quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Árvores

Desenho: Dudu GuimaS - Colorido: Roberta GuimaS
Não ventava. As árvores pareciam promover entre si um breve desafio. Ai da folha que ousasse se precipitar e pusesse tudo água abaixo; embora água ali não houvesse. Ao menos, nesta história seca, não foram encontrados registros que levassem a uma interpretação literal da imagem criada. E, à pertinente ideia de levar tudo ao pé da letra, esclareço que o registro citado tampouco tem relação com a chave que regula a passagem de um fluido. Muito pelo contrário. Nem água, nem vento. As copas das árvores permaneciam imóveis. E, mesmo paralisadas, havia certo ar de apreensão entre elas, que se conservavam vigilantes, a espera do descuido alheio para enfim apontarem o ato em falso do vizinho e assim eliminarem progressivamente uma a outra até a definição da finalista.

Nada de inusitado neste cenário em que árvores brincam de estátua para vencer o tédio da ausência de vento. O tédio, diga-se de passagem, é algo pavoroso, não o desejo a nenhum ser, animal ou vegetal. A falta de vontade, a apatia, a incapacidade de tornar interessante o cotidiano são uma daquelas pestes que causam profunda aversão e verdadeiro pânico. Portanto não me espanto em ver duas Amendoeiras, uma Mangueira, uma Figueira e um Salgueiro-chorão brincando de estátua. Era uma das minhas brincadeiras preferidas na infância. Talvez porque ganhasse quase sempre dos meus amigos. Aliás, meu egoísmo infantil não me permitia aceitar a relutância do Cachoeira em brincar. Certamente também criaria alguma resistência se fosse eliminado amiúde de forma precoce. Faz sentido.

Como faz muito sentido esse apelido: Cachoeira. Reza a lenda que o pobre foi chamado pela primeira vez deste nome no dia em que entrou pela porta de vidro de uma loja de brinquedos. Assim como dez entre dez meninos de onze anos, o Cachoeira era louco pelo "Pegasus", o carro de controle-remoto mais sensacional dos anos 80. Quando bateu o olho e viu a caixa estampando aquela máquina prateada com rodas de liga-leve, não pensou duas vezes, foi sedento ao encontro do brinquedo com a sanha de revelar à mãe sua primeira e única opção de presente de Natal. Dizem que a transparência da porta era tamanha a ponto de iludir até os mais atentos, mas, no caso do Cachoeira, parece detalhe, o hipnotismo momentâneo foi mesmo o ponto preponderante, fazendo o coitado passar como uma bala pelo vidro da loja. Dispensável dizer que se cortou inteiro, era sangue da cabeça aos pés. Daí surgiu o mais impressionante da história. Seu choro foi tão copioso, suas lágrimas tão caudalosas, que foram descendo pela face e inundando o corpo, lavando o sangue que jorrava por todo o lado como se o menino estivesse mergulhado em uma tranquilizante e reparadora cachoeira.         

Voltando às árvores que permaneciam brincando inertes, percebi uma algazarra silenciosa quando o Salgueiro-chorão foi denunciado por movimento furtivo. Eu confesso não ter observado, mas devo dizer ainda que a lembrança do Cachoeira me tirou um pouco a concentração da brincadeira. Entretanto não me arriscaria advogar a favor do Salgueiro porque, segundo consta, seu último nome veio incorporar-se por autoria da Mangueira, muito embora os estudiosos da botânica tenham uma versão diversa. Alegam que formato alongado e fino das folhas e sua projeção voltada para baixo emprestam um ar melancólico à árvore. Particularmente, a história da Mangueira me parece mais fiel à realidade. O Salgueiro-chorão ganhou esse apelido pelo simples fato de não aceitar perder na brincadeira. Reluta, tentando convencer os demais com argumentos pouco convincentes e, ao final, sem obter sucesso, se debulha em lágrimas até se cansar.


Deixando de lado a manha do Salgueiro, pouco a pouco, as eliminações foram acontecendo, instando como grande campeã da noite a Figueira que perseverou como uma estátua fiel durante dez intermináveis minutos sem uma brisa sequer. Porém, em se tratando de natureza, as mudanças de humor são quase sempre intempestivas. O vento, que não dava as caras, começou chegando de mansinho, primeiro fazendo tilintar o furín pendurado no teto da varanda. E depois trazendo como companhia uma rajada gelada e úmida que me obrigou a encolher de frio.  As árvores agora bailavam com seus diversos braços soltos pelo ar, tremulando suas cabeleiras verdes para compensar a ausência do movimento que não poderia provir das pernas, inertes de nascença. Já passava das duas, melhor voltar pra cama. E que, desta vez, eu possa dormir até de manhã.
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Um comentário:

  1. Bom de ler!!! Aprendi sobre o Salgueiro-chorão, não sabia nem que existia...

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