas...
        — Faculdade. Foram três: Direito, Administração e Arquitetura. Pergunto: é formada?
        — Não...
        — Até aquele negócio lá, como é mesmo o nome, que as pessoas se reuniam umas nas casas das outras e quem entrava fortalecia quem havia entrado antes...
        — Pirâmide?
        — Isso!
        — Ah, pera lá! Aí você pegou pesado. Isso era a maior roubada. Fiz muito bem de não ter concluído.
        — Tudo bem, mas não está em discussão a qualidade do negócio. O fato é que você não conclui nada que inicia.
        — Ai, minha santa paciência, será então que a gente não pode, se não for pedir muito, terminar aquela conversa que não terminamos ontem?
        — Podemos, claro. Sempre há uma primeira vez na vida.
        — Chega! Cacete! Fala logo que merda é essa que a gente estava conversando e que não terminou senão eu não respondo mais pelos meus atos.
        — Calma, era justamente sobre isso.
        — Sobre isso o quê, Luiz Alberto?
        — Sobre o fato de vivermos brigando por motivos idiotas.
        — E por que mesmo a gente começou essa briga agora?
        — Sei lá, acho que você não curtiu muito a forma como eu te acordei.
        — Ah, sim, a pena...
        — Desculpa, viu, Lili. Vou tentar segurar a onda, vou procurar ser menos exigente contigo, com os meninos... Vou prestar atenção em você mesmo quando estiver vendo o jogo do Mengão...
        — Olha lá, Beto... Não promete aquilo que não vai conseguir cumprir...
        Ele sorri. Ela corresponde o sorriso e diz:
        — Tô brincando.
        — Você tá com muito sono?
        — Agora não mais. Por quê?
        — Por que a gente não termina aquilo que estávamos fazendo ontem de manhã?
        — A gente deixou de terminar mais alguma coisa?
        — Não lembra? O Matheus entrou no quarto de repente pra avisar que a excursão da escola tinha sido cancelada...
        — Huuummm... E onde mesmo a gente parou?
        — Eu estava beijando seu pescoço. Maior climão...
        — Então pode começar. Estou pronta.
        — Sei... Jura que agora vamos até o fim?
        — Ah, bobo!... Disso você pode ter certeza!
        Risos.
        Ele apaga a luz do abajur.


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Brigar Não Vale a Pena de Alexandre Cunha dos Santos está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://tipoescrito@blogspot.com.br.

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